Bielorrússia, Comentário, Não ficção

“Vozes de Tchernóbil”: A verdade como ela é

vozes-de-tchernobilDos livros mais potentes que li, sei lá, nos últimos 10, 20 anos, “Vozes de Tchernóbil” (Companhia das Letras) é a primeira obra de Svetlana Aleksiévitch traduzida para o português. Prêmio Nobel de Literatura em 2015, a autora bielorrussa foi a primeira escritora de não ficção a ser laureada na Suécia.

Com o subtítulo “A história oral do desastre nuclear”, o livro vai recontar aquele que foi o mais trágico acidente nuclear da história, que em 1986 destruiu Tchernóbil, na Ucrânia, na reta final do império da União Soviética.

A cidade foi devastada por conta da explosão de reatores nucleares em abril de 1986. A nuvem atômica se espalhou pelo território soviético e avançou pela Europa. As piores consequências ficaram no entorno da usina nuclear.

Aleksiévitch, que recentemente esteve na Flip, deu forma ao livro se apoiando nas pessoas que viveram e sobreviveram ao desastre. Comumente chamado de romance polifônico, “Vozes de Tchernóbil” deixa a narrativa para seus personagens. A intervenção da escritora é mínima, raramente ela se manifesta – mas sua voz surge delicada nos intertítulos que dão espaço aos seus personagens, uma história contada em uma ou duas linhas que pontuam com precisão a história daquela tragédia.

Estamos diante de múltiplos narradores, em depoimentos contundentes, emocionantes, indignados, memorialísticos. Essa reunião de adjetivos traduz a potência do livro, muito mais do que um documento histórico, pois transformado em registro oral da tragédia.

Viúvas, mães, mulheres, filhos, soldados, cientistas, as vozes tentam recuperar os fatos daquele abril de 20 anos atrás. Aleksiévitch costuma dizer que não entrevista seus personagens, mas que conversa com eles, ganha sua confiança e absorve a história.

Se é possível criar um paralelo com o documentário, estamos diante de um Eduardo Coutinho, que deixava seus entrevistados falarem. A autora consegue, com essa postura, fazer com que os relatos sejam humanos ao extremo, ainda que a tragédia por si já pudesse entregar emoção suficiente.

O que encontramos é uma peça jornalística em que todos os lados estão ilustrados por meio dessa polifonia. Mulheres relembram como seus maridos enfrentaram o medo e o desconhecido e se derreteram vítimas da radiação. Velhos falam da vontade de não sair de suas casas, pois ali viveram eternamente, ainda que a ameaça da radiação seja real e palpável.

Soldados e suas viúvas falam do mistério que o governo soviético impôs ao fato. Sem noção dos perigos, foram conduzidos ao local para estancar o problema sem saber o que enfrentariam. Pior. Sem ter apoio depois de serem expostos a níveis de radiação capazes de derreter uma pessoa, como o relato de abertura tão fortemente escancara – “Uma solitária voz humana”, depoimento de uma viúva de um bombeiro, é das coisas mais violentas e sofridas já escritas.

Há críticas de pesquisadores e cientistas ao governo soviético, já na fase de desmanche, experimentando os últimos anos antes da queda do império e o desmembramento das repúblicas.

“Logo depois da guerra, Theodor Adorno, abalado, disse: ‘Escrever um poema após Auschwitz é um ato bárbaro’. Um dos meus professores, Aliés Adamóvitch, um nome que quero citar hoje com gratidão, também considerava que compor prosa sobre os pesadelos do século 20 era sacrilégio. Aqui, não se tem o direito de inventar. Deve-se mostrar a verdade como ela é. Exige-se uma ‘supraliteratura’, uma literatura que esteja além da literatura. É a testemunha que deve falar. Pode-se pensar em Nietzsche, que dizia que não há artista que possa suportar a realidade. Nem a superar.”

