Comentário, Estados Unidos, Não ficção

Sobre “Hiroshima”, a reportagem clássica de John Hersey que pede releituras

hiroshimaEm 2002, a Companhia das Letras inaugurou a coleção Jornalismo Literário com o lançamento de “Hiroshima”, clássica reportagem de John Hersey publicada em 1946 na “The New Yorker”.

Lembro que peregrinei por várias livrarias, procurando o lançamento na época, e não encontrei o livro em inglês em sebos no início dos anos 2000. Nunca tinha lido a reportagem, apesar de conhecer sua fama e importância.

Quando finalmente encontrei a edição em português, comecei a ler imediatamente. Saí da livraria para sentar num café na Savassi – morava na época em Belo Horizonte. Avançara até mais da metade, para terminar de ler em casa. Uns dias depois, li novamente. Era preciso ler duas, três vezes, para entender a força do trabalho de Hersey.

Matinas Suzuki Jr., coordenador da coleção, define o livro no posfácio desta forma.

“‘Hiroshima’ é uma espécie de ‘Cidadão Kane’ do jornalismo. Como o filme de Orson Welles, esse texto lidera todas as listas de ‘melhor reportagem’ já escrita. O autor John Hersey precisou de 31.347 palavras para explicar como uma única explosão matou 100 mil pessoas, feriu seriamente o corpo de mais 100 mil e machucou a alma da humanidade.”

Hersey foi ao Japão para traçar um perfil de seis sobreviventes da bomba atômica, um ano depois do ataque. Fez mais. Quarenta anos depois, ele voltou a Hiroshima para fechar a reportagem.

Fez história não só pelo tema, mas pela abordagem, detendo-se nos personagens e dando certa humanidade ao grupo. Hersey é sempre lembrado como um pioneiro do jornalismo literário, o gênero que usa técnicas de literatura para reportar.

“Hiroshima” talvez seja o ápice do gênero, com uma prosa enxuta, sem perda de foco e digressões. Soma-se um estilo vigoroso e elegante e tem-se, sim, a melhor reportagem já escrita.

Eu voltei a ele, 14 anos depois. Foi preciso. Por acreditar que o jornalismo ainda pode resistir e contar histórias.

*****

Sinapse – para ler mais sobre a bomba atômica no Japão

  • “Gen – Pés Descalços” (Conrada), de Keiji Nakazawa. HQ em quatro volumes (primeira edição, esgotada) ou dez volumes (nova edição)

 

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2 thoughts on “Sobre “Hiroshima”, a reportagem clássica de John Hersey que pede releituras”

  1. Ricardo, esse livro não deveria ter recebido uma reedição? Ou o público alvo acaba sendo muito específico? Ou talvez na própria época de lançamento o impacto acabou sendo menor do que o esperado (pouca gente lendo e comentando)? Um livro com 116 páginas, podia já ter aparecido na coleção de bolso da Cia…
    Isso me faz pensar agora na futura não-reedição de Vozes de Tchernóbil.
    Inté!

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    1. Oi Enzo, não sei se a editora lançou reimpressões desde o lançamento. Provavelmente sim. Acho que não há necessidade de uma reedição, o livro foi bem editado, com prefácio e contextualização. Entre os jornalistas, já era um livro com boa circulação antes dessa edição da Cia das Letras, mas o público em geral não tinha acesso fácil. Não acredito que seja direcionado para um público específico, afinal, trata-se de uma história de interesse geral, acho. Além do mais, é muito bem escrito. Concordo, merecia uma edição no formato bolso, mas a editora está meio relapsa com a coleção Jornalismo Literário.

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