Estados Unidos, Ficção, Reportagem

William Faulkner e “Luz em Agosto”: Um grande comentador da alma humana

Enquanto esperava chegar o novo livro de Elio Gaspari, fui à estante escolher algo para ler e me deparei com a trilogia Snopes, de William Faulkner, três livros ainda intocados por mim. Peguei o primeiro, “O Povoado”, e mergulhei no universo do escritor norte-americano depois de muito tempo – completam a série “A Cidade” e “A Mansão”.

Essa volta a Faulkner me fez lembrar de uma discussão que mediei para o jornal “O Tempo”, em 2007, quando a Cosac Naify lançou uma nova tradução de “Luz em Agosto”. Escrevi sobre esse encontro e coloco no blog o texto publicado à época.

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Um grande comentador da alma humana. William Faulkner (1897-1962) foi assim definido por Marçal Aquino, autor de “Cabeça a Prêmio”. Marcelino Freire, prêmio Jabuti de 2006 pelo livro “Contos Negreiros”, diz que sentiu “carência” após ler o autor norte-americano.

luz-em-agostoOs dois escritores participaram de um debate organizado pela editora Cosac Naify, na Livraria Cultura, em São Paulo, sobre Faulkner e os reflexos na literatura contemporânea brasileira. O ponto de partida foi o lançamento da nova tradução de “Luz em Agosto”. O tradutor Celso Mauro Paciornik e o editor da coleção Faulkner, Alexandre Barbosa de Souza, também fizeram parte da mesa.

Para entender: “Luz em Agosto” narra os embates de Joe Christmas no sul norte-americano – ele que não sabe se é branco ou negro e vai enfrentar essa falta de identidade e a intolerância racial.

Lena, grávida, sai do Alabama em busca do homem que a deixou. Os conflitos com o assassinato de uma mulher e a mediação de um padre redivivo na comunidade completam o cenário dramático.

Antes do debate, conversei no café da livraria com os quatro participantes sobre Faulkner e os rumos da literatura brasileira. Confira a seguir trechos da entrevista.

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Eu queria jogar algumas idéias na mesa para vocês comentarem. Em “Luz em Agosto”, a Lena passa o livro com uma calma que boa parte dos personagens de Faulkner não possui. É uma ansiedade que nunca acontece.
Alexandre Barbosa –
O Faulkner disse que ela é uma personagem diferente porque representa a astúcia popular, ela é matreira. Ela consegue lidar com os problemas da vida.
Marçal Aquino – Todos os personagens vivem um momento de expiação, mas ela não, ela tem ingenuidade.

A obra do Faulkner é muito focada na família e na decadência dessa relação. Mas a Lena quer iniciar uma família, ela é uma antagonista de toda a obra.
Aquino – Ela é símbolo da não-decadência, que é a pedra-de-toque da literatura do Faulkner, para espelhar o sul derrotado. A (escritora francesa) Monique Nathan escreveu um ensaio sobre Faulkner que diz que a escravidão nos seus livros nunca é política. Ele teve uma convivência muito de perto e ouviu a voz. E criou um mundo para falar disso.
Barbosa – Ele tem uma coisa afetiva com a aristocracia, em falar da decadência da própria família.
Celso Mauro Paciornik – A Lena é a única que não é marcada pelas coisas do passado, não significa nada para ela. Os outros personagens são tolhidos pelas lembranças, pela culpa, pela memória.

Ela busca tudo que a remete a um passado, um ideal da família. Ela olha para frente, o que não é um traço comum nos livros dele.
Paciornik – Ela é muito diferente na biografia do Faulkner.
Aquino – Tem uma pureza que é quase impossível na obra dele, que é toda manchada.

E ela nem é o personagem principal do livro…
Aquino – Se pudermos dizer que existe um personagem principal, ele é o Joe Christmas. É o grande personagem trágico.
Paciornik – Há um estudo que lista as referências bíblicas em “Luz em Agosto”. O nome Joe Christmas (Natal em inglês), o JC, a cruz representada pela serraria. Há uma alusão à crucificação na cena em que ele (Joe) está estirado numa árvore.
Aquino – O que mostra a grandeza desse escritor. Ele oferece uma leitura nunca simples, mas que pode ser feita sem referências, e também permite entrar nas camadas mais ricas. E aí me parece que a fonte é inesgotável. Ele trabalha em termos estruturais. A leitura fundamental não se esgota nunca nesse autor.

