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A leitura de “Os Vestígios do Dia” incorpora o mordomo de Anthony Hopkins e “Downton Abbey”

os-vestigios-do-diaAlguns livros, quando leio depois de ter assistido ao filme em que se inspirou, ficam encharcados da memória visual. Como se fosse impossível criar, imaginar rostos, trejeitos e lugares diferentes daqueles vistos na tela.

“Os Vestígios do Dia” (Companhia das Letras), de Kazuo Ishiguro, é um desses exemplares cuja leitura fica indissociável do filme dirigido por James Ivory. Assisti em 1993, numa tela gigantesca, em São Paulo, numa época em que alguns cinemas da avenida Paulista comportavam mais de 500 lugares.

Foi numa dessas salas que me encantei com a interpretação de Anthony Hopkins para o mordomo James Stevens, que, em meados da década de 1950, emprega uma volta ao passado enquanto viaja pelo interior da Inglaterra.

Vai relembrar como era a vida em Darlington Hall, a mansão onde trabalhou por mais de 30 anos para Lord Darlington. Enquanto isso, coloca a limpo sua relação com miss Kenton, a governanta da casa vivida por Emma Thompson.

Stevens então mergulha no passado e essa imersão revela como era a relação entre nobres e empregados. Muito apegado a regras, o mordomo dificilmente abria exceção em sua rotina e na do resto do corpo de funcionários da mansão. Como subtrama, um acerto de contas particular, o narrador revive a história do seu pai, ele um ex-mordomo em decadência física.

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Anthony Hopkins e Emma Thompson em cena de “Vestígios do Dia”

É interessante como Ishiguro – e o roteiro de Ruth Prawer Jhabvale e Harold Pinter (este não creditado) – incorpora esse cotidiano do funcionamento da mansão, das funções do mordomo e da sua fidelidade com o patrão enquanto desfila as opções políticas de Lord Darlington às vésperas da 2ª Guerra Mundial.

Articulações políticas eram feitas e definidas em reuniões que duravam dias na mansão, onde representantes das potências envolvidas na guerra ficavam hospedados. Isso tudo sob o olhar discreto de Stevens. Ishiguro trata dessa observação como uma coisa comum na vida de um mordomo, pessoa de confiança total do nobreza.

E imaginar alguém que não Hopkins no papel de Stevens ficou difícil ao longo de todo o livro. Apesar de há muito tempo não ver uma cena do filme, a interpretação do ator ficou tão impregnada na minha memória que Stevens sempre foi Hopkins.

Outro fator que não pude resistir de incorporar enquanto lia foi a ambientação de “Downton Abbey”, série inglesa que terminou recentemente após seis temporadas. Em vários momentos da leitura, Darlington Hall se desenhou como Downton, mas Carson, o mordomo do seriado vivido de forma brilhante por Jim Carter, nunca conseguiu invadir o espaço de Hopkins.

O mordomo de "Downton Abbey", Carson
O mordomo de “Downton Abbey”, Carson

Ao livro

A prosa de Ishiguro é elegante, bem conduzida e envolvente. Até certo ponto, muito mais fluente que o filme de Ivory, uma produção de ritmo mais lento e contemplativo. Temo em dizer que o livro toma ares de um relato de viagem, por meio das descrições de Stevens sobre sua investida pelo interior inglês – pubs, cenários, paisagens, encontros com locais, tudo isso transforma o livro numa leitura deliciosa.

Toda a viagem é motivada por uma carta de miss Kenton, que depois de anos voltou a falar com Stevens após deixar Darlington para se casar. O mordomo percebe uma certa decepção com o rumo de vida tomada pela ex-governanta e quer convidá-la a retornar à antiga mansão, agora propriedade de um rico americano e sob regras mais modernas.

No meio desse pretexto, Ishiguro expõe a tensão entre os dois – ele mais preso a regras, ela mais próxima do improviso e da espontaneidade. E aqui entra aquela que na minha opinião é uma das grandes cenas do cinema.

Num momento de lazer, Stevens está entretido com uma leitura quando miss Kenton quer saber o que ele está lendo. Enquanto protege o livro, ela insiste em arrancar o volume das mãos do mordomo, até descobrir que ele estava lendo um romance barato, desses açucarados que enfeitam as relações afetivas – o que, para ela, desembrulhava o Stevens rígido para mostrar um homem comum.

A cena em que Emma Thompson tenta saber o que Anthony Hopkins está lendo em "Vestígios do Dia"
A cena em que Emma Thompson tenta saber o que Anthony Hopkins está lendo em “Vestígios do Dia”

A cena entre Hopkins e Thompson é brilhante, mas no livro perde força – muito provavelmente pelo impacto visual e dramático do filme.

Ao final, não importa se miss Kenton vai ou não voltar para Darlington Hall. Não era esse o motivo da viagem de Stevens, mas sim provocar sua memória e tentar se humanizar. Ishiguro imprime, no encerramento, um mordomo tão comum como qualquer outro homem.

Estamos diante da decadência de um modo de vida e da percepção de como o futuro para uma geração de profissionais ficou para trás – o mote da reta final de “Downton Abbey” também. Stevens, com menos funções, busca uma vida que nunca teve e que nem sabe como lidar, como encontrar. Ao mesmo tempo, miss Kenton nunca deixou a vida de governanta para trás, mesmo casada. É nesse inconformismo mútuo que “Os Vestígios do Dia” se concentra.

Como viver daqui em diante? Deveríamos ter feito algo diferente? Poderíamos ter sido menos fiéis e mais egoístas conosco? Miss Kenton e Stevens buscam ao final respostas para perguntas que nunca fizeram e que sempre deixarão de fazer. A angústia toma conta do final de forma arrebatadora.

A reedição da Companhia das Letras traz ao final o conto “Depois do Anoitecer”, inédito em português e publicado em 2001 pela “The New Yorker” – fraco.

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