Brasil, Entrevista, Não ficção

“O Nascimento de Joicy”: mais do que a história de uma nova mulher, uma discussão madura sobre o jornalismo

Joicy mora no interior de Pernambuco, é cabelereira, filha de gente da roça. Fabiana é jornalista, mora no Recife e trabalha no principal jornal da capital, o “Jornal do Commercio”.

As duas se encontraram por acaso, num hospital, em 2010. Joicy não estava doente quando a jornalista teve seu primeiro contato com ela. Pelo contrário, Joicy estava com plena saúde. Seu problema era um só: seu corpo.

Joicy nasceu homem e procurava no Hospital das Clínicas uma oportunidade para fazer a cirurgia de mudança de sexo. Fabiana Moraes, a repórter, interessou-se pela história da personagem e resolveu investigar. Fui a fundo na vida de Joicy, da sua origem àquele momento redefinidor.

A reportagem virou uma série premiada (aqui, a íntegra num site especial do JC). Depois, virou livro, lançado pela Arquipélago. A história também ganhou um curta-metragem, filmado no final do ano passado.

nascimento-de-joicyO livro, intitulado “O Nascimento de Joicy”, traz a reportagem completa e um recorte da galeria de fotos publicada no site – no espaço virtual, há também uma galeria de vídeos.

A reportagem é a primeira das três partes que compõem o livro. Fabiana avançou sobre um dilema que a acompanhou durante o período de apuração: como separar a jornalista da pessoa, como conseguir isenção e distanciamento, como não se envolver com a vida da sua personagem.

Na segunda parte, então, Fabiana conta os bastidores da produção da série. E a terceira introduz uma discussão pertinente neste momento em que o jornalismo também se redefine: é possível separar as emoções do tradicional manual jornalístico, que prega um trabalho frio e que não se envolva com a notícia?

Ela sugere o jornalismo subjetivo, em que as fronteiras se rompem. É um pouco o que Truman Capote fez em “A Sangue Frio” ou Joseph Mitchell contou em “O Segredo de Joe Gould”. Fabiana avança na questão, ao sugerir também incorporar outras disciplinas ao jornalismo, como sociologia, filosofia e antropologia.

O livro ultrapassa também a fronteira da reportagem para se tornar uma peça essencial na discussão do jornalismo atual. Lemos não somente como foi trabalhar numa distância não usual para jornalistas, mas também como foram as reações ao trabalho de Fabiana antes e depois de publicado – por exemplo, como os leitores reagiram ao ver, num domingo, uma foto tomando a capa de um caderno de jornal com a figura de Joicy, nua, com um dos seios à mostra – reproduzida abaixo.

Fabiana conversou com o blog. Na entrevista, ela fala dos desafios do jornalismo atual e da história da sua personagem – as duas viveram conflitos após a cirurgia, quando Joicy se viu “abandonada” pela repórter. Sem contar o problema pós-operatório que impedia a total transformação – o canal vaginal insistia, por uma série de motivos, todos relatados no livro, em se fechar, o que a impedia de se tornar mulher em sua completude.

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A jornalista Fabiana Moraes
A jornalista Fabiana Moraes
Sobre a reportagem com Joicy, você queria tratar desse tema (identidade sexual) ou o tema se impôs a você?
O tema se impôs no sentido de guardar há tempos uma inquietação sobre o cotidiano das pessoas trans, o mundo limitado que as recebe, as formas de estar nesse mundo.

Você mantém contato com a Joicy? Como está a relação de vocês duas?
Sim, mantemos contato. Ano passado, em dezembro, filmei um curta com ela, que está em fase de montagem. Atualmente, a acompanho em um tratamento de saúde.

Como foi a recuperação dela depois dos problemas com o canal vaginal fechado? Ela já está plenamente recuperada?
Está saudável, mas com o canal vaginal ainda fechado. Ela tem ido ao HC, há chances de a reabertura acontecer neste semestre. A questão é o depois. Aí mora o problema.

Para quem mora em cidade grande, já é difícil enfrentar o preconceito, principalmente nos casos de mudança de sexo. Joicy, vindo de uma cidade pequena do Nordeste, os problemas se multiplicam? Quando você fez a escolha por ela, levou em conta essa particularidade, de investigar uma personagem cujos problemas poderiam se desdobrar? Como você avalia sua escolha seis anos depois?
Então, essa ideia da cidade pequena, logo mais preconceito, não é exatamente a realidade que encontrei. Joicy nunca sofreu violência física aqui na capital, tampouco na cidade na qual vive. Ao contrário, já vimos casos bárbaros de homofobia na avenida Paulista, em São Paulo. Depois, casos pavorosos de agressões a mulheres trans ali na rua Augusta, também em São Paulo. Ou seja, é preciso pensar fora desse esquema mais fechado da “cidade pequena, logo problemas maiores”.

Como foi enfrentar o preconceito que ela sofria? E você sofreu preconceito, além das críticas? Com foi lidar com essa situação de intolerância?
Eu sofria o preconceito de maneira transversal, bem mais atenuado. Eu estava na minha condição de repórter, de maior poder, era difícil encontrar um ponto de equilíbrio quando principalmente algumas pessoas do corpo médico eram descuidadas com Joicy. Minha maneira de tentar ajudá-la, assim como as futuras mulheres trans, foi contar tudo no livro.

