Estados Unidos, Ficção, HQ, Listas, Não ficção, Paquistão

8 livros que tratam do 11 de Setembro, que chega aos 15 anos

Foi numa terça-feira, em 2001, que as torres do World Trade Center desabaram. Aos 15 anos daquele 11 de setembro, mais do que clichê, é definitivo dizer que o mundo se transformou desde então.

Eu voava de São Paulo para Belo Horizonte no momento do impacto na primeira torre. Ao pousar na Pampulha, recebi a notícia meio atordoado. Minutos depois, a segunda torre foi atingida. Ao chegar à Redação onde trabalhava na época, as torres gêmeas desabaram.

Fiz uma pequena lista de livros que recontam os ataques terroristas, da sua origem às consequências das guerras justificadas como ao terror. Um deles merece um destaque maior, por ser, na minha opinião, o melhor deles, o livro que explica tudo o que aconteceu – “O Vulto das Torres”.

Não é um lista definitiva, ela se restringe a um recorte: os livros que li e que são bons. Há centenas de outros, entre não ficção e romances, que tratam do tema. Mas prefiro falar apenas do que li. A eles.

*****

102-minutos“102 Minutos” (Jorge Zahar), Jim Dwyer e Kevin Flynn
Os repórteres do “New York Times” relatam a manhã daquela terça-feira, minuto a minuto, com transcrições de gravações, entrevistas e depoimentos. Eles nos colocam dentro das torres, por meio dos diálogos e de plantas do conjunto de edifícios, trazendo detalhes fundamentais para entender a tragédia. É um livro difícil de ser lido por conta da dramaticidade e da força dos relatos. O objetivo é tratar do que aconteceu em Nova York naquele dia, por isso não há investigação sobre os terroristas, suas origens etc. Há, sim, um olhar sobre a comunicação entre os bombeiros, por exemplo, para identificar falhas na operação. É um título imprescindível e um documento histórico. Os 102 minutos do título equivalem ao intervalo de tempo entre o choque na primeira torre e o desabamento das duas.

vulto-das-torres“O Vulto das Torres” (Companhia das Letras), de Lawrence Wright
Uma investigação sobre a Al-Qaeda e os serviços de inteligência dos EUA, é disso que trata este belo livro de Lawrence Wright. O jornalista traça a história do fundamentalismo islâmico, da década de 50 até chegar ao grupo terrorista e os ataques de 11/9.

Baseado em uma pesquisa minuciosa e em dezenas de entrevistas, o livro é um retrato claro de como se formaram os principais grupos terroristas, como vários crimes foram pensados e executados e quais as razões alegadas para o ódio.

Wright, que escreve para a “New Yorker” e é autor do roteiro de “Nova York Sitiada”, perfila Osama bin Laden e mostra como ele chegou a liderar a facção terrorista. Vai fundo nas relações entre os países do Oriente Médio, a dependência do petróleo e como a invasão ocidental, seja da Inglaterra, da ex-União Soviética ou dos EUA, no Iraque, Afeganistão e em outros países da região acabaram por moldar um caráter maniqueísta.

Simultaneamente, Wright destrincha a burocracia dos serviços de inteligência dos EUA, que acabou por prejudicar o trânsito de informações das investigações sobre os terroristas. Por exemplo, um ano antes dos ataques às torres gêmeas, a CIA já sabia que dois dos terroristas estavam em território americano, mas não passou a informação ao FBI, único órgão que poderia investigar o fato.

Os dois estavam nos aviões que se chocaram contra o World Trade Center.

O livro é uma peça jornalística de primeira. Une história, bom texto, jornalismo de qualidade – que implica investigação, imparcialidade, apuração ampla – e um tema que intriga.

cadeia de comando“Cadeia de Comando” (Ediouro), de Seymour M. Hersh
Fora de catálogo, o livro traz ampliações de reportagens que o jornalista escreveu para a “The New Yorker” sobre as guerras que os Estados Unidos assumiram no governo George W. Bush. Hersh foi o primeiro jornalista a escrever sobre as torturas de Abu Ghraib. É também um dos maiores profissionais dos Estados Unidos, com trabalhos premiados sobre a Guerra do Vietnã. Hersh desvenda segredos políticos envolvendo o setor militar do governo, remonta o caso das torturas e revela como se Bush e companhia prepararam uma armadilha no Iraque. O livro é uma aula de jornalismo e um retrato vivo dos Estados Unidos.

