Comentário, Ficção, França

“O Reino”, de Emmanuel Carrère: uma decepção indecifrável

Sou fã de Emmanuel Carrère desde a primeira vez que o encontrei, em “Outras Vidas que Não a Minha” (Alfaguara), há cinco anos. A partir dessa leitura, li tudo o que está disponível em português do autor francês, a saber: “O Adversário” (Record), “Limonov”, “Um Romance Russo” e “O Bigode / A Colônia de Férias” (estes três últimos da Alfaguara).

o-reinoPortanto, quando vi um novo livro de Carrère a ser lançado, não titubeei. Daquelas compras que superam contas, adquiri “O Reino” (Alfaguara) esperando um novo impacto ao final da leitura.

E o impacto veio, mas de forma inversa ao que imaginava, com toda a experiência anterior impregnada na memória. Todos seus recursos estão lá, uma prosa deliciosa, o rompimento de fronteiras entre realidade e ficção, resgate histórico, inserção da sua vida pessoal na narrativa como fio condutor, enfim, “O Reino” é um genuíno Carrère.

Mas a história não me conquistou. Carrère pretende discutir seu envolvimento com o catolicismo, o questionamento com a fé e como a religião interferiu na sua vida. O romance em primeira pessoa, conduzido pelo próprio Carrère, é intercalado pela reinvenção da história das origens do cristianismo, por meio de Paulo e Lucas, do surgimento dos Evangelhos e do cristianismo.

Carrère se entrega ao expor momentos da sua vida em que a dúvida o deixou dominar e levou a decisões conflitantes. Sem barreiras, ele coloca no texto afetos mal resolvidos e o envolvimento com a religião. Estamos lendo um escritor desnudado e um inventivo resgate histórico do cristianismo.

Enquanto caminhava pelas páginas, não me sentia envolvido pela trama, pelo tema escolhido por Carrère. Não sei se as ferramentas do escritor se tornaram repetitivas e, neste caso, sem invenção, ou se o próprio tema não me atraiu – ainda tenho uma prova a tirar, “Eu Estou Vivo e Vocês Estão Mortos – A Vida de Philip K.” (Aleph), biografia do escritor de ficção científica sobre cuja não tenho muito interesse.

Arrastei-me até o final, somente apoiado na boa prosa de Carrère. “O Reino” acabou sendo uma decepção até agora indecifrável para mim.

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4 thoughts on ““O Reino”, de Emmanuel Carrère: uma decepção indecifrável”

  1. Acho que a temática não ajuda. Quando li a sinopse fique sem vontade de comprar, embora, como você, tenha gostado de outros livros de Carrère. Esse sobre Philip Dick, trabalho mais antigo dele, também não me empolgou.

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