Brasil, Entrevista, Ficção

Ricardo Lísias: “As pessoas que fizeram a denúncia, com intenção de me causar problemas, acabaram produzindo um bem gigantesco para a literatura brasileira”

20.DelegadoTobiasFoto2Era para ser uma série de e-books, com desdobramentos literários já planejados. Só que a história ultrapassou não somente a expectativa de seu autor, o escritor Ricardo Lísias, como deixou fronteiras narrativas para trás. Ficção e realidade se misturaram de tal forma que ficou impossível verificar qual era qual.

Essa história começou quando Lísias lançou pela e-galáxia o primeiro volume de “Delegado Tobias”, em setembro de 2014 – antes, a família do delegado já tinha ganhado vida em uma edição pequena, que circulou entre poucos. A trama: a investigação da morte do escritor Ricardo Lísias pelo tal delegado do título. Expliquei mais sobre a trama neste post.

A partir do primeiro lançamento, uma experiência narrativa de Lísias, ficção e realidade começaram a andar de braços dados. O primeiro volume já dava um salto na forma – e mais não conto para não estragar a experiência de quem for ler a série pela primeira vez.

A experimentação alçou voos mais altos com os outros quatro volumes da série. Não havia mais personagens fictícios nem pessoas reais, estava tudo inserido numa obra artística.

Causou polêmica, burburinho nas redes sociais. O livro ficou semanas entre os mais vendidos das listas dos eletrônicos.

Até que Lísias recebeu o golpe maior, esse sim completamente fora de qualquer expectativa. A Polícia Federal instaurou inquérito para investigar os documentos falsificados que o escritor teria usado na série do Delegado Tobias. A PF queria saber se o delegado era real, se os documentos, com o timbre da instituição, eram reais.

Como lidar? Lísias prestou depoimento, deixou críticos e blogueiros – o autor deste blog incluído – de sobreaviso para depor e dizer que tudo não passava de ficção. Até que alguém teve o bom senso de encerrar a história.

inquerito-delegado-tobiasLísias então deu continuidade. Transformou a patetada em mais uma obra, o livro-objeto “Inquérito Policial – Família Tobias” (Lote 42). Aqui, o escritor continua suas experimentações – e o blog prefere não revelar nada do conteúdo, o rumo da história, os personagens reais e fictícios, nada. Diz apenas que o livro imita o formato de inquérito, com reproduções de documentos e a simulação de uma pasta como capa. O booktrailer foi lançado no YouTube.

Toda a história vai virar peça de teatro e pode ganhar uma continuação – tratará de outra parte da família do delegado. Lísias vai falar sobre o projeto em congressos e universidades e espera lançar uma continuação sobre a história da família, uma ideia que nasceu com os sobrinhos do delegado, passou pelo próprio e agora pretende avançar sobre os pais.

Lísias conversou com o blog e, em meio a posições assertivas, deixou uma ponta de dúvida sobre o verdadeiro autor – a última resposta tem muito do estilo do Ricardo Lísias morto em “Delegado Tobias”. A entrevista vai a seguir.

*****

O escritor Ricardo Lísias | Foto: George Leoni
O escritor Ricardo Lísias | Foto: George Leoni

Delegado Tobias começou com um projeto de cinco ebooks, certo? Tinha em mente o caminho que o projeto está tomando?
Na verdade, antes dos ebooks eu tinha feito circular em edições particulares (de 50 exemplares) dois dos três contos que saem agora no “Inquérito Policial – Família Tobias”. Eu também já tinha a árvore genealógica da família. Então vieram os ebooks do delegado, tio dos três jovens cujas histórias estou publicando agora. Eu sempre trabalho com algum planejamento, então estava com a ideia na cabeça. Eu apenas não imaginava que viria o convite de uma editora para publicar o livro sob a forma de um objeto. Os ebook já tinham uma intenção construtiva, agora o caminho continua o mesmo. 

A reação ao “Delegado Tobias” começou entre os leitores, muitos não entenderam, se confundiram e fizeram com que o projeto se tornasse um hit – até hoje recebo recomendação da loja do Kobo, apesar de ter os cinco volumes. Ganhou projeção além dos livros com a ação da PF. Agora, sai o “Inquérito”. Acredita que conseguiu bagunçar as realidades com essa sequência de atos?
Foi de novo muito além e em direção diferente ao meu planejamento. A composição dos ebooks previa a confusão no leitor, até porque o próprio Delegado Tobias é uma figura confusa. A trama toda é muito confusa e a forma com que a compus procurava transmitir isso. Mas o problema com a Justiça e depois todas as consequências dele, as boas e as menos boas, eu jamais poderia imaginar que apareceriam. Foi de novo algo que fugiu inteiramente ao meu controle – talvez uma ironia por eu me achar, com certeza iludido, autor de criações tão controladas?

O que esperar mais da Família Tobias? Ou já é um assunto encerrado?
Não, é algo que me agrada muito construir. Vou sempre desenvolver novos pontos da família. O “Inquérito Policial – Família Tobias”, que sai agora com um cuidado editorial impressionante, foi muito enriquecedor. Os ebooks já me ofereceram descobertas, agora o processo se enriqueceu ainda mais. Vou apresentar uma “aula-ficção”, seguida de lançamento do Inquérito, no departamento de Filosofia da Unicamp, depois no congresso da Abralic (Associação Brasileira de Literatura Comparada) e em um congresso internacional multidisciplinar na Universidade Federal de Santa Maria (RS). Quando eu puder encerrar as pesquisas, devo me centrar nos pais do delegado, avós dos sobrinhos que agora são publicados.

O livro do inquérito sai com uma espécie de livro-objeto. A ideia que nasceu no digital se fez necessária estar no mundo físico?
A ideia de publicar os textos da família Tobias como um inquérito não partiu de mim, mas da editora, em conversas comigo, e depois do designer que assumiu a produção, Gustavo Piqueira. Esse é o tipo de trabalho que deveria ter a autoria conjunta. A família Tobias vai se manifestar através de diversas formas diferentes. O ebook não funcionaria em outra maneira de expressão. A forma-inquérito agora acompanha os desdobramentos da narrativa.  

O processo está totalmente encerrado ou ainda resta alguma coisa a ser resolvida na Justiça?
Está encerrado, com todas as minhas alegações acatadas e melhor: uma declaração explícita a favor da liberdade de criação. As pessoas que fizeram a denúncia, com intenção evidente de me causar problemas, acabaram produzindo um bem gigantesco para a literatura brasileira.

Você tem medo de retaliação? De seu nome aparecer na Lava Jato ou na Zelotes?
Vai aparecer, mas não nessa Lava Jato, na minha…

*****

Sinapses: mais Ricardo Lísias no blog

Anúncios

2 thoughts on “Ricardo Lísias: “As pessoas que fizeram a denúncia, com intenção de me causar problemas, acabaram produzindo um bem gigantesco para a literatura brasileira””

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s