Biografias/Perfis, Colaboração, Comentário, Estados Unidos

Manson e os cuidados com as biografias

Por Márcio Tadeu Santos

Acabei de ler “Manson” (Darkside), de Jeff Guinn (1). Passei a obra à frente de outras tantas que estou lendo, algumas há meses, outras há anos. Nunca gostei de biografias e de autobiografias. Não contam mais de dez entre as lidas, como, por exemplo:

“Che Guevara: A Vida em Vermelho” (Companhia das Letras), do mexicano Jorge G. Castañeda – um texto ralo, embasado em pesquisa rasa e superficial que se dedica mais em desconstruir o mito Che e em atacar o regime comunista cubano e, ainda, em folclorizar (para o bem e para o mal) várias passagens da vida do médico argentino e revolucionário.

“Minha Vida e Minhas Experiências com a Verdade” (Palas Athena), de Mohandas Gandhi – autobiografia precoce do líder político e religioso indiano, que esconde sua homossexualidade e aborda, à sua moda, a questão das castas (2), que, atacadas publicamente pelo líder, eram, no entanto, aceitas em seus círculos familiar e de amizade.

“Sete Anos no Tibete” (L&PM), de Heinrich Harrer – uma autobiografia romanceada do alpinista austríaco, levada ao cinema (comercial), na qual Harrer foi interpretado por Brad Pitt. A ligeireza do texto não permite maiores análises, mas o empurra para a desconfiança. O filme é horroroso.

Antes de voltar à biografia de Manson, vale lembrar que o texto foi rapidamente citado no blog em O mundo enlouqueceu de uma loucura senil e perigosa e sem cura (?) e a reprodução de sua capa, assim como aqui, serviu para ilustrá-lo.

Dos desvios

Charles Mason era (e é) (3) um lunático e espertalhão, racista e sexista, que explorou dezenas de meninas menores de idade. Fosse hoje, Manson seria condenado a muitos anos de prisão bem antes dos assassinatos de Tate (4) e do casal LaBianca (5) (ao todo foram nove assassinatos).

O líder da Família Manson criou uma intrincada teoria própria do armagedom, chamada Helter Skelter, que antevia uma guerra interracial, na qual os negros destruiriam a raça branca. A Família Mason se esconderia num “poço sem fundo” para depois voltar e reconstruir a Terra, já que os negros não tinham inteligência suficiente para comandá-la.

“Helter Skelter” (6) é uma das faixas doÁlbum Branco” (7), dos Beatles, mas, segundo Manson, profética e apocalíptica. Manson costumava dizer à sua Família e a amigos que seria mais famoso que os Beatles e Jesus Cristo.

Em algum momento da história da banda, John Lennon afirmou que o grupo inglês era mais famoso que JC; o mesmo Lennon que rotulou a teoria apocalíptica de Manson como prosaica e bizarra e que achava “Helter Skelter” apenas uma música barulhenta para se dançar.

Manson queria ser um popstar do rock, mas cantava e tocava mal, não estudara música, suas letras eram sofríveis, mas mesmo assim uma delas foi parar (modificada) em um dos álbuns dos Beach Boys e outra tocada em um show dos Guns’n’Roses (8).

Há quem veja, por exemplo, Jeff Guinn, no desprezo do mundo pop pelo astro frustrado uma das razões para a explosão da violência de Manson.

Das lacunas

mansonA biografia de Manson, escrita por Jeff Guinn, é correntinha e linear, mas cheia de saltinhos, como se fora uma gazela saltitando pelo campo. Guinn, por exemplo, dá pouca importância a Tex, o cara que comandou os ataques às residências de Tate e dos LaBianca.

Tex exercia domínio muito forte sobre as meninas da Família Manson e, de uma forma ou de outra, apesar de obediente, rivalizava com o líder.

Numa biografia não é personagem que se possa desprezar assim.

