Comentário, Ficção, Itália

Elena Ferrante, em “Dias de Abandono”: como uma trama banal se traduz em vigor narrativo

Li Elena Ferrante pela primeira vez há quase um ano. Seu livro de estreia no Brasil, “A Amiga Genial”, o primeiro da tetralogia napolitana, não me causou impacto positivo. Pelo contrário.

Apesar dos inúmeros elogios ao livro, não consegui enxergar naquela leitura tudo aquilo do que falavam. Uma leitora do blog me falou para dar uma segunda chance a ela.

Veio o segundo volume da série, “História do Novo Sobrenome” (assim como o primeiro, da Biblioteca Azul), e, em seguida, saiu uma tradução de um título fora da tetralogia, “Dias de Abandono”. A febre Ferrante avança a passos largos. Ela tem duas editoras no Brasil – a Intrínseca já está publicando parte da obra da escritora, que deverá ter toda sua bibliografia em português até o fim de 2017.

Recentemente, um jornalista italiano diz ter descoberto quem é o nome real por trás da autora. Seria a tradutora Anita Raja. Gerou comoção.

Enfim.

O fato é que não fiquei imune ao fenômeno. Por mais que resistisse, após a decepção inicial, é difícil não se render a tal força – os exageros quase minam a vontade de ler Ferrante, assim como a defesa da autora feita por uma turminha literária descolada e ao mesmo tempo perigosa, pois um clubinho de tapas nas costas e compartilhamento de links entre si autoelogiosos – esse é assunto para outro dia. Vamos em frente.

dias-de-abandonoNão embarquei na Série Napolitana. Fui de “Dias de Abandono”. E desta vez o resultado foi diferente.

Um livro angustiante, extremamente simples e verossímil. Escrito com potência, uma certa raiva, “Dias de Abandono” talvez seja uma porta de entrada no universo Ferrante melhor do que a tetralogia.

Neste, a autora trata de relacionamentos. Temos o fim do casamento de Olga e Mario após 15 anos, que vai gerar uma série de outros relacionamentos que aos poucos vão sugando a alma de Olga.

Se a base é o fim da relação amorosa e, ao que parecia, duradoura, o livro se desenrola em relações não mais tão escoradas nesses parâmetros. São furtivas, recheadas de mágoa, traumas e violência.

Olga tem que cuidar dos filhos após a saída do marido. O fim meio repentino deixou uma esteira de falta de explicações – o que fazer com o apartamento, quem cuida dos filhos, por que você me deixou? As respostas vão sendo dadas ao longo das páginas. Enquanto isso, Olga precisa reinventar a relação com os filhos que enxergam na nova vida do pai uma saída para o caos instalada em suas vidas.

Outro ponto importante da obra, que parece ser uma bobagem, mas que Ferrante instala como decisiva para revelar o que move Olga, uma escritora que parou de trabalhar e que tenta retomar sua vida profissional, é o relacionamento com Otto, um cachorro que Mario quis ter.

Com a separação, esse outro ponto não resolvido foi herdado de forma compulsória por Olga. Ela tem que passear com o cão e incorporá-lo à sua rotina. Até chegar a um ponto de virada, num passeio no parque, Otto será o elemento a representar a separação.

Para fechar a série de relacionamentos, seu vizinho de condomínio surge como uma forma de também se reinventar, assim como Mario fez com sua vida. Carrano é quem fará o papel de suporte, mais até do que uma área de escape para Olga. Entre flertes e resistências, é dessa relação que ela irá encontrar uma rota para seguir em frente.

A prosa de Ferrante é crua, dura, a retratar a mulher sem máscaras. Entre a obsessão com a volta do marido e a necessidade de acordar todo dia e resolver as pequenezas da vida, como a fechadura da casa, Olga expõe sua fragilidade naquele momento enquanto briga consigo para se reerguer, se apoiando em ilusões e na realidade que pede passagem.

Narrado em primeira pessoa – apesar de, em uma curta passagem, Ferrante trocar de narrador sutilmente -, o livro traz descrições de sexo tão boas e reais, sem apelar para clichês – J.P. Cuenca deveria ler Ferrante.

“Dias de Abandono” é um livro que, mais do que me chamar de volta à obra de Ferrante, mostra um talento capaz de tirar de uma trama aparentemente banal, tantas vezes contadas, um retrato da mulher sem filtros, apoiada num vigor narrativo que impressiona do início à última página.

Anúncios

3 thoughts on “Elena Ferrante, em “Dias de Abandono”: como uma trama banal se traduz em vigor narrativo”

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s