Ensaio, Israel, Reportagem

“E a História Começa”: Amós Oz reflete sobre as aberturas dos livros

O editor da Companhia das Letras, Luiz Schwarcz, escreveu no blog da editora, na semana passada, um texto sobre começos de livros. Apresenta uma boa reflexão, mas o dono do maior conglomerado editorial do país – que inclui, além da casa-mãe, Objetiva, Alfaguara, Sumo das Letras, entre outros selos menores – cometeu um erro.

e-a-historia-comecaDisse que o livro que reúne palestras do escritor israelense Amós Oz, “The Story Begins”, não havia sido lançado no Brasil. Bom, o livro tem sim edição brasileira. Foi traduzido e publicado em 2007 pela Ediouro com o título “E a História Começa – Dez Brilhantes Inícios de Clássicos da Literatura Universal”.

O livro traz dez palestras de Oz, com discussões sobre aberturas que ele considera fundamentais. Escrevi na época uma reportagem para o jornal “O Tempo” sobre o título. Entrevistei escritores e críticos para falar sobre o tema.

Por conta do erro de Schwarcz, resolvi publicar no blog o texto daquela reportagem.

*****

O escritor argentino Alberto Manguel escolheu, para a abertura de “O Livro e os Dias”, uma frase de Thoreau: “(…) Que devemos buscar laboriosamente o significado de cada palavra e cada frase, supondo um sentido mais amplo que o permitido pelo uso comum, com a sabedoria, a coragem e a generosidade de que dispomos”. Original de “Walden”, o trecho traduz o jogo de escrever-e-ler, que envolve o ato de puxar um livro da estante e abrir a primeira página. Primeira página que deve pescar o leitor sem dar chance de fuga.

A isca pode ser uma frase arrebatadora, como “Pode me chamar de Ishmael”, que abre “Moby Dick”, de Herman Melville. Pode ser uma espécie de aforismo, como o parágrafo que inicia “Anna Kariênina”, de Tolstói: “Todas as famílias felizes se parecem umas às outras; cada família infeliz é infeliz à sua própria maneira”. Amós Oz propõe um contrato. Melhor, discute o contrato que o escritor apresenta ao leitor na primeira página.

O escritor israelense, autor de “A Caixa Preta” e “Fima”, debateu o tema em suas aulas em um kibutz, nas universidades Ben Gurion e de Boston e em palestras em Tel Aviv, em 1995 e 1996. Dessas aulas e palestras saiu “E a História Começa – Dez Brilhantes Inícios de Clássicos da Literatura Universal”, livro recém-lançado pela Ediouro. Oz elege dez obras, entre romances e contos,para falar sobre esse contrato inicial do escritor com o leitor.

São dez títulos que necessariamente não são os melhores ou os mais representativos, mas que, segundo Oz, demonstram como o jogo da leitura ultrapassa a palavra certa. Parte dos livros nunca foi lançada no Brasil, mas isso não impede a compreensão da discussão. Oz abre fogo de início, como a provar que a abertura é essencial para a conquista.

“Às vezes somos confrontados com um contrato inicial ríspido, quase intimidante, que alerta o leitor logo de início: as passagens são bem caras aqui. Se você acha que não pode pagar um considerável valor adiantado, é melhor nem tentar embarcar. Não espere concessões ou descontos. Assim, por exemplo, é o início de ’O Som e a Fúria’, de Faulkner.”

outono-do-patriarcaA cada obra, Oz tece comentários sobre o começo, detalha recursos de narrativa, destrincha artimanhas da escrita. Mostra os bastidores de um festival de mágica. Por exemplo, ao falar de “O Outono do Patriarca”, de Gabriel García Márquez, brinca com um dos temas mais caros da filosofia ao longo dos séculos: tempo. E o faz de forma a aumentar a ilusão que o escritor colombiano provoca: “O leitor precisa aceitar as regras do jogo; o apagamento completo da fronteira habitual entre o respeitável e o burlesco”.

Gabo é citado por Miguel Sanches Neto, autor de “Um Amor Anarquista” (Record), como um autor mestre em começos. Sua escolha recai sobre a obra máxima do colombiano, “Cem Anos de Solidão”, lançada há 40 anos: “Muitos anos depois, diante do pelotão de fuzilamento, o coronel Aureliano Buendía havia de recordar aquela tarde remota em que seu pai o levou para conhecer o gelo”. Sanches justifica: “A morte, a passagem do tempo, a infância, a vida, tudo ligado à imagem do gelo num país tropical, a algo que se desfaz tão rapidamente. É uma abertura antológica”.

Amílcar Bettega também cita Gabo. O autor de “Os Lados do Círculo” (Companhia das Letras) aponta “Crônica de uma Morte Anunciada”: “No dia em que o matariam, Santiago Nasar levantou-se às 5h30 da manhã para esperar o navio em que chegava o bispo”. Bettega se diz “fascinado” pelo começo.

“Todo mundo na aldeia onde se passa a história sabe que ele vai morrer, a única pessoa que não sabe é o próprio personagem. E ainda assim o livro tem uma tensão crescente, que não afrouxa nunca”, diz o escritor. O mesmo livro é a escolha de Josélia Aguiar, editora da revista “Entrelivros” [revista que circulou entre 2005 e 2007].

