Brasil, Comentário, Ficção

Precisamos falar sobre a edição de “Obra Completa”, de Raduan Nassar

raduan-2-obra-completaVamos combinar uma coisa de início. Se a “Obra Completa”, de Raduan Nassar, fosse editada pela Rocco ou pela Intrínseca, do jeito que ela acabou de ser publicada, iria ser alvo de críticas ferrenhas por parte do jornalismo cultural da grande imprensa, dos blogs intelectualoides, que adoram receber mimos de grandes editoras e posam de formadores de opinião, e da rede de blogs da patifaria geral, aqueles que são parceiros, que leem 20 livros simultaneamente e não conseguem articular um raciocíonio mais complexo do que “eu gostei, eu não gostei, adorei a capa, ele é fino, olha as ilustrações” – e cá entre nós, esses não se diferenciam em quase nada dos intelectualoides, que fingem ser corretos, usam academicismo, escrevem textos longos, conhecem as pessoas certas, mas não contam que são parceiros das editoras e recebem livros para escrever suas críticas – e é interessante perceber quais livros eles elogiam e quais não.

Por que escrevi isto?

Porque a “Obra Completa” foi editada pela Companhia das Letras, casa adorada por esses canais, meio bobos, meio deslumbrados. A editora tem sim um ótimo catálogo, talvez o melhor do Brasil.

Costuma acertar nas suas traduções, tem capricho e bom gosto, esse ser tão subjetivo, mas que é perceptível quando comparado ao que outras editoras fazem no Brasil.

O problema é que a Companhia das Letras é queridinha, e seus erros nunca são tratados como deveriam ser – como erros. Eles, na verdade, são esquecidos ou ignorados. É o problema dos blogs e da imprensa amiga. Pior ainda: a Companhia é dona de boa parte do mercado editorial – Alfaguara e Objetiva estão sob seu guarda-chuva. Ninguém quer se indispor com a grande editora-mãe.

Mais para frente falo de caso semelhante, com a editora Rádio Londres.

Mas voltemos.

A edição da “Obra Completa”, de Raduan Nassar, é fraca. Fraquíssima. Quase um desrespeito ao leitor e um imenso descaso com a obra e com o autor. Explico.

A edição reúne num único volume seus três livros publicados – “Lavoura Arcaica”, “Um Copo de Cólera” e “Menina a Caminho”, este, uma seleção de contos. Inclui mais três textos inéditos em português, dois contos – “O Velho” e “Monsenhores” – e um ensaio – “A Corrente do Esforço Humano”.

É o que se tem de Nassar, pelo menos como material conhecido – vai saber se as gavetas do escritor guardam mais alguma coisa.

Reunidos esses textos, a editora acrescentou uma fortuna crítica – somente uma lista de diversos textos, publicados em livros, revistas, jornais e sites -, uma lista com as edições estrangeiras de seus livros (!?) e a ficha técnica das adaptações cinematográficas dos dois romances. O perfil de Nassar: 11 linhas.

A fortuna crítica é muito boa, selecionada por Elfi Kürten Fenske – seu nome foi grafado no livro como Fernske, com R, mas nas suas redes sociais (Facebook, YouTube, Google+) e em seu blog Templo Cultural Delfos o nome aparece sem o R. É vasta, bem pesquisada e certamente tem seu valor. No Facebook, ela diz que seu nome foi indicado pelo próprio Nassar.

Mas convenhamos, publicar uma coleção como esta sem oferecer textos extras beira a brincadeira de mau gosto. Edições desse tipo pedem mais.

Esse mesmo problema já havia acontecido com as edições comemorativas dos dois romances. Os 30 anos de “Lavoura Arcaica” foram celebrados com uma edição de capa dura e a reprodução do texto original revisado. No final, o mesmo perfil que agora a “Obra Completa” reproduz – ou seja, é o texto de 2005.

Já a edição comemorativa de 35 anos de “Um Copo de Cólera” repete o trabalho gráfico e acrescenta uma seleção de textos, aproveitada na “Obra Completa”.

Ou seja, a obra de Nassar não recebeu atenção. Este conjunto usa a capa dura vermelha e agrupa os livros do autor. E só. Serve para surfar na boa onda que os livros do escritor vêm encontrando no exterior, finalmente.

É pouco para o tamanho da obra do escritor. É um trabalho preguiçoso, que apenas preserva no catálogo os títulos de Nassar, sem oferecer ao leitor um extra que justifique a edição para quem já tem os livros individuais. Nem oferece um olhar mais aguçado, crítico, analítico sobre o trabalho do autor para quem quiser se iniciar em Raduan Nassar ou se aprofundar – algo que os “Cadernos de Literatura”, do IMS, fizeram com certa competência.

todos-os-contosPor que a comparação com a Rocco e a Intrínseca no início do texto?

A Rocco é ironizada frequentemente pela intelectualidade banal por seu trabalho gráfico e editorial. Só conseguiu algum respaldo com a edição dos contos completos de Clarice Lispector, elogiada mais pela capa do que pelo trabalho de Benjamin Moser, organizador do volume.

Essa edição dos contos de Lispector traz um prefácio de Moser e notas explicativas de cada obra ao final, um trabalho elogiável e de qualidade. E que foi tratado como exceção.

Talvez um ou outro título encontre boa sorte nesse meio, mas a editora não é do time das queridinhas.

A Intrínseca sofre do mesmo problema. Quando foi anunciado que a editora iria publicar parte da obra de Elena Ferrante, surgiu o caos. Todos temendo a edição e a tradução, antes mesmo do lançamento dos livros.