Hoje, como você avalia seu envolvimento com ela, depois desse tempo todo?
É um work in progress. Ainda nos gostamos, ainda nos estranhamos.

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A imagem que abre a reportagem de Fabiana Moraes
O livro fala sobre jornalismo subjetivo. Queria que você comentasse mais sobre esse subgênero. Por que você achou necessário abrir esse leque?
Porque não acredito que uma reportagem com aproximação grande de personagens e escritor/escritora vai chegar ao lugar do subjetivo muitas e muitas vezes. Em vez de evitá-lo, melhor abraçá-lo, assumi-lo e fazê-lo ser adubo do texto, tomando cuidado para não resvalar em pieguismo, falta de foco, penduricalhos irritantes.

Hoje, o jornalismo enfrenta uma crise ao mesmo tempo que busca soluções, principalmente com coletivos e mídia independente – casos do Mídia Ninja, Jornalistas Livres, Nexo, Agência Pública. Como você avalia que o jornalismo vem se comportando com esses modelos convivendo simultaneamente – o novo e a velha imprensa?
Olha, estamos em um momento bem específico, histórico, no qual a grande imprensa de maneira quase total está prestando um enorme desserviço para a população, sendo parcial, jogando lenha na fogueira das animosidades nas ruas. É horrível, é um retrocesso. Ou não: na verdade, caiu o pano e podemos enxergar novamente que essa esfera continua quase como nos anos 80 e 90, tratando leitores e espectadores e ouvintes com desrespeito. Digo desrespeito porque nao há um contrato sincero com a ideia de interesse público. Eu tenho direito de ser bem informada. Ao mesmo tempo, estão mostrando que, sim, ainda detêm um poder grande [a grande mídia]. Os coletivos independentes estão duramente fazendo seu papel, mas percebo que muita gente ainda trabalha de graça. É complicado, não? Torço para o sucesso de todos, quero contribuir também. Aqui na cidade existe um coletivo de ótimo conteúdo, o Marco Zero.

Você ganhou prêmios com reportagens especiais. Elas abusaram dos recursos multimídias, com vídeos, fotos e hotsites. Além disso, foram para os livros. Essa é uma saída para o jornalismo?
As reportagens foram para o lugar da “novidade” (internet) e o lugar da tradição (livros). Gosto dos dois, não os vejo como concorrentes. E acho que ambos são saídas, mas nenhuma é fácil. Tudo é aposta, agora.

Você defende esse jornalismo em que as emoções se misturam às informações. Quais os riscos dessa integração?
Um pouco do que disse mais lá atrás: o perigo do vale tudo, de a subjetividade na verdade guardar uma apuração ruim, por exemplo. Outra coisa: para incorporá-la, é preciso de uma escrita mais madura, menos contaminada pelo lugar comum, mais cuidado, mais atenção, mais rigor.

No livro, você discute a importância de incorporar outras disciplinas no exercício do jornalismo, como antropologia e sociologia. Queria discutir esse ponto com você. Num momento em que o jornalista não é mais a figura formada em quatro anos, em que o diploma já não é mais determinante para exercer a profissão, em que a internet abarca profissionais de várias áreas e interesses, essa integração ficou facilitada? No livro você cita um exemplo de Foucault. Hoje seria mais fácil encontrar e publicar esse jornalismo?
Acho que sim. Temos agora o crescimento de várias vertentes dentro do próprio jornalismo, como o de dados, o geojornalismo, o ativista (sites especializados em coberturas específicas, como a segurança pública). A integração já podia ser uma realidade sem um novo aparato, fique claro. Não são os aparatos que fazem essa integração, é a vontade do repórter e dos veículos. Mas, é claro, é mais fácil  compartilhar os conteúdos. A questão é: quem os lê? Às vezes tenho a impressão de que falamos para os mesmos iniciados. É preciso alcançar novos públicos.

*****

“O grande descuido de Joicy, no entanto, não esconde outro fator que a fez voltar para o hospital. A pobreza financeira – e afetiva – que a cerca não é compatível com a delicadeza da cirurgia. Esse aspecto, infelizmente, deixou de ser observado no hospital. O banheiro de sua casa, dentro da cozinha, resume-se a um vaso sanitário colocado sobre uma estrutura de cimento, alta demais para ela. Assim, sempre que Joicy ia urinar, a força para subir no vaso terminava provocando a expulsão do molde. É preciso lembrar que, em Perpétuo Socorro, não há água encanda e ter sistema de esgoto em casa é luxo. Também veio a dor: não se sabe se por uma reação do corpo ou por falta de higienização adequada, a cirurgia terminou inflamando, o que transformou a colocação do molde em uma pequena sessão de tortura. Quando recebeu alta e voltou para casa, Joicy não trouxe nenhum medicamento para combater dores ou possíveis inflamações. Também não tinha recomendação para adquirir algum mais indicado. Não tinha o telefone de nenhum dos médicos presentes na operação para o caso de uma emergência. O desemparo foi complementado pela solidão: a família de Joicy não apareceu em sua casa para ajudá-la nas tarefas cotidianas.”

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