Argentina, Comentário, Ficção

“Os Suicidas” e o resgate de Antonio di Benedetto

Um texto escrito por Sylvia Colombo na “Folha” digital sobre Antonio di Benedetto me levou a uma conversa breve com um amigo pelo Facebook acerca do escritor argentino.

A jornalista escreveu que a obra de Benedetto está sendo reconhecida 30 anos depois de sua morte. Já meu interlocutor afirmava que um livro do escritor estaria facilmente entre seus cinco melhores, caso tivesse que eleger uma lista.

os-suicidasO livro em questão era “Os Suicidas” (Globo). Não sei se ele entraria nessa lista restrita, caso eu fizesse uma, mas certamente ele estaria entre meus cinco autores argentinos preferidos.

Li “Os Suicidas” há muito tempo, e emprestei a tanta gente o meu exemplar que ele se foi, sem saber com quem ficou. Tudo isso por conta do entusiasmo que senti após o final da leitura, ao me deparar com um texto seco, sem espaço para digressões – talvez seja possível uma comparação com Raymond Carver, talvez seja só um devaneio.

O fato é que o texto e a conversa me fizeram voltar a Benedetto. Numa edição digital, reli “Os Suicidas”. Livro enxuto, de tiro curto, para ler numa noite só, um exemplar do que a literatura pode fazer com tão pouco.

Um jornalista está prestes a completar 33 anos e recebe a incumbência de seu editor de contar a história de umas fotos que recebeu que mostram suicidas. Fotos misteriosas, sem créditos, sem identificação.

Ao mesmo tempo, relembra o suicídio do pai, que se matou aos 33 anos. As memórias impregnam sua pesquisa e a procura pelas pessoas das fotos. O tema suicídio domina seus dias, enquanto flerta com a jornalista que o acompanha e tenta lidar com seu casamento. E ele também acaba por pensar no próprio suicídio, forma de repetir o pai ou de ser vítima de uma tendência familiar.

No meio, surge uma personagem que dá voz a toda uma literatura sobre suicidas, disposta ao longo do texto. Apelidada de Arquivo, ela é uma espécie de enciclopédia analógica. Cita pesquisas, autores e trechos de livros para dar suporte ao jornalista – que não é batizado pelo escritor.

Fosse Benedetto um David Foster Wallace iria encher o livro de notas de rodapé. Mas Benedetto incorporou essas referências na narrativa com maestria e elegância.

A reflexão sobre a finitude é potente, seja pelo que pensa o jornalista, seja pelo que Arquivo mostra. É crua, direta, não diluída em exercícios de fluxo de consciência – é até possível percerber um certo humor, contido, na prosa de Benedetto.

O final é surpreendente, não por ser chocante, mas por ser uma conclusão que, após ser lida, reflete a força de um romance que reproduz na forma a psicologia dos personangens e dos suicidas. Inesperado, e por isso mesmo tão forte.

*****

“Amanhã eu poderia mudar de vida. Mas não posso mudar de ofício. Se eu não mudar de ofício não posso mudar de vida. Mudar de Júlia. Mudar de mulher não muda nada. Mudar de lembranças. O passado não se muda, com frequência ele nos governa. Há 33 anos me deram este corpo ao qual posteriormente foram sendo agregados hábitos, ideias, uma maneira de comer… Aos 17 anos eu me enganei. Venho de trás. Tenho ontem, não sei se terei amanhã. Não possuo mais do que uma certezaa, a de que, em algum momento, morrerei.”

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