“Eu me lembro de não ter conseguido parar de ler, de esperar que algo inesperado pudesse mudar o destino, de sofrer com os reveses no caminho de Nasar. É preciso muita habilidade, sem dúvida, para prender o leitor que desde as primeiras linhas sabe o final da história”, diz Josélia.

Oz não economiza nas revelações. Em alguns casos, diz que o leitor tem que voltar ao início depois de acabar a leitura, como em “Na Flor da Idade”, do Nobel de Literatura de 1966 S.Y. Agnon, e “O Violino de Rothschild”, de Anton Tchekhov. Sobre o conto “Um Médico de Aldeia”, de Franz Kafka, Oz esclarece rumos: “Não é uma história de crime e castigo, não é uma fábula sobre tomar o caminho errado ou fazer a escolha errada. O contrato inicial é apenas um objeto de conflito e interno”.

Kafka que é considerado “atordoante” pela escritora Veronica Stigger, autora de “Gran Cabaret Demenzial” (Cosac Naify). Ela escolhe “A Metamorfose”: “Quando certa manhã Gregor Samsa acordou de sonhos intranqüilos, encontrou-se em sua cama metamorfoseado num inseto monstruoso”. Uma frase que leva o leitor ao “centro de um furacão”. “É simplesmente genial como ele faz tanto com tão pouco”, diz Veronica.

grande-sertao-veredasUm pouco que João Guimarães Rosa, na opinião de José Geraldo Couto, tradutor de “Histórias Fantásticas” (Cosac Naify), de Adolfo Bioy Casares, e de “Os Livros e os Dias” (Companhia das Letras), de Manguel, conseguiu extrapolar, ao traçar um mundo em 14 palavras: “Nonada. Tiros que o senhor ouviu foram de briga de homem não, Deus esteja”. Assim começa “Grande Sertão: Veredas”, obra máxima do sertão brasileiro.

“O livro nos lança direto na linguagem peculiar do narrador, Riobaldo, direto no coração selvagem e violento do ambiente que ele descreve”, diz Couto. Para aproveitar inícios curtos e arrebatadores, Couto cita mais dois. “O Jogo da Amarelinha”, de Julio Cortázar: “Encontraria a Maga?”. E “Macunaíma”, de Mário de Andrade: “Do fundo do mato virgem nasceu Macunaíma, herói de nossa gente”.

Em “O Último Leitor”, Ricardo Piglia escreve que o leitor “às vezes vive num mundo paralelo e às vezes imagina que esse mundo entra na realidade”. Oz avança na questão. Na conclusão de “E a História Começa”, ao propor o jogo da leitura, o israelense atiça uma interação maior, ao pedir que o leitor leve “o campo de sua própria experiência de vida e sua própria inocência, bem como cuidado e astúcia”.

Pois os contratos são perigosos. As letras miúdas podem enganar, mas se prender a elas pode dispersar a visão da floresta, “de tanto olhar as árvores”. Assim se justifica o começo de “Effi Briest”, de Theodore Fontane: “Os termos do contrato inicial exigem que se entre nesse romance com as pontas dos pés. Que escutemos silenciosamente o silêncio cada vez mais intenso”.

Começar é mais do que abrir a primeira página. É assumir um compromisso com a última. Para passar de um ponto a outro, o leitor tem que ser convencido a avançar, em algum momento, pela força da narrativa, de um personagem, de uma frase, de uma imagem. Momento que Oz define assim no trecho sobre “Outono do Patriarca”: “O começo é a conclusão: o presente mescla e contém tanto o futuro quanto o passado. O momento é a eternidade”.

*****

as-vinhas-da-iraComo complemento à reportagem, os jornalistas da editoria de cultura do jornal elegeram seus melhores começos. Não tenho mais a relação, só a minha escolha na época: “As Vinhas da Ira”, de John Steinbeck.

Escrevi: “São duas páginas e meia que Steinbeck usa para apresentar Oklahoma. Não há menção de Tom Joad, apenas a descrição de um campo devastado. A sensação após ler este curto primeiro capítulo é de poeira grudada na pele levada por um vento forte e constante, em um calor insuportável, leseira, desesperança”.

Também detalhava os dez livros citados por Oz, mas esse texto se perdeu. Deixo abaixo a lista dos romances e contos discutidos pelo autor.

  1. “Effie Briest”, de Theodore Fontane
  2. “Na Flor da Idade”, de S. Y. Agnon
  3. “O Nariz”, de Gogol
  4. “Um Médico de Aldeia”, de Kafka
  5. “O Violino de Rothschild”, de Tchekov
  6. ‘Mikdamot”, de S. Yizhar
  7. “História: Um Romande”, de Elsa Morante
  8. “O Outono do Patriarca”, de Gabriel García Márquez
  9. “Ninguém Disse Nada”, de Raymond Carver
  10. “Um Leopardo Particular e Muito Apavorante”, de Yaakov Shabtai
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