Comentário, Não ficção, Noruega

Åsne Seierstad investiga massacre na Noruega e entrega um potente trabalho jornalístico

Um de NósEm 2011, um norueguês desembarcou numa ilha e começou a disparar contra os jovens que passavam um fim de semana no local. Foi um massacre, com ares de crueldade, com caçadas e execuções.

Depois, descobriu-se que esse mesmo assassino havia deixado uma bomba para explodir em Oslo, num prédio da administração federal. Ao todo, morreram 77 pessoas, vítimas da insanidade de Anders Breivik.

A jornalista norueguesa Åsne Seierstad, perplexa com o acontecimento, resolveu investigar a história daquele atentado terrorista. O resultado é “Um de Nós” (Record), um estupendo trabalho jornalístico. São 556 páginas em que a repórter trata de esgotar o assunto, de forma meticulosa e sem espaços para divagações.

Seierstad, autora de “O Livreiro de Cabul” e “Crianças de Grozni”, esmiuça a vida do terrorista e de pessoas que se envolveram com o ataque. Ela começa pelo básico, volta à infância do norueguês e mostra como ele cresceu numa família disfuncional e sem apoio algum.

Ora devoto a games violentos, ora tentado a filosofias preconceituosas, Breivik incorporou o típico jovem perdido tentado a seguir qualquer coisa e qualquer um que afague seu ego, grupos racistas, principalmente, com ideologias tortas. Seierstad acompanha o crescimento do rapaz até o julgamento. É um retrato profundo, daqueles trabalhos jornalísticos que causam uma inveja boa.

Ela também se volta às vítimas. A jornalista reconta a história de jovens que imigraram para a Noruega com suas famílias, vítimas de perseguições políticas ou em busca de uma vida mais segura e confortável. Entre eles, muçulmanos, pobres e com estereótipos que divergiam da paisagem loira com olhos azuis da Noruega. Eram os alvos potenciais da intolerância.

A repórter também junta a esse imenso quebra-cabeça a atuação da polícia e dos órgãos de segurança noruegueses. Sem se dar conta do tamanho da tragédia, após a explosão da bomba, demoraram a agir e buscar pistas, que, quem sabe, poderiam evitar ou reduzir a tragédia na ilha de Utøya.

“A comunicação entre as entidades era ruim e vaga. A conversa se encerrou sem que a chefe de operações conseguisse transmitir que esse poderia ser o veículo de um possível autor, que a pessoa fora vista perto do local, que estava vestindo uniforme policial e estava armada.”

Seierstad tenta se manter distante, para não influenciar o resultado – sua apuração, condução e o livro dependiam dessa frieza, por mais que o assunto puxasse para dentro – e é perceptível o quanto foi difícil impor limites, tal a potência dos fatos – tanto do horror da tragédia quanto da incompetência policial.

“Um de Nós”, o título (a tradução é literal), talvez seja a única permissão que Seierstad se liberou a ter, título que permite concluir que o terrorista era uma cria da Noruega, resultado de ações do passado e do presente.

“Um de Nós”, o livro, pega o leitor à força, pois Seierstad trata a história com uma profundidade raramente vista em trabalhos de investigação jornalística. Sem contar o seu texto, redondo e conduzido com sobriedade, que segura o leitor e o envolve na história – como ela já havia feito em seus trabalhos anteriores no Afeganistão, no Iraque, na Sérvia e Tchetchênia. A abertura, uma cena narrada sobre o massacre, é brutal e tão bem escrita que faz o leitor soltar o livro somente vencido pelo sono – não há outro motivo para parar de ler “Um de Nós”.

*****

“As informações da testemunha não foram anunciadas através de qualquer sistema de comunicação, tampouco foram transmitidas à mídia para notificação via rádio e televisão. A Central de Trânsito Rodoviário de Oslo, que possui uma extensa rede de câmaras, também não foi alertada. Apesar de o Quarteirão do Governo, o principal centro de poder da Noruega, ter sido explodido por uma bomba, o plano de resposta a terrorismo nunca foi implementado.
Ninguém apertou o botão vermelho.
Os recursos existentes não foram aproveitados.
Enquanto isso, Breivik dirigiu calmamente em direção a Sollihøgda. Ele respeitou os limites de velocidade. Não quis ultrapassar nem ser ultrapassado, para evitar que alguém olhasse para dentro do carro e estranhasse alguma coisa.
Às 16h16, ele cruzou Sollihøgda. Lá embaixo, de seu lado esquerdo, estava o lago de Tyrifjorden, escuro e cinzento.
Logo, ele consegui ver a ilha de Utøya.”

“- O que você quis conseguiu aqui hoje? E vai acontecer algo mais?
– Desejamos tomar o poder na Europa dentro de sessenta anos. Sou comandante de Knights Templar. Nossa organização foi criada em Londres em 2002 com delegados de doze países.
Ele ressaltou que não eram nazistas e que apoiavam Israel. Não eram racistas, mas queriam o Islã político fora da Europa. Poderia ser chamada de uma revolução conservadora.
– Mas escrevi isso num manifesto de 1.500 páginas, não posso explicar tudo isso agora – acrescentou.
– Tem algo mais na ilha?
– Não.
– Cargas explosivas? Armas?
– Não, isso é um capítulo encerrado.
– Seu carro, do outro lado do estreito, está carregado?
– Não, mas minha espingarda deve estar lá dentro.”

*****

Sinapse: para ler mais sobre Åsne Seierstad no blog

 

 

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