Comentário, Estados Unidos, Memórias

“Linha M”: Um mergulho na solidão, na mente e nas coisas que movem Patti Smith

linha-mTerminei de ler “Linha M” (Companhia das Letras) há uma semana, mas, assim como o livro anterior de Patti Smith, “Só Garotos”, as imagens sugeridas pelo texto permanecem marcadas a ferro no cérebro.

Estou tentando lidar com essa memória que insistentemente permanece. A escritora, artista, música, compositora, fotógrafa, figura essencial para o punk rock americano do início dos anos 70, autora de canções marcantes como “Dancing Barefoot” e “People Have the Power”, faz neste “Linha M” uma espécie de inventário das coisas que mais gosta de fazer. E por isso as palavras, as sugestões que saem das páginas colaram de forma poderosa na minha cabeça.

Explico. Melhor, tento.

O livro é uma coleção de crônicas, algo muito próximo a um diário, escrito tendo como base suas lembranças do cotidiano, suas anotações feitas enquanto vive seu dia a dia.

Dia a dia que revela uma mulher cheia de hábitos. Diariamente, ela sai do seu apartamento para passar algumas horas num café, onde senta sempre à mesma mesa e pede a mesma coisa: café, torradas integrais e azeite. Sempre também acompanhada de um livro, algumas vezes escolhido ao acaso, um caderno de anotações e uma máquina fotográfica.

“Naquela noite, Jason levou a mesa e a cadeira de Bedford Street pela Sexta Avenida, a mesma rota que eu fazia havia mais de uma década. Minha mesa e a cadeira do Café ‘Ino. Meu portal para onde.”

E nesse ato contínuo ela mergulha para refletir sobre as coisas que importam a ela. E encontramos uma mulher solitária, aos 69 anos, que olha para trás para perceber como as perdas, os encontros e as contingências moldaram sua vida até aquele momento.

As lembranças do casamento com Fred Sonic Smith, guitarrista do MC5, surgem melancolicamente belas. Diferentemente do que ela relatou sobre Robert Mappelthorpe em “Só Garotos”, aqui a perda se torna mais forte e isso se impõe no texto. A saudade, percebe-se, atua de forma resistente. Como ela deixa escapar neste trecho:

“Enquanto as pesadas cortinas eram abertas e a luz da manhã inundava o pequeno refeitório, me ocorreu que de fato às vezes eclipsamos nossos sonhos com a realidade.”

Patti Smith e Fred Sonic Smith | Foto: Sue Rynski
Patti Smith e Fred Sonic Smith | Foto: Sue Rynski

Esse cotidiano, de andar pela cidade, seja a Nova York onde ela mora, seja Tóquio, para onde ela viaja para rememorar passagens e amigos, é todo contado com apoio das coisas que a motivam hoje: livros e seriados policiais.

Fã de “The Killing”, Patti Smith escreve sobre episódios da série, uma das melhores já produzidas – uma dupla de policiais de Seattle investiga o assassinato de uma garota e descobre ramificações que envolvem políticos, interesses econômicos e o submundo do sexo. Se você não assistiu às quatro temporadas de “The Killing”, corra, é imperdível e está na Netflix – poderá ver ainda uma participação de Patti Smith como uma médica.

Cena de "The Killing"
Cena de “The Killing”

Quando viaja para Londres, estende sua passagem para ficar no hotel e assistir a maratonas de seriados policiais, essa outra mania dela, maratonas, ficar em frente à TV e ver uma dezena de episódios em seguida. A série “Wallander”, inspirada nos romances policiais do sueco Henning Mankell, é uma das favoritas da artista, assim como seus livros – este, também um dos meus autores preferidos.

Declara-se fã da literatura japonesa, especialmente de Osamu Dazai e Akutagawa. Encanta-se ao descobrir por acaso a obra de Haruki Murakami. E assim vai, ao falar de Bolaño e seu “2666”, Sebald, Genet, a quem dedica um par de capítulos, e Mikhail Bulgákov e seu “O Mestre e Margarida”. São tocantes os relatos sobre as visitas a túmulos de alguns desses escritores.

E assim a gente vai se envolvendo com suas andanças pelas cidades, suas tardes em cafés, seus comentários e impressões sobre livros e suas manias. Como se ela nos convidasse a caminhar com ela, a sentar à mesa e conversar, o livro gruda nas mãos e nos faz virar as páginas vorazmente. Estamos diante de uma voz única, que transforma a rotina, seus vícios e prazeres num ponto de encontro.

Fica impossível não se envolver quando ela decide comprar uma casa em Rockaway Beach, ao sul de Nova York, numa localidade que sofreu o impacto do furacão Sandy. Ela revela como conseguiu comprar a casa e o desejo de transformá-la num refúgio. Acompanhamos seus sonhos de reconstrução e como ela pretende deixar o bangalô. É uma conversa numa mesa de café, é um bate-papo com um amigo. É algo simples, mas potente.

Patti Smith no seu bangalô em Rockaway Beach | Foto: Philip Montgomery/The New York Times
Patti Smith no seu bangalô em Rockaway Beach | Foto: Philip Montgomery/The New York Times

Como ela escreve na abertura do livro: “Não é tão fácil  escrever sobre nada”. Não é. E Patti Smith imprime um tom tão pessoal, tão rico de referências, que faz com que o livro seja um exemplar do que melhor se produziu recentemente sobre memórias.

“Linha M” é recheado de fotografias, a maior parte feita pela própria Patti Smith – polaroides e instantâneos sobre suas andanças.

*****

“Fico diante do incomparável café de Zak. Os ventiladores giram no teto, simulando as quatro direções de um cata-vento transversal. Ventos fortes, chuva fria ou a ameaça de chuva; um insinuante continuum de céus calamitosos que permeiam sutilmente todo meu ser. Sem perceber, sou envolta por um mal-estar leve porém prolongado. Não uma depressão, algo mais como um fascínio pela melancolia, que giro na mão como se fosse um pequena planeta, triscado de sombras, de um azul impossível”

“Passei a hora do meu nascimento vendo Elvis Presley em ‘Estrela de Fogo’, refletindo sobre o fim prematuro de alguns homens. Fred. Pollock. Coltrane. Todd. Eu já havia vivido bem mais do que eles. Fiquei pensando se um dia eles pareceriam garotos. Não estava com vontade de dormir, por isso fiz um café, vesti um moletom com capuz e sentei na varanda. Fiquei refletindo sobre o que significava ter 66 anos. O mesmo número da rodovia mais famosa dos Estados Unidos, a celebrada mãe de todas as estradas, que George Maharis – no papel de Buz Murdock – percorria ao atravessar o país em seu Corvette, trabalhando em traineiras e poços de petróleo, partindo corações e libertando viciados. Sessenta e seis, pensei, que se dane. Sentia minha cronologia se acumulando, a neve se aproximando.”

“Terminei muitos livros desse jeito ali; fechando a última página em êxtase, mas enquanto voltava para casa não lembrava mais do seu conteúdo. Isso me perturbava, mas não revelei aquela estranha aflição a ninguém. Olhava para as capas daquelas obras e seus conteúdos permaneciam um mistério que eu não conseguia decifrar. Eu adorava certos livros, vivia com eles, mas não conseguia rememorá-los.”

*****

Sinapses: Mais livros sobre memórias

E uma entrevista.

Anúncios

1 thought on ““Linha M”: Um mergulho na solidão, na mente e nas coisas que movem Patti Smith”

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s