Brasil, Entrevista, Ficção

Ivone Benedetti sobre o impeachment: “O que ganhamos?”, pergunta a autora de “Cabo de Guerra”

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Tradutora de filosofia, de Llosa, Primo Levi, Eco e Balzac, entre outros autores, Ivone Benedetti volta à ficção com “Cabo de Guerra” (Boitempo), estupendo (me desculpem pelo adjetivo logo no primeiro parágrafo) livro sobre o período da ditadura militar no Brasil (1964-1985).

A autora foi finalista do Prêmio São Paulo de Literatura de 2009, com “Immaculada” (WMF Martins Fontes). Sua prosa tem uma complexidade envolvente, daquelas que leva o leitor a se embrenhar nas suas tramas e passeios pelo tempo com intensidade.

Neste livro, Benedetti mergulha na ditadura militar. Com orelha assinada por Bernardo Kucinski, “Cabo de Guerra” se passa na pior fase da regime, final dos anos 60, início dos 70. Ela cartografa a São Paulo daquela época para contar a história de um rapaz que se transforma em “cachorro”, designação para quem mudava de lado – neste caso, um ex-militante de esquerda que vai parar nos porões da ditadura troca de posição, ação que implica inflitração e espionagem.

Esse anônimo tem sua história contada desde sua saída de Nazaré (BA) e a chegada a Santos, antes de ir a São Paulo. Ele se envolve com um coronel no escritório onde trabalha e depois irá à luta política, passagens que formam a primeira parte do livro e ajudam a delinear a personalidade do protagonista, um jovem que vê o acaso ser parte definidora da sua vida – ainda que o romance não se apoie nas circunstâncias, como ressalta a escritora em entrevista ao blog.

A transformação em um delator passa pelas casas do terror instaladas em São Paulo, com o horror da tortura impregnado nas retinas e no consciente de quem ouve gritos, lamentos e choros.

O protagonista então vai perambular de favores em favores, reencontrar personagens decisivos da sua história, viver amores e desilusões, enquanto a culpa e a memória dos seus atos rodeiam sua consciência. Benedetti explora a reflexão sobre o medo e o período de horror vivido no país, não somente na superfície, no cotidiano das pessoas que tocavam a vida, mas, principalmente, em dois níveis subterrâneos: o da consciência e  de quem viveu a repressão.

Alternando passado e presente, com um domínio técnico da narrativa, Benedetti conduz a história com precisão. São comoventes as memórias com o avô. Seus personagens são introduzidos com calma, sem atropelos. A narração em primeira pessoa reafirma certo horror ao vislumbrarmos a consciência de quem delatou companheiros e levou alguns à morte.

A São Paulo que ela descreve, mesmo sem detalhismo, é tão bem mapeada que é possível sentir o cheiro da cidade dos anos 70. “Cabo de Guerra” é um livro que refunda a bibliografia ficcional sobre a ditadura militar, segundo escreve Bernardo Kucinski na orelha da obra, “diminuta” nas estantes brasileiras.

Ivone Benedetti conversou com o blog para falar do seu livro, da construção do personagem, da literatura sobre a ditadura e o momento político brasileiro – as respostas foram dadas um dia após o impeachment de Dilma Rousseff ser aprovado no Senado.

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A escritora e tradutora Ivone Benedetti

O que a levou a escrever “Cabo de Guerra”?
Não sei por que escrevi esse romance, desse jeito, e não escrevi algum outro de outro modo. Eu poderia dar várias razões, mas, como eu mesma digo no “Cabo de Guerra”, “Sempre que muitas, as razões são nenhuma”. O primeiro lampejo de qualquer criação é sempre um mistério. O resto é suor.

Você não dá nome ao seu protagonista. Por que optou pelo anonimato?
Em geral, os nomes de meus personagens têm algum sentido. Não de todos, mas dos principais pelo menos. Em nenhum momento esse personagem me chegou com nome, e a escolha da primeira pessoa deve estar inconscientemente ligada a essa falta de desejo por um nome. A introspecção do sujeito narrador ajudou a alijar o nome de vez. Porque nunca, ou raramente, o pensamento sobre nós mesmos ou sobre nossos atos vem com nosso nome. O nome, mesmo o que está nos registros de nascimento, é sempre uma arbitrariedade.