Muitos personagens da Família Manson, ao longo da obra de Guinn, foram desaparecendo aos poucos; testemunhas das estripulias do líder e da Família e dos assassinatos ou não estiveram na obra ou foram minimizadas.

Algumas meninas, que “sumiram no mundo”, também foram desprezadas pelo autor.

Das feituras

Jeff Guinn demandou dois anos entre pesquisas, entrevistas e a escrita de “Manson”, lançada em 2014. É pouco tempo, mas Guinn (isso ele não diz) já devia ter anotações e arquivos anteriores.

Boa parte das fontes do autor são de segunda mão (ou seja, não são primárias), especialmente aquelas que se referem aos primeiros anos da vida de Manson até sua chegada a Los Angeles, em meados dos anos 60.

Agradecimento, prefácios, bibliografia, referências e notas de rodapé ocupam quase 120 páginas do livro.

Muitos documentos não foram possíveis de serem acessados e muitas fontes não quiserem dar depoimento ao autor e/ou gravar entrevistas.

Nem mesmo Manson falou com Guinn. As declarações de Manson na obra foram tiradas dos autos dos processos, do julgamento ou vieram através de testemunhos de alguns de seus amigos e da imprensa.

O imenso apêndice (9) da obra dá a impressão de que Manson seja uma biografia profunda e definitiva, como diz o marketing da editora norte-americana (veja referência à editora nas notas).

Ocorre que não é. Como citado acima, há lacunas, tanto factuais como de testemunhas e de depoimentos.

Guinn ainda é um cara novo, nasceu em 1951, e, portanto, tem tempo de sobra para debruçar-se novamente sobre a vida de Manson e da Família Manson e ofertar ao público leitor um livro mais aceitável e confiável.

Notas

(1) “Manson”, de Jeff Guinn, foi editado em 2014, nos Estado Unidos, pela DarkSide. Em português, há uma versão em e-book, no site Le Livros, com tradução de “O aprendiz verde”.

(2) Casta é um sistema tradicional, hereditário ou social de estratificação, mas sem base legal, que separa e divide a população indiana segundo critérios de raça, cultura, ocupação profissional, religião etc. Em sânscrito significa “cor” (numa referência à cor da pele das pessoas).

(3) Condenado à morte, Manson teve a pena alterada para prisão perpétua. Ele já tentou diversas vezes conseguir a liberdade condicional, mas os pedidos foram todos negados. Manson continua sendo visto pela Justiça norte-americana como uma ameaça à sociedade. Sua Família continua atuante e possui alguns sites na web.

(4) Sharon Marie Tate, atriz e modelo norte-americana, mulher do diretor de cinema polonês, Roman Polanski, na época de seu assassinato pela Família Manson.

(5) Pasqualino Antonio “Leno” LaBianca (norte-americano) e Rosemary LaBianca (mexicana) empresários,  assassinados pela Família Manson.

(6) Música também gravada por Mötley Crüe (1983), U2 (1988) e Oasis (2000).

(7) Décimo álbum dos Beatles, disco duplo lançado em 1968.

(8) Essas duas referências podem ser encontradas nos capítulos de “Manson”.

(9) (a) Ao longo do texto e do apêndice, Guinn faz paralelo, correto, com os acontecimentos que abalavam os EUA na época: movimento anti Guerra do Vietnã, luta pelos direitos civis e movimento hippie.

(b) Corretamente, também, Guinn distancia Manson e Família dos hippies, coisa que o próprio Manson fazia, já que para este o movimento hippie era pacifista, e, portanto, não se enquadrava em sua teoria apocalíptica do “Helter Skelter”. Manson, no entanto, apesar da recusa, é identificado como tal, como hippie.

(c) Curiosamente, Manson, preso e condenado, transformou-se em ambientalista, coisa que já ensaiara antes de sua detenção e condenação.

* Márcio Tadeu Santos é jornalista e autor do blog Afalaire, onde este post foi publicado originalmente

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