Comentário, Estados Unidos, Não ficção

O horror retratado em “Missoula”, de Jon Krakauer

missoula“Missoula” (Companhia das Letras), do jornalista norte-americano Jon Krakauer, é uma peça de não ficção da qual pouco consigo falar. Vou apenas deixar um comentário breve do livro e logo em seguida destaco alguns trechos, que acredito que irão fazer mais pelo tema e pelo livro do que qualquer coisa que eu possa escrever.

Krakauer foi investigar o que seria uma epidemia de estupro por conhecidos na Universidade de Montana. Jovens foram atacadas por jogadores de futebol americano, que, por conta do status que tinham na cidade de Missoula, eram protegidos pela cidade, pela comunidade acadêmica e até pela polícia.

Algumas das moças atacadas resolveram denunciar o crime e enfrentaram um sistema machista, despreparado para lidar com esse tipo de violência e que raramente enxergava a gravidade da situação – em pouco mais de quatro anos, foram feitas 350 denúncias de crimes sexuais.

Em vários casos, os homens se transformam em vítimas – choram, lamentam – enquanto as mulheres se veem e são vistas como culpadas – um pai, em depoimento a uma comissão da universidade, chama seu filho estuprador de “urso de pelúcia”. Krakauer conta a história não somente dessas mulheres, mas de todo o entorno, de como a polícia modificou – ou tentou modificar – sua forma de trabalhar, de promotores e advogados de defesa, desses atletas que achavam que podiam fazer qualquer coisa porque uma vitória apagava a violência.

Foi das leituras mais perturbadoras que já tive.

*****

“Refletindo sobre essa entrevista em 2014, quatro anos depois, Kelsey me disse que não estava emocionalmente preparada para ser interrogada daquela forma menos de 48 horas depois de ter sofrido um estupro coletivo. Ninguém a havia informado de ela poderia pedir que um advogado de vítimas estivesse presente durante a entrevista. ‘Eu tinha acabado de passar por aquele suplício’, disse ela, ‘e eles me colocam numa sala com duas figuras de autoridade masculinas. Foi bastante intimidador. Tentei manter uma postura firme e achei que não precisava que alguém estivesse lá comigo, mas queria que outra mulher estivesse ali presente para fazer eu me sentir um pouco mais confortável.”

“Ralph Richards foi dispensado, e o pai de Calvin Smith entrou na sala para depor como testemunha de caráter. Calvin lhe perguntou: ‘Você pode descrever que tipo de pessoa eu sou?’
‘O que sei sobre você é que você tem sido um filho muito  bom’, respondeu o pai de Smith com voz emocionada, os olhos marejados de lágrimas. ‘Você nunca me desrespeitou. Nunca usou o nome de Deus em vão… E seus amigos me disseram que você é um grande ursinho de pelúcia. E você é um ursinho de pelúcia. Eu não acredito que você pudesse machucar alguém.”

“Embora estivesse traumatizada pelo ato violento de Beau, ela se perguntava – como tantas outras vítimas de agressão sexual – e de alguma forma era responsável. ‘Senti um monte de emoções diferentes’, lembra. ‘Não conseguia deixar de me perguntar: será que eu fiz algo para ele achar que era isso que eu queria? Será que bebi demais? Eu não tinha realmente feito nada disso, mas essas coisas passam pela sua cabeça mesmo assim. Quando pensava nisso, eu sabia que o que aconteceu não foi culpa minha. Mas eu não quis denunciar. Assumi uma atitude meio ‘Eu provavelmente posso superar isso e esquecer o assunto’.'”

“Depois que o decano Charles Couture determinou, em março de 2012, que Jordan Johnson era culpado de estuprar Cecilia Washburn, Jordan teve quatro chances de recorrer da decisão de Couture. Quando finalmente triunfou em sua quarta tentativa e foi declarado inocente pela decana Voorhees, esta teve a palavra final sobre o caso. O processo de julgamento da universidade não deu a Cecilia Washburn nenhuma chance de recorrer da decisão de Voorhees. Assim, em vez de expulsar Jordan Johnson, a Universidade de Montana convidou-o para voltar como quaterback dos Grizzlies, e, quando o fez, a maior parte de Missoula ficou exultante.”

“‘Não contei para ninguém’, disse Beth. ‘Não tinha o direito. Era o direito da minha filha. Ela era adulta… eu precisava proteger sua vontade.’ Durante os meses que se seguiram, Beth disse que sua casa ‘se transformou quase num túmulo’ diante do ‘choro de Allison, que ficava andando no meio da noite e soluçando… Foram cinco meses de um verdadeiro e absoluto inferno, para dizer o mínimo, vendo-a se fechar tanto. A dor bruta, a dor bruta interna que estava lá todo dia – e eu podia vê-la nos olhos dela -, era assustadora, a ponto de eu mal conseguir funcionar, levantar todo dia e ir para a escola e ensinar e manter um sorriso no rosto enquanto tinha uma filha que estava sofrendo tão horrivelmente.”

“Paoli [advogado de defesa de um rapaz acusao de estupro] estendeu uma cópia do documento e perguntou: ‘Então, nas suas reflexões, você escreveu que achava que essa situação toda era culpa sua, certo?… E quais foram os sinais ambíguos que você deu que a fizeram achar que isso tudo foi culpa sua?’
‘Talvez tenha sido a roupa que eu estava usando, o fato de a gente dar uns amassos ou de eu tirar a minha blusa que levou Jordan a achar que eu queria fazer sexo’, respondeu Cecilia.
‘E você se arrende de não ter chamado Stephen ou feito mais para resistir a Jordan?’, continou Paoli.
‘Eu deveria ter gritado para o meu colega na sala de estar’, respondeu ela, ‘ou ter usado mais força para resistir a ele, sim.”

“O promotor Joel Thompson perguntou por que, se uma mulher percebia que um homem estava tentando estuprá-la, ela não iria ‘lutar até a morte’ em vez de se permitir ficar sujeita a uma experiência tão traumática.
É comum supor que qualquer mulher ameaçada de estupro faria tudo a seu alcance para resistir fisicamente, disse o dr. Lisak, ‘mas não é isso que vemos acontecer… Na verdade, a maioria das mulheres que é abusada sexualmente não resiste. O medo as domina. Elas com frequência se sentem impotentes. Às vezes fazem uma escolha consciente de não resistir, pois temem que, se o fizerem, serão machucadas de forma ainda pior’. Muitas vítimas relatam depois para a polícia que na verdade tentaram ‘aplacar o agressor coo estratégia para evitar um dano maior’.
Solicitado a aprofundar o tema, Lisak explicou: ‘Uma das coisas que, sinceramente, é difícil para a maioria de nós entender sobre o estupro é que não precisa haver uma arma apontada para a cabeça, não precisa haver uma faca, não precisa haver uma ameaça verbalizada para que o ato em si seja extremamente aterrorizante e ameaçador… Há uma diferença entre violência sexual e outras formas de agressão. A violação sexual é íntima demais’. Quando seu corpo é penetrado por outra pessoa contra a sua vontade, disse Lisak, isso costuma provocar um tipo de terror singular e poderoso. De acordo com muitos estudos especializados, um grande percentual das vítimas de estupro por conhecido ‘teve medo de que seria morta’, ainda que ‘não houvesse nenhuma arma ou violência evidente’.”

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Sinapse: Para ler mais sobre Jon Krakauer

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