Quando o protagonista reencontra Tomás [agente da repressão], surge uma radicalização do discurso esquerda x direita. Ao mesmo tempo, seu personagem não demonstra se prender a nenhum discurso. A culpa é a condutora do seu personagem?
Na economia do romance, o reencontro vem acompanhado de uma tentativa, por parte de Tomás, de resgatar o que antes havia de energia no antigo colega de ofício. Este agora está afundado numa mágoa amorosa, perdeu o pouco entusiasmo que tinha pelas questões políticas. Por isso o discurso de Tomás se radicaliza. Já a culpa me parece estar disseminada em todos os personagens em diversos momentos. No protagonista, é uma mola não identificada ou não aceita quando identificada. Nem quando ela lhe é atirada ao rosto, o que acontece em diversos momentos. Culpa é sempre um assunto muito complicado.

Como gerar simpatia a alguém que se tornou um “cachorro”? É possível compreender as razões dessa atitude?
Antes de responder a essa pergunta, preciso pensar um pouco no sentido que você dá ao verbo “compreender”. Se compreender significasse entender, perceber o sentido pela razão, eu responderia que sempre é possível compreender ou tentar compreender qualquer coisa, e que o próprio ato de escrever um romance pode ser uma tentativa de compreender algum nó ainda não decifrado em alguma esfera da nossa vivência. No entanto, se compreender significar “Proceder de modo compreensivo ou tolerante em relação a (algo ou alguém, situação etc) por entender-lhe as razões”, conforme definição do Aulete (que, aliás, não está no Houaiss, grande omissão), a coisa muda de figura. Porque “entender as razões” é perceber mecanismos, aclarar condutas, enriquecer o intelecto com a inteligência de uma realidade. E isso não implica, automaticamente, tolerância (ao contrário do que pode levar a supor a própria definição do Aulete) para com os resultados de dada opção de conduta. Como você usou o termo “simpatia”, imagino que o sentido do verbo compreender, na sua pergunta, seja o segundo. E aí eu digo que, pelo menos quando escrevo, sou guiada pelo primeiro sentido do verbo compreender, mesmo não acreditando que seja possível entender tudo. Cada personagem, de qualquer autor, é fruto de um conjunto de “possíveis” (aquilo cuja existência é provável). Do cruzamento, do choque, da soma, da repulsão dos diversos possíveis nem sempre se sabe o que sairá. Por isso o resultado poderá ser uma grande surpresa, inclusive para o próprio autor. É assim na vida e na ficção. Movidas pelas mesmas molas, diferentes pessoas podem fazer opções opostas. O que determina isso? Difícil saber, mas perceber que isso ocorre já é um grande ganho. E, se for aprofundada a noção dessas possibilidades, simpatia e antipatia perderão razão de ser. Porque não se trata de uma literatura construída com base na dicotomia herói/vilão, como se cada pessoa conseguisse reunir em si só características boas ou só ruins.

O acaso também tem papel preponderante no romance. Da chegada de Nazaré até os encontros no final do livro, seu protagonista tem sua vida atingida pela sorte. Você concorda? Esse acaso terminou por moldar a personalidade dele?
Dito assim, parece que eu escrevi um daqueles romances cheios de coincidências mirabolantes. Há acasos, sim: o encontro com Tomás, após a tentativa de furto da japona; o encontro de Maria do Carmo numa reunião clandestina; o último encontro, no bar. A própria posição em que o pai dele morre, não sei se lembra, eu atribuo ao acaso, com alguma ironia, claro. Não diria que o acaso moldou a personalidade dele. O acaso é um recurso que está ligado mais à estrutura da narrativa do que à construção da personagem.

O livro de certa forma deixa transparecer uma decepção com direita e esquerda: “Confesso que em muitos pontos os dois lados ainda me desconcertavam, eu os via como as únicas duas opções de pensar o mundo. Depois da volta, estou embotado, desinteressado, não há raciocínio que me cative”, diz o protagonista. Esta é a sua sensação do atual momento? E o quanto essa polarização prejudica ou não o país?
Esse trecho que você citou é uma síntese dos sentimentos dele depois de perder a mulher amada. É um momento do paroxismo da sua eterna incapacidade de decidir, e isso se dá por uma questão de apatia emocional. Acho que é uma coisa própria dessa personagem e desse momento. No entanto, se a gente for, digamos, ampliar a afirmação “únicas duas opções de pensar o mundo” para um contexto menos intimista e mais atual, eu diria que, de fato, esquerda e direita não são as únicas duas opções de pensar o mundo, e, quando isso ocorre, há, sim, polarização. Mas esquerda e direita, por outro lado, são as duas pontas de um espectro de pensar a política, e isso sempre foi assim em todo o Ocidente, pelo menos desde a Revolução Francesa. Quando toda a gama de opções em política é simplificada, portanto empobrecida, e desse modo passa a nortear toda uma visão de mundo, enquadrando a tudo e a todos, ocorre polarização grosseira, que é a vemos hoje em muitas pessoas. E isso é sempre causa e consequência de empobrecimento intelectual, de enrijecimento emocional.

