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Cervantes e “Dom Quixote”: 400 anos de modernidade – Parte 2

A seguir, a entrevista com a hispanista Suelu Reis Pinheiro, que falou sobre Cervantes para a reportagem publicada em 2005, no quarto centenário do lançamento de “Dom Quixote”.

Este é o segundo post do especial do escritor. A primeira parte tem  a reportagem principal e a terceira consta de um artigo de uma especialista em Cervantes.

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Mitos que ultrapassam medidas básicas do homem moderno, como o tempo. Na história cultural da humanidade, são raros os elementos que sobrevivem à memória e se fazem presente no imaginário do século 21.

A professora da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ) e da Universidade do Grande Rio (Unigranrio), Suely Reis Pinheiro, estabelece essa relação com dois ícones universais: Dom Quixote e Carlitos. Na sua tese “Carlitos: a paródia gestual do herói”, escreve: “Carlitos caminha junto com Dom Quixote porque pertence, como ele, à galeria de caracteres narcisistas, ao conjugar a alegoria do amor a si mesmo e ao mundo, a perda da realidade e o sentimento de solidão e desolação. Como Dom Quixote, tem o viver, à margem da realidade da vida, presa nos limites do seu eu, vivendo uma existência fictícia, completamente ilhado do ser real”.

Doutora em literatura espanhola e editora da revista virtual “Hispanista”, Suely Reis falou sobre o livro de Miguel de Cervantes, sua perenidade e o legado da linguística ao longo de 400 anos. Confira abaixo a entrevista.

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lazarilhoComo se percebe a influência de “Dom Quixote” na literatura, 400 anos após seu lançamento?
O livro é uma das matrizes da literatura espanhola, juntamente com o “Lazarillo de Tormes”. Enquanto este se constitui em uma paródia do herói de cavalaria por atrofia, ou seja, por falta de heroísmo, Dom Quixote é uma paródia por hipertrofia, com exageração das características do herói. Se a descoberta das Novas Índias ocorre como uma realização de sonhos visionários, dois séculos mais tarde, a obra “Don Quijote de la Mancha” concretiza o dualismo que convive na alma humana, ou seja, o idealismo e o racionalismo. E em meio a essa ambivalência, que, acredito, persiste até hoje, se forja a utopia que demarca bem o caminhar do ser humano, mesmo 400 anos depois do lançamento do grandioso livro. Por outro lado, a figura anacrônica de Dom Quixote, provocadora do riso, inseparável da paródia, torna-se objeto de sedução, quando o leitor percebe que, além das famosas “quixotadas”, subjaz no personagem traços de um portador de um projeto de liberdade.

O dicionário Aurélio define quixotesco como alguém ingênuo, romântico, sonhador; que se envolve em trapalhadas. Houve distorção ao longo do tempo em relação à adjetivação ou as definições estão corretas? Como a senhora classificaria um quixotesco?
Realmente, todos esses adjetivos podem ser atribuídos ao personagem, em uma leitura mais simples, já que se pode ler o texto como deleite. A partir daí, há possibilidade de uma leitura mais profunda decodificando vários sentidos da obra. Então, podem ser acrescentados, nesse mundo quixotesco, universos novos, quais sejam: a justiça, a aventura, o amor, o idealismo, a esperança, a desilusão, a realização, o sonho, o delírio, a fantasia, o real e o irreal, o “engaño a los ojos” e a realidade oscilante. Neste particular, em seu livro “Les mots et les choses” (“As palavras e as coisas”, ed. Martins Fontes), Michel Foucault já se havia manifestado sobre a realidade oscilante: “Dom Quixote é a primeira das obras modernas, pois nela se vê a razão cruel das identidades e das diferenças zombar incessantemente dos signos e das similitudes; já sua linguagem rompe a velha intimidade com as coisas, para entrar nessa soberania solitária de ser abrupto, onde só sairá convertida em literatura”.

