Comentário, Inglaterra, Não ficção

“O Dono do Morro” é a história de como o acaso moldou um traficante

Misha Glenny escreve muito bem. O jornalista inglês tem três livros lançados no Brasil, daqueles que são devorados em curto espaço de tempo. “McMáfia”, mesmo com suas 464 páginas, se transforma em vício logo depois de iniciada a leitura. Trata das organizações criminosas ao redor do mundo, inclusive o Brasil, e como elas coexistem. Entre as atividades investigadas, o cybercrime.

Tema de “Mundo Sombrio”, livro que percorri em duas noites. Glenny investiga como a tecnologia se tornou uma aliada imprescindível para o crime.

o-dono-do-morroDepois de ter passado levemente pelo Brasil nos dois livros, Glenny escolheu o país para protagonizar o recém-lançado “O Dono do Morro”, um perfil aprofundado de Nem, traficante que comandou a Rocinha por quase cinco anos – todos os livros foram lançados pela Companhia das Letras.

Para isso, o jornalista chegou a morar um tempo na favela. Conversou com moradores, investigadores e com Nem, no presídio de Campo Grande, onde cumpre pena.

Não é um livro tão ambicioso quanto “Abusado” (Record), a história de Marcinho VP escrito por Caco Barcellos – há pouco da vida social de Nem, principalmente o recorte que envolve celebridades do Rio de Janeiro. Mas Glenny consegue imprimir um retrato vigoroso de Nem, de como ele passou de um trabalhador comum e pai de uma menina doente a dono e chefe do tráfico da Rocinha – e essa história comove diante da força do acaso, que leva uma pessoa comum a se tornar um criminoso procurado por conta de uma doença rara que acometeu sua filha.

Em alguns momentos, o leitor fica com a impressão de estar com um resumo da história, pois Glenny acelera algumas passagens e esbarra na superficialidade. Mas se considerarmos que o livro não é uma reportagem aprofundada, mas sim um perfil mais alentado, o leitor estará diante de 360 páginas transformadas em thriller.

O olhar estrangeiro não foi tão condescendente nem preconceituoso. Em muitos casos, estrangeiros têm aquela visão romantizada da vida na favela, o que não acontece aqui. Glenny descreve o calor, o cheiro e a estrutura da favela com a autoridade de quem conheceu a realidade. Ao mesmo tempo, ao deixar a glamourização característica de lado, escapa de tratar a favela como um horror. Reconhece a paixão dos moradores pelo local onde moram sem deixar de lado a situação social em que vivem – normalmente, uma população que vive na favela e trabalha para a classe média e alta do Rio de Janeiro.

Peca ao não avançar num tema que martela ao longo de todo o livro: tanto o consumo como verdadeiro poder sobre as drogas não estão nas favelas, mas em políticos, empresários e ricaços do asfalto. Ele passa superficialmente sobre o assunto, talvez abrindo uma possibilidade de um novo livro.

Da mesma forma, passa rapidamente pelas UPPs, um modelo de tentativa de controle sobre o tráfico que está desmoronando. Vale, sim, pela forma como ele impõe um ritmo vertiginoso quando o Estado começa a preparar as subidas aos morros para se instaurar, ao mesmo tempo em que caça traficantes e as quadrilhas. E chega ao ápice no relato do plano de negociação da rendição de Nem, transformada em prisão – um mistério ainda não desvendado.

Sim, não se pode esquecer que o primeiro intuito é perfilar Nem. Em volta dele é que Glenny constrói toda a narrativa e os fatos que compõem a história do personagem – do trabalhador que sobe o morro para pedir um empréstimo para salvar a vida de sua filha, do crescimento na hierarquia do tráfico, do seu estilo pacificado de comandar a Rocinha, do declínio e seu fim como homem livre – ou, como ele escreve, o homem que “subiu o morro como Antonio e desceu como Nem”.

“O Dono do Morro” não encerra o assunto. Preenche um espaço na bibliografia brasileira, mas deixa em aberto investigações que ainda precisam avançar.

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