Bernardo Kucinski e Ivone Benedetti durante debate em São Paulo
Bernardo Kucinski e Ivone Benedetti durante debate em São Paulo

Bernardo Kucinski, na orelha, se refere a uma diminuta estante de ficção sobre a ditadura. Você concorda com ele?
Não tenho dados concretos para apoiar uma afirmação rigorosa, mas acho que nas últimas décadas a “moda” em literatura deixou de prestigiar a reflexão política. E isso coincide com o período da redemocratização. Prefiro não dar palpites sobre as razões disso.

Quais livros sobre esse período, ficção e não ficção, você indica?
Os dois do Kucinski, naturalmente, mas advertindo que é preciso ler “K.” antes de “Os Visitantes”. Também citaria “Não Falei”, da Beatriz Bracher, “Em Câmara Lenta”, do Renato Tapajós, “Zero” e “Não Verás País Nenhum”, de Ignácio de Loyola Brandão, “Não És Tu, Brasil”, de Marcelo Rubens Paiva, e “As Meninas”, de Lygia Fagundes Telles. Mas há outros, com certeza.

colofao-boitempoA editora se manifestou contra o impeachment de Dilma Roussef no seu livro, ao imprimir uma charge do Laerte no colofão e colocar um texto com críticas aos poderes e às mídias. O que achou da postura da editora? E qual sua posição?
Fui consultada e dei minha anuência. A Boitempo sempre faz alusão a alguma data ou a algum fato nos seus colofões. Quanto à minha posição, direi que esse impeachment me deixou profundamente desgostosa. Não que achasse o governo de Dilma excelente, não que acredite na pureza de seu partido ou no acerto de suas políticas, mas é que com esse impedimento o Brasil trocou o ruim pelo péssimo. Ouço frequentemente comparações entre esse impeachment e o de Collor, dizendo-se que naquele momento o Brasil saiu unido e agora dividido. É verdade. Na época, havia o consenso de que o presidente tinha cometido um crime e merecia ser cassado. Hoje não há esse consenso, as pedaladas alegadas para o impeachment, todos sabem, foram e são cometidas por todos os governantes de todas as esferas. Hoje está claro para muita gente que, na pura luta pelo poder, uma das partes foi alijada por vontade de um parlamento comprometido. Por que isso ocorreu? Porque em nosso sistema presidencialista, que, para ser viável, obriga a alianças e conluios, um governo só não entra em crise quando tem controle do parlamento. E esse controle sempre é obtido com negociatas. Quando o controle existe, não há acusação de crime que prospere. Dilma, assim como Collor (e, em outras circunstâncias, Jânio e Getúlio), perdeu o controle do parlamento e por isso caiu. Com ou sem crime, cai. Corrupção? Na boca dos corruptos que se apoderaram do poder? Puro cinismo. Programa de governo? As medidas tomadas até agora apontam para a agenda mais conservadora e antipopular que já se viu desde a ditadura. O que ganhamos?

*****

“Mortos no meu caminho foram de dois tipos: os que derrubei enquanto passava e os que caíram à minha revelia. Os primeiros são os que não me largam, os que grudam em mim como crosta de ferida. Os outros se dissipiram, me deixando no vapor da solidão que tudo esconde, mais que muralha. A estes pertencem os que amei. E não amei tantos. Se bem que, acostumado a carregar aqueles que por minha ação morreram, acabo metendo no mesmo saco os que não são da minha lavra, como se na morte daquele que eu queria vivo residisse a culpa mínima de não ser eu o morto, como se só pela força do contraste com os que ficam é que os que se vão passam a se chamar de mortos.
Meu pai.”

“O destripado é o despejado de si mesmo. E o despejo é a suprema humilhação, é a invasão da toca, seguida pelo enxotamento. Tem com a tortura certo parentesco, pois o torturador quer enxotar o indivíduo de seu corpo, quer que ele vomite a alma, se renda, se esvazie. O corpo torturado perde o estofo. Às vezes o torturador só se sente saciado quando tem as vísceras reais nas mãos.”

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