Cinema/Roteiro, Obituário

Hector Babenco, 1946-2016

hector-babencoHector Babenco, morto neste 14 de julho, era um cineasta intimamente ligado aos livros. Toda sua obra tem ligação direta ou indireta com a literatura. Foi diretor capaz de enfrentar tabus (imagine tratar de homossexualidade em 1984, em tela grande, com ator estrangeiro, na cidade de São Paulo, no final da ditadura, querendo se disfarçar de democracia) e colocar as relações afetivas em seus limites.

Da sua lista de dez filmes, em 70 anos de vida, seis foram inspirados diretamente em livros: “Lúcio Flávio, Passegeiro da Agonia” (José Louzeiro), “O Beijo da Mulher-Aranha” (Manuel Puig), “Ironweed” (William Kennedy), “Brincando nos Campos do Senhor” (Peter Matthiessen), “Carandiru” (Drauzio Varella) e “O Passado” (Alan Pauls).

Seu longa de estreia, “O Rei da Noite”, teve como ponto de partida as leituras de Oswald de Andrade e Dalton Trevisan.

Já “Pixote – A Lei do Mais Fraco”, que considero seu melhor filme e uns dos cinco melhores filmes brasileiros da história, teve como argumento o livro “Infância dos Mortos”, também de Louzeiro.

Impossível não pensar que “Coração Iluminado” e “Meu Amigo Hindu” não sejam dois capítulos de sua autobiografia – há que se considerar que “Coração” foi corroteirzado pelo escritor argentino Ricardo Piglia.

Imprimir memórias

Sobrevivente de um câncer, costumava dizer que filmava para “imprimir memórias no público”. Ao olhar sua filmografia, fica difícil não entender suas intenções. Quem consegue esquecer Marília Pêra na cena final de “Pixote”, dando o peito para o menino mamar? A lista de memórias impressas por desconforto ou por afeição poderia ser imensa, e talvez seja. E quem sabe isso não seja o objetivo de todo cineasta?

pixoteNascido argentino, fez do Brasil um canal para seus temas universais. Sua morte encerra um capítulo no cinema brasileiro, o da tentativa de ampliar horizontes, de buscar temas tão pessoais e locais e que poderiam ser vislumbrados sob um olhar distante, externo, que não se fechasse na aldeia. Os livros foram a ponte para que Babenco fosse além dos cenários tradicionais do cinema nacional.

Seja nos becos norte-americanos, nas cadeias de São Paulo ou nas ruas argentinas, até nas florestas, Babenco multiplicou locações mas sempre quis falar com o íntimo – e por isso sua perda gera um vazio imenso.

Usei os livros para escrever sobre Babenco como desculpa – afinal, este é um blog sobre livros. No fundo, queria simplesmente falar de Babenco, um cara que me ensinou a gostar de cinema lá na minha adolescência, na São Paulo que ele filmou violentamente em “Pixote” e como alegoria em “O Beijo da Mulher-Aranha”.

Segui seu trabalho com certo lamento, por ser tão bissexto – o que talvez tenha sido uma dádiva, os intervalos longos produziram uma filmografia curta, mas tão intensa que basta.

Obrigado, Babenco.

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