Eu queria citar uma frase da Charlotte, personagem de “Palmeiras Selvagens” (livro de Faulkner): “Entre a dor e o nada, eu prefiro a dor”.
Barbosa – A grandeza épica que o Faulkner coloca nos personagens, sempre párias, indica que eles optam sempre pela vida. Eles sempre têm que atravessar o mundo.
Aquino – E o caminho nunca é fácil. O Faulkner oferece, por exemplo, uma leitura em que o sexo é punição, nunca é deleite. É uma coisa quase puritana. Os personagens atravessam um vale de lágrimas e nem sempre encontram redenção. Eles são marcados com o pecado original. O criminoso é uma alusão religiosa porque o passado é uma mancha.
Paciornik – Os personagens são manipulados pelo destino, pela memória. Se eles não têm consciência do próprio ser, jamais serão livres. Essa é a grande mensagem do Faulkner.
Aquino – O Faulkner por si só, pela fábula, já seria um grande comentador da alma humana. Mas ele também dá uma especial atenção à forma. Ele estabelece um mundo.

(Marcelino Freire chega atrasado à conversa)
Fale de sua impressão sobre o livro. 

Marcelino Freire – Senti uma carência, a impossibilidade de ler um livro no original de um escritor tão virtuoso, tão profundo e cheio de meandros. Eu gostei muito daquela sombra, do caos, o que há de neblina nesse livro todo. Saí da leitura dizendo: eu sou uma bosta de escritor porque eu jamais vou conseguir ter essa ambição, ter fôlego, construir uma obra de uma grandeza dessa. Nos comove, nos toca, mas eu fico no meu lugarzinho.

E como a forma bate no trabalho de vocês escritores?
Aquino – Eu não tenho muita preocupação com a linguagem nos meus livros, a minha consciência literária diz que o que me interessa é contar. Diferentemente do (escritor Gabriel) García Márquez, que reconhece que não teria criado Macondo sem ter lido Faulkner. Juan Rulfo faz menção direta à influência do Faulkner. Juan Carlos Onetti criou a província Santa Maria também por causa de Faulkner. O Cormac McCarthy é um herdeiro.
Freire – Eu gosto da palavra, da construção, da linguagem.
Aquino – Eu sempre penso no Guimarães Rosa, mais do que qualquer outro. Porque são escritores que criaram uma realidade paralela. Eu não vejo ninguém no Brasil, hoje, que tenha resolvido a questão de linguagem e o que seria a narrativa entre forma e conteúdo de um modo poderoso, pois nos falta ambição para isso. E parece que por trás de um escritor tem que haver uma ambição.

Como essa ambição poderia se refletir na produção?
Aquino – Falta aos escritores um projeto literário. Há, sim, consciência de obra, mas não há essa preocupação com o projeto. O único que tem um projeto literário que eu conheça é o Luiz Ruffato, que propõe de cara uma composição de cinco livros que vão retratar um período (“Inferno Provisório”), ou seja, um vôo ambicioso que eu não vejo em nenhum dos meus companheiros de geração e em ninguém que esteja em atividade.
Freire – Mas às vezes o escritor vai encontrando esse projeto no caminho. O que me preocupa é parecer que os outros todos são aventureiros. Veja o Evandro Affonso Ferreira, por exemplo. Se você pegar “Grogotó”, “Zaratempo!”, “Araã”, “Erefuê”, isso tudo é um projeto literário. Marcelo Mirisola pode não ter o projeto, mas ele está descobrindo. Ele fala que quem tem projeto é arquiteto, mas eu concordo com o Marçal. O (Carlos) Drummond (de Andrade) gostava de pensar no livro enquanto projeto e eu gosto disso também, mas eu vou dizer a você que a cada livro eu penso na unidade. Você vai construindo a sua casa aos poucos e visualiza a casa pronta lá na frente. Mas também tem aqueles que constroem a casa no decorrer do seu trabalho, da sua literatura.

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