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Notas de Leitura – duas obras raras, duas decepções

entre-os-fieis“Entre os Fiéis” (Companhia das Letras), de V.S. Naipaul
O subtítulo indica o caminho do livro: Irã, Paquistão, Malásia e Indonésia – 1981. É a primeira viagem ao Islã relatada em livro pelo autor trinitário, Nobel em 2001, que voltaria aos mesmos países em 1998, em “Além da Fé”. Misto de relato de viagem com observação sociológica, o livro é de uma riqueza poucas vezes alcançadas em narrativas sobre o Islã. Ainda distante do conflito que tomaria o mundo depois de 2001, “Entre os Fiéis” oferece ao leitor uma visão quase descompromissada com preconceitos entre Ocidente e Oriente. Naipaul está em viagem para conhecer não os grandes personagens, mas o anônimo, aquele que se submete a políticas e regras, que vive o cotidiano e tem que enfrentar as dificuldades inerentes a países divididos, constantemente em disputa e pobres. O melhor relato é o do Irã, enquanto o do Paquistão envereda por uma narrativa histórica que busca a origem do país e o conflito com a Índia. É na mistura entre o anônimo e a pesquisa histórica, em que Naipaul tenta entender como os países se inserem no mundo muçulmano e como suas realidades impõem outras realidades aos fiéis, que o livro se apoia e se torna peça essencial para entender onde chegamos.

rostos-na-multidao“Rostos na Multidão” (Alfaguara), de Valeria Luiselli
Só li coisas boas a respeito da autora e de seu romance. Recomendações do “The Guardian”, de Enrique Vila-Matas, críticas positivas de gente séria no Brasil. Aliás, o livro deve muito a Vila-Matas, na sua experiência de criar um diálogo com o poeta mexicano Gilberto Owen, como o escritor espanho fez em “Dublinesca”, quando evocou James Joyce. A protagonista trabalha para uma editora norte-americana e procura autores hispânicos para publicar em inglês quando topa com Owen. Dessa obsessão pelo poeta, rejeitado pela editora, a jovem mergulha mais e mais na obra do mexicano e começa a escrever um texto com se fosse um manuscrito do velho poeta já morto. Isso tudo em meio à tentativa de escrever um romance baseado em sua vida passada em Nova York, ela que é mãe de duas crianças pequenas. A realidade de jovem, encardida pelo cotidiano e pela autobiografia romanceada, acaba se misturando de tal forma com o texto de Owen que o livro alcança outro patamar, o da discussão da identidade, mediante tantas variáveis que tomam a vida. Um romance que começa difícil, mas que avança com potência à medida que a jovem ultrapassa as fronteiras.

galveias“Galveias” (Companhia das Letras), de José Luís Peixoto
Quando li a sinopse, pensei imediatamente em comprá-lo. O livro se forma por meio das memórias de infância e de conversas com conterrâneos do autor que moram em Galveias, cidade natal de Peixoto, um povoado do Alentejo. Ele reúne em torno da narrativa personagens e histórias que remontam ao início dos anos 80, quando a tradição do interior europeu se vê diante do avanço da modernidade. Do autor português já li “Morreste-me”, estupenda despedida ao pai,  e “Dentro do Segredo”, relato de viagem à Coreia do Norte, e esperava este com grande entusiasmo. Mas não consegui enxergar a mágica da sinopse no texto. Este veio cheio de enfado, uma tentativa forçada de ser poético, que compromete o texto com esse lirismo a qualquer custo. Não cheguei ao final após percorrer mais da metade. A Galveias de Peixoto não me conquistou, nem seus personagens.

fera_dalma“Fera d’Alma” (Biblioteca Azul), de Herta Müller
Assim como também não me conquistou este livro da Nobel de 2009. Foram duas tentativas de leitura. Uma, logo que comprei o livro, há uns dois anos. E uma segunda agora, uma tentativa com mais resistência, mas que se mostrou infrutífera como a anterior. Espécie de romance de múltiplas vozes, todas em curtos relatos que carregam histórias de repressão, medo e, por que não, esperança. Estamos na Romênia de Ceaucescu, onde jovens buscam se manter sãos diante da paranoia da perseguição e da vigilância extrema lendo livros proibidos e preparando planos de fuga. Mas a prosa da alemã nascida romena não me conquistou, pelo contrário. Não é um romance intransponível, mas ele se mostrou distante e impermeável para este leitor.

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