Alemanha, Entrevista, HQ

“Ghetto Brother”: autor de HQ sobre o pacificador do South Bronx fala das gangues e de “The Get Down”

O South Bronx, na virada dos anos 60 e 70, era uma espécie de terra de ninguém. Formada por negros e latinos, basicamente, a região ao sudoeste de Nova York vivia sob violência e em um cenário de guerra.

Terrenos abandonados e cheios de entulhos, carcaças de edifícios, incêndios, sujeira, miséria e preconceito dominavam a região. Os jovens da época, sem perspectiva, aderiram às drogas e à violência, num quadro em que o grafite começou a emergir como principal forma de demarcar território e de expressão.

Sob esse cenário, os jovens se reuniam em grupos para dominar áreas e impor respeito à força. Essas gangues se multiplicaram nos anos 70, chegando a centenas. O medo se tornou recorrente.

Ao mesmo tempo, a reunião de jovens em gangues motivou o nascimento de expressões culturais além do grafite. E essa transformação, da violência das gangues a movimentos culturais, está sendo revista.

Na Netflix, a série “The Get Down” atualizou a história com tons ficcionais para contar como surgiu o hip hop, gênero musical nativo do South Bronx.

O documentário “Rubble Kings”, também disponível na Netflix, mostra como a disputa territorial das gangues no South Bronx culminou num evento de paz, o chamado Hoe Avenue Peace Meeting, ocorrido em 8 dezembro de 1971.

E o filme “The Warriors – Selvagens da Noite”, lançado em 1979 e que mostra o conflito das gangues, é considerado um cult e passou por uma revisão em 2015, quando os atores da produção se encontraram para reencenar passagens do filme.

O South Bronx nos anos 1970 | Foto: John Fekner
O South Bronx nos anos 1970 | Foto: John Fekner

Mas, para chegar não só ao encontro da paz de 1971 como a um novo gênero musical, as gangues enfrentaram racismo, descaso do poder público e a especulação imobiliária que dominou o South Bronx na época. Negros e latinos se defenderam então por meio desses grupos violentos, que, mais do que demarcar territórios, proibiam membros rivais de circular em suas áreas.

Dessa disputa de gangues saiu, por exempo, Afrika Bambaataa, pioneiro do hip hop, ex-líder de um grupo violento do Bronx, os Black Spades, transformados na Universal Zulu Nation. O DJ Grandmaster Flash, um dos pilares de “The Get Down”, também é oriundo daquele efervescente caldeirão de culturas, raças e transformações. Grafites, moda, comportamento, música, cinema (Blaxpoitation), tudo o que aconteceu naquela época moldou as gerações posteriores.

Outro produto cultural revisita aquele momento essencial na história da música e do comportamento jovem. A HQ “Ghetto Brother” (Veneta) conta como foi a transformação de um cenário de guerra para um momento de paz e modificação cultural – em um trecho, o South Bronx é comparado a Dresden, a cidade alemã que sofreu um dos mais violentos bombardeios aéreos da história. De gangues rivais e violentas a coletivos de música e festas. De discursos de raiva à palavra cantada.

ghettobrotherRoteirizada por Julian Voloj e desenhada por Claudia Ahlering, “Ghetto Brother” retrata a vida de Benjy Melendez, membro da gangue que dá nome ao livro e que foi influenciado por um negro que surgiu como mensageiro da paz – Joseph Matumaini.

Chamado de Benjy Black, ele incentivou um encontro de diálogo entre as gangues num parque, mas foi assassinado ao chegar ao Horseshoe Park, em 2 de dezembro de 1971. Benjy Melendez, agora Yellow Benjy, tomou a dianteira e promoveu uma reunião de todos os líderes de gangue. Ele incorporou o discurso de paz e conseguiu uma trégua dias depois.

Com base em uma série de regras (como a permissão para entrar em território rival usando colete com a identificação da gangue), os grupos estabeleceram a paz e conseguiram transformar um território violento num ambiente de cultura, de inovação intelectual.

