Cuenca roda em “Descobri que Estava Morto” sem encontrar rumo

descobri-que-estava-mortoMuito hype cercou esse livro, “Descobri que Estava Morto” (Tusquets), de J. P. Cuenca.

Primeiro, a própria história. O autor descobriu, por acaso, que foi dado como morto. Segundo, o filme sobre a investigação feita por ele mesmo e transformada em documentário. Terceiro, o livro recebeu a aprovação de Enrique Vila-Matas (favorito de hipsters literários). Para fechar, o título inaugurou o lançamento do selo espanhol pela Planeta – muito bem-vindo.

E o livro sobrevive a esse hype? Bem, se tirarmos a vontade de o autor querer chocar, como as descrições nas cenas de sexo, o livro reflete o vigor que a literatura contemporânea exibe ao exercitar formas e linguagem – ou, pelo menos, o esforço de criar algo novo. Se é algo suficiente para sobreviver, bem, vejamos.

Antes, sobre as cenas de sexo, não tem nada de pudor, mas é que realmente ficaram fora de prumo, deslocadas e feitas para chocar, não muito naturais e nem bem escritas – ele deveria ler “Dias de Abandono”, de Elena Ferrante.

Mas vamos ao livro.

Após descobrir a certidão de óbito em seu nome, um escritor se une a um jornalista e um detetive para tentar descobrir o que aconteceu. Ele vai percorrer o Rio de Janeiro, enquanto tem que cumprir suas obrigações de autor – turnês que se transformam em viagens no melhor estilo mochileiro. Rio que vive a pré-Olimpíada, com suas obras e despejos, vivamente criticadas pelo narrador – trechos que quase se vestem de panfleto, tal qual um textão do Facebook.

Ele mesmo resolve assumir o anonimato no meio da investigação, como se tentasse provar que a morte pudesse existir enquanto vida.

A investigação, mote de partida, some em meio a festas orgiásticas e a obsessão em viajar. Surge uma rala discussão sobre literatura, meio deslocada, lá no meio do livro. O leitor se pergunta: o que Cuenca pretende? Procurar respostas sobre sua morte ou se encontrar como escritor? Fazer literatura de viagem? Refletir a condição humana diante do momento político?

Esse jogo literário, se foi a intenção, careceu de profundidade. Veja o que diz uma interlocutora do escritor:

” – Você precisa viver uma vida de verdade. Você tem que parar de viajar pra festivais e palestras, isso é nefasto pra sua literatura. Você tem que se isolar e não ir para lugares onde você só fala de si mesmo. Pra entrar em personagens é preciso estar aberto. O festival literário te joga sempre de volta para a vidinha de escritor, não para a imaginação.”

Tem uma geração de “escritores parças” que precisa urgentemente ser reavaliada. Parar de dar tapa nas contas, trocar elogios. Outro exemplo: Daniel Galera. Por que as editoras publicam esses caras? Não sei, mas é uma geração boa de bastidores, ao que parece.

Voltando. Em certos momentos, me lembrou o trabalho de Ricardo Lísias e seu Detetive Tobias – a confusão entre personagem e autor, as papeladas da investigação reproduzidas -, mas Cuenca perde em qualidade. Este é um detalhe de uma obra que rodou em vários eixos e ao final deixa dúvidas sobre qual rumo quis tomar.

Talvez seja essa a intenção. Talvez, remetendo ao trecho destacado, Cuenca precise parar de falar sobre si mesmo.

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