O escritor espanhol Miguel Unamuno considera “Dom Quixote” como a bíblia espanhola e avança na comparação, ao escrever “nosso senhor Dom Quixote é um autêntico Cristo”. É possível realizar esse paralelo?
O grande Unamuno viveu uma época de profundas perdas espanholas, no campo social e político e por isso ele focou seu pensamento no que ele chamou de Intra-história, ou seja, a vida cotidiana, um voltar os olhos para o homem espanhol do povo, sem história, longe das façanhas, sem riqueza. O paralelo, que eu não faria, pode ser considerado, a partir da percepção de Unamuno que aponta no personagem da Triste Figura seu sentido cristão de fraternidade, de amizade, de caridade, legado de Cristo para todas as religiões. Viu nele, daí a afirmação, de maneira apaixonadamente espanhola, e, por que não dizer, um pouco obsessiva do seu temperamento, o sofrimento, a expiação, à maneira de Cristo, das maldades humanas. Como Cristo, Dom Quixote foi um incompreendido, que apesar de só querer o bem de todos, foi vítima de punições e castigos.

A questão da narração influenciou Joyce e Proust em suas obras máximas (“Ulisses” e “Em Busca do Tempo Perdido”), por exemplo. Qual o peso da solução cervantina para a perenidade de “Dom Quixote”?
Com a narrativa de “Dom Quixote”, Cervantes integra fontes variadas para tratar, mesmo que seja de maneira paródica, de assuntos da realidade, na encruzilhada dos séculos 16 e 17, iniciando, assim, o romance moderno. No vaivém da realidade e da fantasia, se utiliza ele de todos os gêneros utilizados na época, desde o romance pastoril, do romance sentimental, do picaresco até o da aventura. Também aí estão os provérbios, a poesia e os contos.

Monumento a Cervantes, na praça de Madri
Monumento a Cervantes, na praça de Madri

A edição comemorativa do quarto centenário traz um glossário de 6.000 verbetes e cinco ensaios sobre a questão linguística de Cervantes, com o aval da Real Academia Espanhola e das academias de língua espanhola. Como esse trabalho (de defesa e propagação da língua) reflete na identidade cultural de uma nação?
Sendo a Espanha, ainda hoje, um mosaico de línguas e dialetos, mais uma vez os estudiosos acertaram com a elaboração do dicionário, para divulgação do diversificado sistema polifônico do romance, que reflete a situação lingüística do país. Fato que possibilita, à comunidade hispanista e demais estudiosos da língua espanhola, compreender a diversidade lingüística que assegura o entendimento da cultura da Espanha. Além de propiciar ao leitor do Quixote facilidade de leitura de texto do século 17, impregnado de termos fora do tempo, assegura a Cervantes o lugar de criador do romance moderno.

Por favor, comente a frase de Harold Bloom: “Há determinados aspectos do nosso ser que só conheceremos plenamente quando conhecermos, o melhor que pudermos, Dom Quixote e Sancho Pança”.
Uma das grandes qualidades do personagem é o seu grande sentimento de amizade e o sentido ético da vida. Tais características estão no diálogo e na convivência de Dom Quixote e Sancho, em que a compreensão e a concordância dão o tom do saber aceitar as diferenças. Dom Quixote que, primeiramente se mostrou “cuerdo” (são), fidalgo, depois se converte em fidalgo-“loco”, para finalmente morrer como verdadeiro fidalgo. Essa metamorfose de Dom Quixote denuncia o homem em evolução com mudança de caráter, de idéias por amor, por desengano o mesmo por instrução. Sancho, antes escudeiro simples, recebe a semente quixotesca, pelo exemplo e pelos bons conselhos e se transforma no Sancho discreto e um pouco “caballero andante”. Portanto, a “loucura” paródica de Dom Quixote torna-se sensata e construtiva com a passar dos tempos. E Sancho percebe, através do jogo dual, matéria e espírito, encarnados na dupla Sancho e Quixote, que a questão do enamoramento constitui substância que alimenta a vida do homem.

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