O romance gráfico, um recorte na biografia de Benjy, tem ainda uma subtrama que reforça o quão conturbado era aquele momento. Filhos de porto-riquenhos, Benjy sempre desconfiou dos rituais religiosos dos seus pais, declaradamente católicos. Não reconhecia o que eles faziam em casa, mas só teve coragem para confrontar e descobrir seu passado após a catarse da Hoe Avenue.

Seus pais eram judeus marranos (convertidos à força ao cristianismo na época da Inquisição), e Benjy, a partir de então, vai pesquisar suas origens e rever seu passado familiar. Em suas palavras, quer “reivindicar” sua história.

Para falar sobre “Ghetto Brother”, Benjy, a representação cultural das gangues atualmente e a herança que aquele movimento de paz gerou, a Peixe-elétrico entrevistou o roteirista da HQ, Julian Voloj. De origem alemã, ele é fotógrafo e escritor e mora nos Estados Unidos desde 2003.

Benjy Melendez em foto de Julian Voloj
Benjy Melendez em foto de Julian Voloj

Como você conheceu Benjy e sua história?
Em 2010, eu estava trabalhando em uma série de fotos sobre a diversidade judaica e ouvi falar da história de Benjy. Pelo Facebook, encontrei amigos de amigos que tinham uma conexão com ele. Eles entraram em contato com Benjy e perguntaram se ele estaria interessado em ser fotografado.

Nós nos encontramos no South Bronx, que eu já havia fotografado para outra série sobre herança judaica. Ele me levou a um pequeno passeio pelo bairro e contou a sua história, o que soou na hora mais estranha que a ficção.

A primeira sessão não trouxe o resultado que eu queria, mas nos reencontramos algumas semanas mais tarde de novo e eu consegui a foto que eu queria. Ao compartilhar nossas histórias de vida, nos tornamos amigos.

Por que decidiu contar sua história?
Eu sou um contador de histórias, seja com minhas fotografias ou com meus textos. Quando vejo uma boa história que não foi contada ainda, eu fico tentado a contá-la. A história de Benjy é fascinante e eu estava surpreso por ela não ser conhecida em uma escala mais ampla. Eu também senti que a sua contribuição para a história do Bronx não era conhecida da forma como ela merecia ser.

Eu e Benjy fomos nos conhecendo melhor a cada semana. Ele compartilhou suas histórias e eu comecei a tomar notas. Nessa época, eu me reconectei a Claudia Ahlering, uma velha amiga da Alemanha. Somei um mais um e perguntei se ela queria trabalhar em um romance gráfico comigo. Nenhum de nós nunca tinha feito uma HQ em formato longo, mas nós acreditamos na história.

Graças ao livro, a história de Benjy é mais amplamente conhecida. Eu tenho que admitir que estou surpreso pelo fato de o livro ter sido traduzido na Alemanha, França, Espanha e Brasil. Quando falei pela primeira vez com Benjy sobre fazer uma HQ, eu estava disposto a autopublicá-la!

A história de Benjy é rica em subtramas e sombras. Como foi organizar o roteiro?
Eu gravei dezenas de entrevistas com Benjy, fiz muita pesquisa histórica, para colocar sua história de vida no contexto mais amplo da história do Bronx, e também questionei cada detalhe. Uma coisa boa foi o timing. Eu conheci Benjy um ano antes do 40º aniversário da reunião de paz da Hoe Avenue. Então, em 2011, eu sugeri a ele para organizar uma reunião de ex-líderes de gangues. Benjy ainda tinha contato com alguns deles e em dezembro de 2011 nós fizemos um evento no South Bronx. O encontro não só obteve atenção da mídia – o que resultou em um agente literário estendendo a mão para mim –, mas também me ligou a muitas testemunhas oculares que estavam mais do que felizes em compartilhar suas histórias e documentos, como artigos de jornais, fotografias etc, que Claudia usou para a criação de sua arte.

