Colaboração, Comentário, Estados Unidos, Ficção

Contradições ao fim da leitura de “Pureza”

Por Paulo Sales

purezaLançado recentemente no Brasil pela Companhia das Letras, “Pureza” não alcança o patamar dos grandes romances de Jonathan Franzen

Tanto “As Correções” como “Liberdade”, romances anteriores de Franzen, traçam um painel mordaz e impiedoso da vida americana através de núcleos bem definidos: a disfuncional família Lambert no primeiro, o triângulo amoroso formado por Walter, Patty e Richard no segundo. Em ambos, é possível se deliciar com uma das principais qualidades de Franzen: a capacidade de conceber personagens que são gente como a gente, com os mesmos defeitos e virtudes que encontramos em nós mesmos ou nas pessoas com quem convivemos.

Mais ambicioso, “Pureza” quer abarcar o mundo, e esse é o seu maior defeito. Em alguns momentos, lembra “Submundo”, o calhamaço de Don DeLillo que, após vencidas mais de 700 páginas e um sem fim de personagens, acaba chegando a lugar nenhum. Os personagens, os contextos históricos, os diferentes pontos do globo onde as histórias se passam (EUA, Bolívia, Alemanha), tudo é superlativo.

Basicamente, a narrativa se concentra em três personagens, com outros orbitando em volta deles: Pip, que cresceu com a mãe isolada do mundo e quer conhecer o pai, Andreas Wolff, figura enigmática nascida na Alemanha e que se tornou conhecido como um novo Julian Assange, e Tom, jornalista que cultivou por anos uma relação doentia com a herdeira de uma indústria milionária de alimentos e agora vive com outra jornalista, Leila.

Os temas incluem, entre tantos outros, os danos provocados pelo homem ao meio ambiente, ameaça nuclear, internet, jornalismo investigativo, segredos da polícia secreta da extinta Alemanha Oriental, divulgação de escândalos nos moldes do Wikileaks e relacionamentos problemáticos. O resultado é um romance com momentos implausíveis e uma teia de acontecimentos unidos de forma artificial e esquemática.

Bem, essa é a avaliação racional. A emocional, que não deixa todas essas questões de lado, é bem diferente. Passei os últimos dias sem largar “Pureza” até chegar noite dessas, mais de uma da manhã, à página 615. Foram mais de cem páginas lidas em cerca de quatro horas quase ininterruptas.

Franzen continua um escritor inigualável na criação de climas e diálogos que nos enchem de angústia e tensão, mesmo quando dizemos a nós mesmos: não, isso não faz sentido, está forçado.

Como aconteceu com “Liberdade” e “As Correções”, colocar “Pureza” de volta à estante me deixou com uma tremenda sensação de perda e vazio, que costuma acompanhar o abandono dos grandes livros. Uma contradição que não consigo compreender, apenas sentir.

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2 comentários em “Contradições ao fim da leitura de “Pureza””

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