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Cervantes e “Dom Quixote”: 400 anos de modernidade – Parte 1

Em 2005, escrevi uma reportagem para “O Tempo” sobre os 400 anos de “Dom Quixote”. Aproveitava o lançamento de uma edição especial do livro pela Real Academia Espanhola. No pacote, havia, além do texto principal, uma entrevista com uma especialista em literatura espanhola e um artigo de uma estudiosa da obra de Miguel de Cervantes.

Reproduzo neste e nos dois posts abaixo o material publicado em março de 2005, uma forma de homenagear Miguel de Cervantes e seus 400 anos de morte.

A reportagem principal foi editada, pois algumas informações só faziam sentido para aquele 2005, como comemorações da efeméride e preços de livros. A segunda parte traz uma entrevista com a hispanista Suely Reis Pinheiro e a terceita tem um artigo da especialista em Cervantes Maria Augusta da Costa Vieira.

*****

“A liberdade é um dos bens mais preciosos que os céus deram aos homens. Não se pode comparar com os tesouros que a terra e o mar encobrem. Pela liberdade, assim como pela honra, a vida deve e pode aventurar-se”
(Dom Quixote em “O Engenhoso Fidalgo Dom Quixote de la Mancha”)

Uma obra com 400 anos que não apenas resiste ao tempo, como se impõe por séculos de história da humanidade. Um livro que ultrapassa definições e influencia o que de melhor já se produziu nas letras. Uma escrita que é orgulho de uma nação e força-motriz de divulgação pelo mundo afora.

dom-quixote“O Engenhoso Fidalgo Dom Quixote de la Mancha” completa 400 anos em 2005, e a Espanha promete fazer dessa efeméride um marco das letras e da cultura. Pelo mundo todo, serão promovidos eventos, exposições, debates sobre a obra de Miguel de Cervantes, com o Instituto Cervantes à frente da empreitada. O passo inicial foi o lançamento, no final do ano passado, de uma pérola. A edição especial do quarto centenário do livro pela Real Academia Espanhola e pelas 22 academias de língua espanhola da América contém as duas partes do romance (lançadas em 1605 e 1615), prefácio de Mario Vargas Llosa, edição e notas (mais de mil) de Francisco Rico, considerado o maior especialista cervantino, cinco ensaios sobre a linguística da obra e um glossário de 6.000 verbetes. Mais: reproduz manuscritos de Cervantes e vinhetas, ilustrações e gravuras da edição lançada em Madri em 1780, avaliada como a melhor já publicada.

A professora de literatura espanhola da USP (Universidade de São Paulo) Maria Augusta da Costa Vieira, maior referência nacional nos estudos cervantinos, resume a importância de autor e obra: “Assim como o romance picaresco que também surgiu na Espanha seiscentista com o ‘Lazarrillo de Tormes’, Cervantes criou os fundamentos de um novo gênero, o romance”.

Para a doutora em teoria da literatura pela Faculdade de Letras da USP, Sonia Fernandez, a obra está entre o que de mais “complexo” o século 17 produziu. “E essa complexidade desafia estudiosos de todos os tempos”, diz a catedrática, que também possui mestrado em língua e literatura espanhola.

“O que seria do romance sem Cervantes?” A pergunta do diretor do Instituto Cervantes de São Paulo, Juan Manuel Casado Ramos, é a deixa para enaltecer obra e autor. “Cervantes foi um gênio do seu tempo. Passados 400 anos, ‘Dom Quixote’ é a obra literária mais atual que existe”, diz.

Dom Quixote por Gustavo Doré
Dom Quixote por Gustavo Doré

Se Dom Quixote é um louco, sonhador e romântico, o livro é a “bíblia da realidade”. Inovador na questão narrativa e temporal, Cervantes construiu algo até hoje insuperável. As três tentativas de marcha na primeira parte, os combates com os moinhos e as ovelhas – já incorporados ao domínio público da imaginação –, a busca pela sua dama, Dulcinéia del Toboso, os “duelos verbais” com seu fiel escudeiro, Sancho Pança, formam um conjunto que Harold Bloom define como “o trabalho de ficção em prosa mais avançado que existe”. À impactante primeira parte, Cervantes somou uma segunda que transcende toda a literatura produzida até aquela época – e até hoje. Leitor e personagens voltam como personagens reais no volume posterior, como a questionar o “novo leitor” sobre o que é ficção e imaginação. Vargas Llosa escreve no prefácio da edição especial que “Dom Quixote” é um romance sobre a ficção “em que a vida imaginária está por toda a parte”. E pergunta: “Não é isso o viver a ficção, teatralizar a vida, com faz Dom Quixote, ainda que com menos ingenuidade e mais malícia?”.

