Estados Unidos, Não ficção, Notas de leitura

Notas sobre Jon Krakauer

A leitura impactante de “Missoula” me fez buscar os outros livros de Jon Krakauer que já tinha lido, impregnado que estou pela narrativa. O jornalista americano tem um texto fluente, bem escrito e estruturado.

Li outros quatro livros de Krakauer e comento sobre eles aqui. “Missuoula” apenas reforçou a sensação de que ler o jornalista é essencial. Todos seus livros são da Companhia das Letras.

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pela-bandeira-do-paraiso“Pela Bandeira do Paraíso”
Um belo livro de Krakauer, reportagem muitíssima bem pesquisada sobre uma facção radical dos mórmons. O jornalista parte do assassinato da cunhada e de um bebê de 15 meses por dois irmãos em Utah.

É a deixa para Krakauer buscar as origens da religião e de como ela se instalou na América profunda. Ele busca fatos para entender como funciona a relação dessa que é considerada uma crença genuinamente norte-americana.

Um mérito é a distância como Krakauer trata a história, que passa pela investigação do crime, a polêmica da poligamia, o fanatismo e a dissidência radical que transforma o mormonismo.

Antes de ler “Missoula”, este era o meu livro favorito de Krakauer.

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onde-os-homens-conquistam-a-gloria“Onde os Homens Conquistam a Glória”
Um rapaz está no auge de sua carreira no futebol americano, prestes a assinar um contrato milionário, quando as torres gêmeas caem. Os EUA entram em guerra contra o Afeganistão e ele resolve se alistar. Para tanto, Pat Tillman adia sua carreira, pouco tempo depois de se casar. Enfrenta a resistência da família, mas o irmão mais novo resolve acompanhá-lo.

Ele se junta aos Rangers e assina um contrato de três anos. Decepciona-se quando é convocado para ir a uma guerra que não convenceu ninguém – a do Iraque. Combate na queda de Saddam Hussein e retorna aos EUA.

Tempos depois, ele volta à guerra, dessa vez ao Afeganistão. Lá, morre nas montanhas em combate. A carreira de um promissor jogador de futebol é interrompida. O que se descobre logo depois é que ele foi morto por fogo amigo, não por uma emboscada afegã.

Krakauer narra essa história em ritmo de thriller. O jornalista combina uma escrita vertiginosa sobre a vida de Tillman a uma descrição minuciosa do funcionamento da política norte-americana. Revive momentos anteriores ao ataque de 11 de setembro para abrir a cortina do que virá ao longo das guerras.

Tillman é tratado como objeto de propaganda para o governo promover a guerra – um astro da NFL se alistou voluntariamente, coisa que os marqueteiros não poderiam deixar passar simplesmente. Vai descobrir que a guerra não era uma questão patriótica quando Bush invade o Iraque. Depois, fica perturbado quando vê que os esforços (e o dinheiro) estão concentrados no Iraque, enquanto o Afeganistão fica em segundo plano.

As consequências de sua morte são enfrentadas pela família. O Exército, no início, não admitiu fogo amigo e fez propaganda da morte do herói. Após muita insistência da família, as investigações continuaram para revelar a verdadeira razão da morte de Tillman.

Mais do que um triste retrato de uma era confusa, o livro de Krakauer revela uma faceta humana da guerra. O personagem, claro, ajuda. Um rapaz íntegro, que rejeita propostas milionárias para ficar num time que acreditou no seu potencial. Leitor de Homero e Nietzsche, Tillman enfrenta oficiais que gostam de maltratar os novatos. Conquista seus colegas. Krakauer mostra enorme simpatia pelo seu personagem, o que não prejudica a composição.

O livro embala a típica história americana. Um rapaz simples, bem intencionado, vence na vida, adia seus sonhos por um interesse maior, revela um patriotismo comovente ao largar mulher e família e cai abatido num país que ofendeu a honra americana. É a descrição do herói como a América gosta.

Na história de Tillman, o que muda é como o governo agiu de forma a tirar vantagem desse herói, sem mostrar compaixão e respeito. Torna-se o vilão, tanto quanto os inimigos que resolveu enfrentar em luta pela democracia. Tillman, enrustido nos acampamentos no deserto, sabia disso. E enfrentou.

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no-ar-rarefeito“No Ar Rarefeito”
Krakauer é um exímio contador de histórias. Ele impõe um ritmo nas suas narrativas que chega a ser alucinante.  Seus livros lembram a música do Nirvana – ou do Pixies, se você for mais purista,  banda na qual Kurt Cobain se inspirou.

Ele alterna trechos em que aprofunda suas questões ou busca elementos históricos com a pura narrativa da sua história – o típico devagar-rápido-devagar-rápido das duas bandas. Até chegar em um ponto em que ele acelera e a leitura se torna compulsiva – com o final das canções.

“No Ar Rarefeito” é mais um exemplo desse estilo. Para contar sua aventura ao escalar o Everest, Krakauer intercala com a história do pico, dos primeiros alpinistas, da descoberta, da primeira medição. Tudo isso corre paralelamente à sua descrição da subida.

Subida que se revelou uma tragédia. Ele entrega o ouro logo no início, e deixa para explicar os motivos durante o livro – e aqui cabe mais uma comparação, desta vez com Hitchcock, que adorava contar logo no início quem era o criminoso, para gastar a hora e meia mostrando como o crime aconteceu. Para o mestre inglês, não importava o que aconteceu, mas com aconteceu – “Festim Diabólico” é o melhor exemplo.

A sensação que se tem é de sentir o mesmo frio e a mesma falta de oxigênio que Krakauer sente, pois suas descrições são envolventes, próximas. A metade final chega a ser sufocante. Mais do que uma leitura sobre alpinismo e a aventura do autor, o livro revela a natureza obsessiva do homem. Homens que resolvem encarar o desafio a qualquer custo, sem medo de perder a vida, sem medir consequências.

Essa natureza é o que mais rico tem no livro. Ajuda a entender o que faz uma pessoa subir um monte com temperaturas de -50 graus, com ventos de 160 km/h e sem oxigênio e enfrentar doenças múltiplas que se aconchegam à medida que o homem avança nos 8.840 metros de altura do pico do Everest.

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na-natureza-selvagem“Na Natureza Selvagem”
Este talvez seja o livro mais famoso de Krakauer, fama ampliada após virar filme nas mãos de Sean Penn. Li há muito tempo, anos antes de a versão cinematográrica estrear. O livro caminha por uma trilha mais reflexiva, na comparação com o que se vê na tela.

Krakauer busca paralelos em outras histórias de expedição, entrevista as pessoas que conviveram com Chris McCandless, o jovem que se envereda por uma vida longe da cidade, nos dois anos em que viajou e tenta humanizar um personagem que poderia cair no ridículo ou ser elevado ao misticismo.

Ao optar pela reportagem, revela um Chris idealista, impetuoso, inteligente e amável. Teimoso e utópico, humano com suas qualidades e defeitos. Apesar de ser o mais famoso, é o que menos gosto.

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Das obras lançadas no Brasil, só falta ler “Sobre Homens e Montanhas”, uma coletânea de artigos e reportagens sobre aventuras radicais. Está fora de catálogo.

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3 thoughts on “Notas sobre Jon Krakauer”

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