Ficção, Hungria, Notas de leitura, Rússia

Notas de Leitura – Um húngaro, um russo e um pitaco sobre o preço dos livros

tradutor-cleptomaniaco“O Tradutor Cleptomaníaco” (Editora 34), de Dezsö Kosztolányi
O complemento ao título do livro, que ganha uma reedição 20 anos depois, “outras histórias de Kornél Esti”, indica que temos pela frente uma coleção de contos do personagem principal do escritor húngaro, uma espécie de alter ego. São 13 histórias em 130 páginas, textos curtos, sempre com Esti, seja como narrador ou interlocutor. Kosztolányi ambienta as histórias na Budapeste do início do século 20, em lugares que reúnem tipos boêmios, desajeitados, alguns à margem. Esti é cínico, nem sempre correto, mas carregado de um humor fino. As histórias dão a impressão de algo banal, o ponto de partida é o cotidiano que surge para Esti, uma aventura, um caso. Como o conto que dá título ao livro, a história de um tradutor que rouba os personagens das obras que traduz, uma história inventiva. Ou da madame que se mete a ser escritora e entrega um calhamaço a Esti para que ele avalie. Há o salva-vida que se mostra um preguiçoso perigoso. As histórias de fôlego curto entregam muito mais do que o número de páginas possam sugerir. São ricas, muito bem construídas, retrato de uma época, mas que também poderiam ser contadas numa mesa de bar – como Esti conta algumas. Uma pérola, felizmente em nova edição.

Mais sobre escritores húngaros no blog

uma-historia-desagradavel-fiodor-dostoievski-5“Uma História Desagradável” (Editora 34), de Fiódor Dostoiévski
Conto do escritor russo publicado em uma revista em 1862, época de “Recordações da Casa dos Mortos”, “Uma História Desagradável” capta o momento em que um general, bêbado, decide entrar na festa de casamento de um subordinado. O que ele imagina ser um ato de bondade e magnânimo surge apenas como um algo carnavalizante de um penetra. A ida ao povo, mais do que populismo, no texto de Dostoiévski cresce apoiada em humilhação e subserviência. O conto é curto, tem pouco mais de 60 páginas e é considerado um dos pontos altos da fase que antecede os grandes romances do escritor, como “Crime e Castigo” e “O Idiota”.

*****

A Coleção Leste é uma das grandes iniciativas editoriais do país. Publicada pela Editora 34, com direção de Nelson Ascher, traduz diretamente da língua original obras fundamentais do russo, húngaro, polonês.

Há um cuidado muito bem-vindo com a tradução e com textos complementares, que ajudam a entender e contextualizam a obra.

Mas os livros estão se tornando quase inacessíveis. Os grandes romances de Dostoiévski, como “O Adolescente” e “O Idiota”, saem a R$ 98. “Os Irmãos Karamázov” custa “R$ 118. Volumes médios nunca saem por menos de R$ 50. Este “História Desagradável” tem preço oficial de R$ 38 e “Tradutor Cleptomaníaco”, com suas 136 páginas, sai por R$ 42.

Compro os livros da Coleção há muito tempo, mas não lembro de preços tão altos assim – será que a memória falha? o custo de vida bateu? Por isso me espantei ao ver os valores atuais.

Os preços de tabela não resistem e as livrarias virtuais acabam oferecendo descontos portentosos nos livros da coleção. Dos grandes romances de Dostoiévski, só me faltava “O Adolescente”, lançado em 2015, por R$ 89. Só comprei quando a Saraiva me ofereceu por R$ 41. Todos os outros foram comprados há muito tempo e por preços bem razoáveis.

Pena, pois as alternativas no Brasil não são lá uma boa solução. Com o fim da Cosac, que tinha obras dos russos no catálogo, sobram as traduções da Martin Claret (um horror) e L&PM.

Livro está caro no Brasil. E não sabem porque o índice de leitura é baixo. Voltarei ao tema de preços de livros em breve.

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5 thoughts on “Notas de Leitura – Um húngaro, um russo e um pitaco sobre o preço dos livros”

  1. Olá,

    Gostaria apenas de fazer uma observação no que se refere as traduções da Martin Claret. As traduções mais antigas, em muitos casos, foram fruto de plágio, como tive a felicidade de descobrir ao acessar o blog da tradutora Denise Bottmann (http://naogostodeplagio.blogspot.com.br/). Talvez motivada pela “descoberta”, fato é que a Martin Claret tem demonstrado um cuidado maior com as edições mais recentes. Antes de adquirir a edição de Crime e Castigo traduzida por Oleg Almeida, fiquei com “um pé atrás” por conta do histórico da editora. Ao pesquisar um pouco sobre a história do tradutor, seu trabalho, o reconhecimento já alcançado por ele, comprei o livro com prazer! É claro que não conheço nada de russo, mas a própria Denise se referiu ao tradutor como “profissional sério e conhecedor do russo”.

    Caso queira conhecer um pouco mais o tradutor, deixo aqui alguns links:

    https://sites.google.com/site/olegalmeida/livros/tradutor

    Abraço e parabéns pelo blog!

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    1. Oi Mateus, não conheço as novas traduções, espero realmente que tenham melhorado e que a editora tenha mudado seus métodos. Quanto mais oferta de qualidade, melhor.
      Abraço e obrigado pelas palavras.

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  2. Me interessei pelo tema de ”O Tradutor Cleptomaniaco”.
    Mas sabe se vou encontrar em Português e em qual livraria de São Paulo?
    Grato e um abraço
    Luiz Carlos Balerini.

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