Nas tentativas de compreender tal monumento, o colunista Jorge Aulicino da revista “Ñ”, do jornal portenho “Clarín”, encontra um caminho para começar a percorrer o engenhoso fidalgo. “Seu heroísmo tem explicação no que ele vê, não no que vêem os outros. Aos quixotes, a realidade não os mata, os ignora.”

Traduzido em mais de 70 línguas e com mais de 2.500 edições, “Quixote” foi construindo ao longo desses 400 anos uma estrada de pedras fundamentais. Beberam de sua fonte nomes como Stendhal, Flaubert, Melville, Dostoievski, Thomas Mann, Proust, Joyce. Nietzsche o comparou a Cristo em “Aurora”. Segundo o filósofo alemão, na hora da morte, ambos se tornam ápices na lucidez.

Único representante do português num continente castelhano, o Brasil também cede aos encantos do fidalgo espanhol. “A literatura brasileira é de certo modo tributária da obra de Cervantes. A sutileza de Machado (de Assis) não esconde um certo cervantismo, por exemplo, e mesmo Oswald de Andrade, que, aparentemente não teria nada a declarar, tem quanto à criação dos seus personagens muito do estilo cervantino, no que diz respeito ao ridículo”, diz Sonia Fernandez.

Nomes ímpares da literatura, que consolidam o trabalho e dão fluxo às idéias, às inovações do escritor. O crítico espanhol Francisco Ayala contextualiza a importância da obra cervantina ao citar outras obras de referência da humanidade. “Em virtude de suas intenções e realizações, ‘Dom Quixote’ se encontra no patamar da epopéia homérica, do drama shakesperiano, de ‘Fausto’. O personagem assume uma posição poética que ultrapassa a própria poesia.”

Miguel de Cervantes
Miguel de Cervantes

Contemporâneos, William Shakespeare (1564-1616) e Cervantes (1547-1616) são decisivos para o rumo da literatura como arte, por suas tramas narrativas, seus temas e conflitos espalhados nos personagens de suas obras. Em “Gênios”, livro que disseca autores canônicos segundo sua ótica, Bloom assim descreve a dupla: “A influência somada de Cervantes e Shakespeare define todo o percurso da literatura ocidental subseqüente”.

Fato.

Shakespeare foi parar na cabeceira de Freud, Cervantes virou definição de dicionário. Conflitos internos e morais, dramas de vida, fantasias, alucinações, não é somente a ficção que esses parâmetros culturais esboçam em suas obras, mas o retrato do Homem ganha contornos definitivos em nomes como Hamlet, Otelo, Dom Quixote e Sancho Pança. Todos estamos em busca do mesmo tesouro, no combate dos mesmos medos, sejam eles desejos ou repulsa (que nada mais é que desejo). São personagens constatáveis, que carregam nos semblantes heroísmo, loucura, dor, sofrimento.

Como carregam o desejo de liberdade, tema fundamental do livro e da epígrafe que abre este texto. “Dom Quixote” teria sido concebido durante o sequestro pelos turcos do qual foi vítima em 1575. Do cativeiro, Cervantes tirou experiências transformadas em letras. Llosa definiu a obra como um “canto à liberdade”. Para entender por completo o drama cervantino, o cavaleiro da Triste Figura dá a sentença no capítulo 58 da segunda parte: “O cativeiro é o maior mal que pode acudir aos homens”.

Como carregam o desejo pelo amor. E aqui nada mais justo que abrir espaço para o personagem principal de toda essa comemoração, Dom Quixote. Na busca pela sua dama Dulcinéia, o fidalgo exclama, como um Romeu a sua Julieta: “Dia da minha noite, glória do meu sofrimento, norte e bússola do meu caminho, estrela-guia do meu destino”.

No fundo, é sobre isso que todos falamos, é para isso que todos vivemos. Dom Quixote, com suas fantasias e sonhos, traduziu em suas aventuras um desejo universal. No caminho, uns trombam com moinhos de vento, outros transformam um pangaré num poderoso Rocinante. A ficção em pura realidade. Ou vice-versa.

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