No epílogo, Aleksiévitch tenta explicar como e por que escreveu o livro. Esse trecho mostra o dilema que a pegou ao final das entrevistas. Como enfrentar os fatos ouvidos, a tragédia viva diante dos olhos e transformar vidas destruídas, afetiva e fisicamente, em páginas de um livro é o drama que a autora buscou ao escrever “Vozes de Tchernóbil”.

Livro que é, provavelmente, o melhor lançamento do ano no Brasil. Leia. É urgente.

*****

“No hospital, nos últimos dias, eu levantava a mão dele e os ossos se moviam, dançavam, se separavam da carne. Saíam pela boca pedacinhos do pulmão, do fígado. Ele se asfixiava com as próprias vísceras. Eu envolvia a minha mão com gaze e a enfiava na boca dele para retirar tudo aquilo… É impossível contar isso! É impossível escrever sobre isso! E sobreviver… E tudo isso era tão querido… Tão meu… Nenhum número de sapato serviria… Puseram-no descalço no ataúde.”

“Eles gritavam nas suas diversas línguas. Sobre isso já se escreveu no Novo Testamento. Jesus Cristo chegou ao templo de Jerusalém e lá viu animais preparados para o ritual do sacrifício: com o pescoço cortado, esvaindo-se em sangue. Jesus gritou: ‘Haveis convertido a casa de orações em covil de bandidos’. Poderia ter acrescentado: ‘em matadouro’. Para mim, as centenas de fossas biológicas abandonadas na zona são o mesmo que os túmulos funerários da Antiguidade. Mas dedicados a que deuses? Ao deus da ciência e do conhecimento ou ao deus do fogo? Nesse sentido, Tchernóbil foi mais longe que Auschwitz e Kolimá. Mais longe que o Holocausto. Tchernóbil sugere um ponto final. Não se apoia em nada.”

“E os soldados que trabalharam no próprio teto do reator? Para a liquidação das consequências do acidente destinaram um total de 210 unidades militares, ou seja, cerca de 340 mil militares. O próprio inferno foi a parte que coube àqueles que limparam o teto. Deram a eles aventais de chumbo, mas a emissão vinha de baixo, atingia as partes do corpo não protegidas. Usavam as botas de cano de lona habituais e permaneciam de um minuto e meio a dois por dia no teto. E em seguida, davam-lhes baixa do Exército, um diploma e o prêmio de cem rublos. E eles desapareciam nos espaços infinitos da nossa pátria. No teto, rastreavam o combustível e o grafite do reator, as camadas de cimento e as armações. Tinham vinte, trinta segundos para encher as macas, e outros tanto para atirar o ‘lixo’ lá de cima. Só que aquelas macas especiais pesavam quarenta quilos. Imagine você: avental de chumbo, máscaras, maca, tudo numa velocidade louca. Dá para imaginar?”

“Como anotar a minha alma? Se tantas vezes nem eu mesma sei o que ela diz?”

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8 comentários em ““Vozes de Tchernóbil”: A verdade como ela é”

  1. Devastador. Acho que os fatos relatados no livro dialogam um pouco com o que conversamos sobre O Homem que Amava os Cachorros. O indivíduo, sobretudo no século 20, era um joguete nas mãos dessa engrenagem abjeta que é a Grande História. É incrível a fragilidade do homem comum diante de algo enorme, impessoal e amorfo, que o leva a reboque. Tchernóbil é o epílogo trágico da grande tragédia iniciada com a ascensão de Stálin ao poder.

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    1. Exatamente isso. Há trechos do livro que mostram como aquele povo ficou à mercê da sorte. Em algumas situações, por conta do desconhecimento dos cientistas, em outros, por uma rede de proteção do governo soviético que sacrificou a vida de centenas. Em ambos os casos, a História não teve receio de soltar a guilhotina.

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  2. Excelente o tema que hoje devemos todos ter conhecimento.
    É mais do que uma curiosidade é um dever de todos nós e esta informação nos remete à reflexão.

    Curtido por 1 pessoa

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