Por isso, se a “Obra Completa” de Nassar fosse publicada pela Rocco ou Intrínseca tenho a mais absoluta certeza de que seria criticada. Porque ela merece ser criticada, pois é fraca e aquém do seu conteúdo e de sua importância. Mas como é da Companhia das Letras…

contos-reunidos_livroHipótese: Imagine o que uma Cosac Naify faria com esse material? Quer uma amostra? É só ler “Contos Reunidos”, de João Antônio, um trabalho dos mais interessantes e bem feitos sobre a obra de um autor.

“Contos Reunidos” é um volume de fôlego que engloba o melhor da produção de João Antônio, traz prefácio de Rodrigo Lacerda, fortuna crítica – em textos, não em lista – e um caderno com a reprodução em fac-símile do “Vocabulário das Ruas”, criação do escritor com os significados de gíria e do coloquialismo das ruas.

A “Obra Completa” de Nassar não tem nada disso. Não tem um prefácio que tratasse da importância da obra. Uma análise dos seus livros, uma pequena seleção de críticas e estudos. Nada. O leitor que se interessar que vá atrás da fortuna selecionada.

Se os livros de Nassar fossem editados pela Penguin, com a capa de papelão e formato menor, seriam muito mais bem tratados na comparação com o que a Companhia fez nesta edição vexatória.

Um problema grave chamado Rádio Londres

Com a Rádio Londres, aconteceu a mesma coisa. Silêncio.

Fui um dos infelizes leitores/consumidores a ter comprado na primeira hora o livro “Stoner”, de John Williams. Romance com boas críticas no exterior, inédito no Brasil, era uma lançamento ousado da editora estreante, uma espécie de carta na mesa. O restante do catálogo inicial mostrava a disposição de oferecer uma lufada de ar fresco nas escolhas editoriais.

O problema é que a primeira edição do livro era um lixo. Centenas de erros de revisão, de tradução, de língua. Centenas, não dezenas. A leitura era impraticável. Escrevi sobre o livro e pedi o recall, era a única forma decente de tratar o consumidor, pois o livro estava claramente defeituoso.

Blogs e a imprensa se calaram. Os intelectualoides se negaram a escrever sobre o livro, mas tempos depois se tornaram parceiros velados da editora (esses são os piores), rasgando elogios descaradamente. Os blogs da patifaria geral desconversaram e ignoraram o problema. Tempos depois, se tornaram igualmente parceiros da editora.

A primeira crítica mais contundente surgiu quase dois meses depois, quando a editora já preparava a segunda edição do livro, revisada. Era tarde demais para quem comprara a primeira edição e se viu com um lixo nas mãos. Mas o tempo foi suficiente para escancarar o quanto há de promíscuo nas relações entre editoras, blogs e imprensa cultural.

A Rádio Londres nunca recebeu críticas de acordo com o problema que gerou. Nem a Companhia das Letras recebe quando publica edições como esta de Raduan Nassar. Se “Stoner” tivesse sido publicado pela Intrínseca, seria intensamente criticado – como o livro de Ferrante foi antes mesmo de ser lançado.

Mas ficar amigo das editoras mais bacanudas me parece um negócio legal e promissor. Sem perceber (ou se fazendo de desentendidos), trabalham de graça para as editoras, como um departamento de marketing anexado, prestando serviço em troca de livros. Intelectualoides e patifes – uns ganham reconhecimento do meio, outros agregam seguidores.

É assim que vamos. Lendo menos, lendo mal, lendo críticas superficiais, lendo divulgação disfarçada de críticas acadêmicas e aplaudindo mediocridades.

*****

Sinapse

Escrevi sobre “Lavoura Arcaica” e um encontro com Raduan Nassar no texto linkado.

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7 thoughts on “Precisamos falar sobre a edição de “Obra Completa”, de Raduan Nassar”

  1. Ótimo artigo! Um comentário, eu li alguns livros da Rádio Londres (Tirza, Estação Atocha, Butcher’s Crossing e Stoner na segunda edição) e acho que o trabalho de revisão e edição não está ruim, são poucos erros que notei. Agora, no caso da primeira edição do Stoner, mesmo sem recall (acho difícil do ponto de vista econômico, como você mesmo já comentou antes), a Rádio Londres deveria ter se posicionado de forma mais clara e se desculpado veementemente com seus leitores.

    E o mercado está ficando caro, mesmo. Um livro de 200 páginas custar R$ 40,00, por exemplo, é um absurdo. Isto representa quase 5% do salário mínimo, como formaremos um País de leitores se há tanta dificuldade de acesso aos livros (23% da população brasileira vive com menos R$ 800 por mês)?

    É mais fácil continuar na gourmetização da literatura e com o tapinha nas costas.

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    1. Os livros lançados depois da primeira edição de “Stoner” já vieram com uma revisão bem feita. Mas o trabalho na primeira é vergonhoso, se é que existiu. Quanto ao preço dos livros, este ano, subiu demais. É difícil encontrar um bom título por menos de R$ 40. O tapinha nas costas acaba sendo a solução mais fácil, assim como a ação entre amigos.

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  2. Bom exemplo de tudo isso é o fato de a obra do Daniel Galera ser tão elogiada por diversos blogs e etc. É um péssimo escritor que raramente é criticado com honestidade.

    Curtido por 1 pessoa

    1. Concordo contigo. Galera é um péssimo escritor, já escrevi aqui em outros textos. Só que é bacana gostar dele, dessa confraria de escritores moderninhos, descolados e que fazem literatura de segunda

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  3. Excelente artigo.
    Eu, particularmente, reconheço o catálogo da Cia. das Letras como um dos melhores, mas é uma editora chata e ditadora de preços, além de outros defeitos como os mencionados por você.

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