a-sombra-das-torres-ausentes“À Sombra das Torres Ausentes” (Companhia das Letras), de Art Spielgman
Aqui, o autor de “Maus” faz uma viagem ao dia dos ataques, mas por meio do cotidiano de sua família. Ele mostra como foi o dia da família em 10 de setembro, quando matriculou a filha numa escola na região do WTC. Quando viu os ataques pela TV, desesperado, correu ao local para resgatar a filha, o que aconteceu minutos antes do desabamento das torres. Respira-se angústia em cada página desta pequena obra-prima da narrativa gráfica. Ele faz experimentos com a linguagem, com tiras gigantes, reproduzindo cenas daquele dia ou ironizando democratas e republicanos, a cultura de ódio e a paranoia norte-americana. Spielgman, que em “Maus” explorou a sátira para recontar o nazismo, aqui avança pela memória pessoal, dando tons íntimos ao mesmo tempo em que tenta compreender o que aconteceu ao redor naquele dia. Obra-prima.

3199370“Extremamente Alto & Incrivelmente Perto” (Rocco), de Jonathan Safra Foer
O livro de Foer é uma pequena joia. Um garoto de 9 anos sofre com a morte do pai, que estava no WTC no dia dos ataques por conta de uma reunião de trabalho. Um acaso o levou até ao restaurante do complexo e o colocou entre as centenas de vítimas. O livro vai contar como o garoto, Oskar, se rende à morte do pai. Ele procura o significado de uma palavra, essa que seria um último contato de seu pai antes de morrer nos atentados do World Trade Center, gravada na secretária eletrônica. Ele percorre sua Nova York na tentativa de decifrar o enigma, que pode ter sido uma mensagem de amor, de despedida ou simplesmente uma palavra. Esse último momento antes da separação, de um acontecimento terminal, permeia toda a estrutura do livro. Foer utiliza fotos e diagramação ousada, como páginas com apenas uma frase ou em branco, e tenta dar um segundo ritmo além da leitura para o livro. Esqueça o filme em que foi inspirado, “Tão Forte e Tão Perto”, dirigido por Stephen Daldry. O livro é infinitamente melhor.

o-fundamentalista-relutante“O Fundamentalista Relutante” (Alfaguara), de Mohsin Hamid
O livro é narrado pelo paquistanês Changez, que conversa com um norte-americano (o leitor) num café em Lahore. Ele conta sua história ao homem que parece estar em alguma missão especial – na verdade, o livro é praticamente um monólogo, num truque muito bem armado por Hamid, como se ele pedisse que a cada fala de Changez o leitor devolvesse uma.

Changez morava nos Estados Unidos, tinha boa formação universitária e estava bem empregado, com vida confortável e com relação promissora. Até que chegam os ataques às Torres Gêmeas e aquela utópica vida nos EUA também se desmorona.

Changez vai contando toda sua história ao homem com quem compartilha a mesa, em meio a refeições típicas e bules de chá. Hamid faz mistério do papel do ouvinte/leitor, enquanto Changez tenta descobrir o que ele faz no Paquistão. À medida que a história do passado de Changez avança, aumenta a tensão do romance. O final é arrebatador. Escrevi sobre os livros de Hamid neste texto.

procedimento-operacional-padrao“Procedimento Operacional Padrão” (Companhia das Letras), de Philip Gourevitch e Errol Morris
Este é o livro que conta a história das fotos de abusos cometidos por militares dos Estados Unidos contra prisioneiros iraquianos em Abu Ghraib, reportados por Seymour Hersh. Gourevitch é jornalista, escreve para a “The New Yorker” e “The Paris Review”. Ele se juntou ao cineasta Morris para escrever o livro, que serviu de base ao documentário de mesmo nome. Aqui, temos a história de como foram feitas as imagens, das relações entre militares e prisioneiros, as condições que os soldados enfrentavam na guerra e como o caso foi tratado pelos Estados Unidos. Jornalismo de primeira.

a-queda-de-bagda“A Queda de Bagdá” (Objetiva), de Jon Lee Anderson
Este livro inaugurou a já encerrada coleção Jornalismo de Guerra, ótima série de livros sobre conflitos escritos por jornalistas de primeira linha. O biógrafo de Che Guevara reporta a obsessão norte-americana por Saddam Hussein, desde o a primeira Guerra do Iraque até a segunda, a que culminou com a queda do ditador. Conflito motivado por um tema amplo e genérico, como a guerra ao terror, surgido por conta dos ataques de 11 de setembro. Anderson está em Bagdá e narra sua história com os pés no chão, sem intermediários. É o relato vivo de quem estava no local, enfrentou as dificuldades e os terrores de uma guerra no solo. Sem deixar de contar as histórias dos anônimos, pessoas vítimas das atrocidades próprias de uma batalha, o que transforma o livro num retrato vigoroso de uma época.

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