Como você definiu a linha principal do roteiro, entre a vida pessoal de Benjy e o Bronx dos anos 70?
Para mim, o principal interesse era a história do “coming-of-age” de Benjy. Ao longo do livro, ele procura a sua paz interior e um sentimento de pertencimento, seja com as gangues, o nacionalismo porto-riquenho ou, no final, judaísmo. Foi nessa questão que decidi colocar o foco. Ao mesmo tempo, eu estava interessado em mostrar ao leitor as realidades da vida no Bronx na década de 1970, então eu coloquei o contexto político e econômico no livro também. Como escritor, você é como um cozinheiro. Você adiciona temperos, experimenta, coloca mais, e somente o seu gosto decide quando o livro está pronto. Havia tantos mais ingredientes e o livro poderia ter tomado muito mais tempo, mas ao longo da minha pesquisa eu encontrei a minha voz para contar a história.

Conte como foi o trabalho em conjunto com Claudia, feito à distância?
O livro é verdadeiramente um projeto do século 21. Claudia e eu usamos Skype e e-mail para nos comunicarmos semanalmente. Eu escaneei fotografias antigas e fotografei o bairro, e nós nos debruçamos no roteiro, cena a cena. Sendo um fotógrafo, eu às vezes tinha ideias muito concretas de como mostrar as cenas, em outras situações Claudia vinha com maneiras mais subjetivas de contar. Foi realmente uma colaboração de pessoas criativas.

É possível imaginar o que teria acontecido no Bronx sem o trabalho de Benjy?
Ninguém sabe o que poderia ou teria acontecido. Eu contei uma história pela perspectiva de Benjy. Outros podem ter uma interpretação diferente do passado. E é isso que o torna interessante.

E como está o Bronx hoje?
O Bronx ainda é uma das áreas mais pobres nos Estados Unidos, o que é irônico, pois Manhattan é um dos lugares mais caros do mundo. No entanto, o South Bronx, nos últimos meses, tornou-se muito atrativo para incorporadoras, que constroem condomínios de luxo ao longo da orla e forçam os moradores locais a saírem. Mesmo que ainda haja gangues no Bronx, o bairro, em geral, não é uma área perigosa. Eu tenho passado muito tempo no Bronx e nunca me senti em perigo.

A história de Benjy une dois preconceitos, racial e religioso. Com o nível de intolerância atual, seria possível existir um Benjy hoje?
De muitas maneiras, a história de Benjy é significativa dos tempos. Eu acho que, pelo menos nos Estados Unidos, há uma aceitação mais ampla da diversidade judaica. O fenômeno dos marranos é mais amplamente conhecido em muitos países da América Latina e através da internet as pessoas estão recuperando suas raízes – na época, Benjy pesquisou em uma biblioteca. Eu acho que os Estados Unidos são um lugar diferente hoje, mesmo que muitas questões, como a desconfiança na polícia, preconceitos e desigualdade social, ainda façam a história ser relevante.

the-warriorsÉ possível ver inspirações do filme “The Warriors” em algumas ilustrações. Como foi trabalhar sob a sombra de um filme tão popular como esse?
Todos os envolvidos na trégua das quadrilhas com que eu falei odeiam o filme. Eles o veem como uma exploração da realidade, mostrando as gangues como selvagens e seres humanos não tão complexos que são vítimas de uma sociedade que os abandonou. Colocamos algumas referências ao filme no livro para mostrar a conexão, mas tentamos contar a história da maneira como as pessoas que vivenciaram aquele tempo viram e experimentaram o processo.

E o documentário “Rubble Kings” é aceito entre aqueles membros das gangues?
Eu me encontrei com [o diretor] Shan Nicholson algumas vezes e assisti a um dos primeiros cortes do filme. Eu acho que ele fez um ótimo trabalho, e muitas das pessoas que entrevistei estão no documentário, o que é excelente.

