Comentário, Espanha, Não ficção

Enfim, “O Impostor”

o-impostorLi “O Impostor” (Biblioteca Azul) na virada de ano, mas até agora não tinha conseguido sentar e escrever sobre o livro do espanhol Javier Cercas.

Provavelmente, sairá aqui um apanhado de ideias reunidas sem muito nexo.

O livro é inclassificável. Mistura de romance, jornalismo, sociologia, psicologia, ensaio, história, “O Impostor” avança no que Cercas já havia feito em “Soldados de Salamina” (Biblioteca Azul).

Primeiro aparte. Li “Soldados de Salamina” há muitos anos e tenho que confessar que não gostei na época. Um amigo admirador do livro de Cercas sempre me fala para eu dar mais uma chance. Acho que chegou a hora.

Em “O Impostor”, Cercas conta a história do catalão Enric Marco, que disse ter lutado na Guerra Civil Espanhola e que fora vítima dos campos de concentração nazistas. Foi tema de reportagens em seu país, até ser desmascarado. Envolveu-se com os anarquistas, liderou sindicatos. Foi um personagem contraverso, que, sabendo-se mentiroso, nunca quis ficar à sombra, sempre preferiu holofotes, sem medo de ser questionado ou desmentido.

É sobre esse personagem que Cercas vai se debruçar. Mais do que tentar entender as motivações, vai construir um portentoso volume que investiga o conflito na Espanha, a 2ª Guerra Mundial, o jogo midiático da virada do século 20, permeando com digressões sobre Voltaire, Cervantes e seu “Quixote”, Kant, Platão e Montaigne.

“Quixote e Marco são dois romancistas frustrados: são dois romancistas de si mesmos; jamais se conformariam com apenas escrever os seus sonhos: eles querem protagonizá-los.”

Em vários momentos, o livro se aproxima de um thriller político, alternando a investigação dos fatos e sua relação com Marco – Cercas consegue convencê-lo a dar uma série de entrevistas para a montagem desse perfil. A cada capítulo, muda o ponto de vista do narrador e insere reflexões sempre partindo da questão primordial para o livro: compreender é justificar?

Afinal, Marco enganou todo um país ao se dizer vítima do nazismo. Se ele tinha seus motivos é o que menos importa para Cercas. Para o escritor, o livro teria que buscar a resposta para uma questão mais filosófica, a que trata de como as pessoas poderiam, quem sabe, perdoar Marco ou tentar entendê-lo.

Em vários momentos, Cercas escreve que esteve a ponto de desistir de escrever. A frase de abertura deixa bem claro o quanto o escritor teve que refletir até tomar a decisão: “Eu não queria escrever este livro”.

O questionamento é constante. Como explicita este trecho:

“Estaria eu disposto a me condenar em troca da escritura de uma obra-prima, supondo-se que eu fosse capaz de escrever uma obra-prima? Em suma: seria possível escrever um livro sobre Enric Marco sem fazer um pacto com o diabo?”

O início traz a narrativa de como ele tomou conhecimento da história de Marco e como titubeou. Um jantar em que Mario Vargas Llosa estava presente foi decisivo para que o autor empreendesse o trabalho, assim como a participação de seu filho como operador de câmera.

“Não são os livros impossíveis os mais necessários, talvez os únicos que valem realmente a pena tentar escrever? Não foi isso que Vargas Llosa quis dizer quando me disse na sua casa de Madri que eu tinha que escrever sobre Marco? O máximo a que um escritor pode aspirar não é a uma derrota nobre?”

Segundo aparte. Em toda a leitura, o que me vinha à mente era a bibiografia do francês Emmanuel Carrère. Livros como “O Adversário”, “Limonov”, “Um Romance Russo” e “Outras Vidas que Não a Minha” ultrapassaram a fronteira da ficção para incorporar elementos do jornalismo e outras disciplinas humanas. Escrevi sobre os livros de Carrère aqui e aqui.

O livro é classificado, em sua ficha de catalogação, como romance. Talvez ficasse mais confortável se estivesse como ensaio, mas a rotulação é mais um item a mostrar o quanto as fronteiras ficam difíceis de serem identificadas.

E Cercas escreve muitíssimo bem. A forma como monta a sequência de fatos, como vai construindo a história, como vai expondo suas dúvidas e suas decisões, como mostra seu objeto de estudo e religa os pontos da trajetória errática de Marco é exemplar da técnica narrativa.

Alguns críticos classificaram o livro como romance sem ficção, algo muito próximo do que Truman Capote inventou em “A Sangue Frio”, sua não ficção. Ao final do livro, percebe-se que essa discussão é tão simplória perto do que o livro representa que pouco importa em que prateleira “O Impostor” ficará.

*****

“A pergunta era a seguinte: como é possível que Marco tenha dirigido a CNT durante a transição da ditadura para a democracia? Como é possível que um homem que durante o franquismo não tivera a menor relação não apenas com a CNT, mas com o conjunto do movimento antifranquista, e que tinha passado vinte e cinco anos fechado em sua oficina de conserto de carros e quarenta anos sem mover um único dedo para derrubar o franquismo ou para melhorar as condições de trabalho durante o franquismo, tenha se transformado apenas alguns meses depois da morte de Franco em secretário-geral da CNT da Catalunha e, dois anos depois, em secretário-geral da CNT de toda a Espanha? Como é possível que um homem como esse tenha tido em suas mãos no momento decisivo o controle de uma organização decisiva, uma central anarquista ou anarcossindicalista proscrita durante os quarenta anos de franquismo, que dominava o movimento sindical antes do franquismo e aspirava voltar a fazê-lo depois dele? A resposta a essas interrogações complexas é muito simples: porque ele era o personagem ideal para fazer isso.”

 

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2 comentários em “Enfim, “O Impostor””

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