Brasil, Comentário, Ficção

Kucinski acerta contas em “Os Visitantes

os-visitantesEste é o quarto livro do escritor tardio – começou a escrever ficção aos 74 anos. Todos giram em torno de dois temas: a ditadura militar e a morte da sua irmã pela repressão. Foi assim com “K.”, o mais biográfico, “Você Vai Voltar para Mim” e fraquíssimo “Alice”.

Para ler este “Os Visitantes”, é necessário ter passado por “K.” – ou ao menos saber do que se trata a obra. Kucinski promove um acerto de contas com seu livro e a reação que provocou.

“K.” foi publicado por uma editora pequena e praticamente não aconteceu – ficou restrito à crítica, apesar de boa presença em prêmios literários. Somente quando foi relançado pela Cosac Naify sua obra ganhou espaço, tanto em jornais como em leitores.

Agora, em casa nova, após o fim da Cosac, Kucinski trata do que teria acontecido após o primeiro lançamento de “K.”.

“Os Visitantes” é um livro num formato episódico – não é um livro de contos, mas de capítulos que se encerram ao final. Um escritor que publicou um livro que simplesmente não teve alcance recebe uma série de visitantes em seu apartamento. Todos eles querem falar desse livro que escreveu.

Há cobranças de pessoas que se reconheceram nas páginas. Pessoas que agradecem e  raivosamente criticam. Todos a misturar ficção e realidade, a dizer “Como você pode escrever sobre tal pessoa e entregar seu nome?”. Pessoas que criticam a forma como ele escreveu sobre quem combateu a ditadura sobram na sua porta, reunindo acusações de difamação, de erros históricos e afetivos.

Enquanto recebe todos, muitos deles desconhecidos, o escritor reflete também sobre seu texto. Sobra uma certa mágoa para a crítica, que ignorou o livro. Aceita os erros, mas tenta, sem sucesso, explicar que o livro é uma ficção.

Seu personagem, reflexo de Kucinski – é impossível separá-los -, não carece de verossimilança, é real, palpável. A ideia dessa espécie de acerto de contas, tanto por parte dos leitores que visitam o escritor como do Kucinski refletido no seu alter ego, encontra no texto um escape vigoroso, uma vingança recheada de mágoa e raiva.

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Sinapses: Para ler mais sobre Kucinski

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