Você já assistiu “The Get Down”?
Eu não vi ainda, mas muitas pessoas que me ajudaram com o livro estão envolvidas nele. Quando “The Get Down” foi anunciado, algumas pessoas no Facebook se queixaram de que as pessoas que viveram aquele tempo e que conhecem a história não estavam envolvidas e que a série não seria filmada no Bronx. Como resultado, muitos foram contratados como consultores e o série foi filmada lá. Um exemplo é Joe Conzo, o neto de Evelina Antonetty (fundadora do United Bronx Parents, um grupo que brigava por empregos, escolas e outros programas sociais e que deu a Benjy seu primeiro emprego), cujas fotografias usamos para HQ. Conzo foi o fotógrafo no set de “The Get Down”. Estou terminando um projeto e espero em breve encontrar tempo para assistir “The Get Down”.

Cena de série "The Get Down"
Cena de série “The Get Down”

O hip hop se tornou uma indústria bilionária e alcança pessoas em todo o mundo. Como aquela geração vê isso?
Benjy não é uma pessoa do hip hop. Sua música é Beatles, Carlos Santana, uma fusão latina. Ele conhece muitos dos pioneiros. Joe Conzo é amplamente aceito como o primeiro fotógrafo do hip hop. Ele nos deu muitas fotos que inspiraram as ilustrações de Claudia. Joe foi para a escola com os lendários irmãos Cold Crush, e eu conheci todos eles. Eles ainda estão no Bronx e nunca foram devidamente creditados dentro da cultura que eles criaram. Nem no próprio bairro. Na minha opinião, deveria existir um museu de hip hop no Bronx, mas o tema é amplamente ignorado, e não há nenhum benefício para a área que criou tanto.

Você entrevistou Afrika Bambaataa. Como ele vê a situação atual do Bronx?
Eu tive alguns contatos com ele. Joe Conzo tem uma estreita amizade com ele e foi tão gentil para gravá-lo falando sobre a trégua. Bam tentou compensar o bairro e apoiar a comunidade. O 40º aniversário da Zulu Nation foi uma festa para a comunidade. Dado o recente escândalo, Bam está fora do radar. [Bambaataa é acusado de ter abusado sexualmente de crianças de 12 e 13 anos].

No prefácio do livro, o jornalista Jeff Chang escreve que todos deveriam conhecer a história do Benjy. Nos Estados Unidos, é possível dizer isso? Ao menos em Nova York?
Quando eu comecei o livro, poucas pessoas conheciam essa história. No Bronx, em certos círculos, a história era conhecida, mas em geral foi esquecida. O livro mudou isso. E outros projetos que resultaram do livro, por exemplo, o relançamento do álbum do Ghetto Brothers em 2012, “Fuerza / Power”, pela extinta gravadora Truth & Soul, ou o documentário “Rubble Kings”, trouxeram mais atenção à história. Estou feliz por ter ajudado a divulgar o legado de Benjy.

E Benjy, como ele está hoje? Qual seu papel na comunidade?
Infelizmente, a saúde de Benjy não está muito boa. Ele precisa de um doador de rim e este ano ele passou muitos meses no hospital. Neste momento, ele está em casa e bem, mas ainda fraco. Ao longo dos anos, eu conheci muitas pessoas que foram tocados por ele, por seu trabalho como assistente social, assim como também tive contato com pessoas que leram o livro e foram tocadas por sua mensagem positiva.

Ele é reconhecido pelo trabalho que fez?
Em alguns círculos no Bronx, ele é, mas, em geral, sua história estava esquecida quando eu “o descobri”. Graças ao livro, ele teve agora algum reconhecimento, mas Nova York é, em geral, uma cidade do futuro. Muitas vezes as pessoas não olham para trás, o que não é necessariamente uma coisa boa. Vemos isso na cultura hip hop, em que muitos dos pioneiros ainda estão na pobreza, enquanto a própria cultura se tornou um negócio de multimilionário.

Julian Voloj e Benjy Melendez | Foto: Hope KillCoyne
Julian Voloj e Benjy Melendez | Foto: Hope KillCoyne

*****

Esta entrevista foi publicada no blog da revista eletrônica Peixe-Elétrico

Anúncios

1 thought on ““Ghetto Brother”: autor de HQ sobre o pacificador do South Bronx fala das gangues e de “The Get Down””

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s