Comentário, Ensaio, Estados Unidos

Quando publicar jornalismo literário se tornou um ato de preguiça editorial

41 INÍCIOS FALSOSVez ou outra, minhas leituras são interrompidas por livros que pedem para ultrapassar a fila imediatamente. Por melhor que seja o título da cabeceira, outros se impõem e me forçam a deixá-lo de lado.

“Entre Fiéis”, do Naipaul, e “Rostos na Multidão”, de Valeria Luiselli, dois livraços, tiveram que ser abandonados temporariamente. O motivo: “41 Inícios Falsos”, de Janet Malcolm.

Esse livro quebra o jejum de quase quatro anos da coleção Jornalismo Literário, da Companhia das Letras – o último fora outro livro de Malcolm, “A Mulher Calada” em versão de bolso. A série, que parecia abandonada depois que a editora resolveu comprar outras editoras e se tornar “mais do mesmo”, ganhou mais um livro da jornalista americana, autora de mais dois títulos publicados pela mesma coleção, um deles fundamental: “O Jornalista e o Assassino” (2011) – o outro é “Anatomia de um Julgamento”, este também de 2012.

A série trouxe para o leitor textos clássicos do jornalismo, aqueles que ultrapassam a fronteira de gênero e se inserem na categoria literatura. Em novas traduções ou lançamentos inéditos, a coleção pôs à disposição autores como Gay Talese, Tom Wolfe, Joel Silveira, Truman Capote, David Remnick, Lilian Ross, John Hersey e Ryszard Kapuscinski.

A lista é rica, interessante e bem diversificada. Mas ficou preguiçosa. Não só o ritmo de lançamentos diminuiu, mas a curadoria apostou na inércia. A escolha da coletânea de ensaios de Malcolm mostra que a coleção está longe de ganhar atenção na editora, talvez mais preocupada com Gregórios e listas do Buzzfeed.

Pode ser rabugice de leitor fiel da série, pois após quatro anos fica difícil acreditar que o melhor que conseguiram escolher para a retomada da coleção seja este. Veja, no mesmo 2012, saíram, além dos livros de Malcolm, “O Xá dos Xás”, de Kapuscinski, e “Paralelo 10”, de Eliza Griswold. Fica difícil se contentar com pouco.

Não que o livro seja ruim. Não é, pelo contrário. O ensaio que dá nome ao livro, sobre David Salle, é uma obra-prima. Há textos que tomaram dois anos de trabalho da escritora. Um vai-e-vem de viagens e entrevistas que transformaram seu material em uma investigação profunda sobre artistas e escritores.

Os textos foram selecionados das revistas “The New Yorker”, “The New York Review of Books” e “The New York Tomes Book Review”. Salinger, Joseph Mitchell, entre outros, estão perfilados pela jornalista – este último num curto obituário. Fica fácil escolher um livro para publicar dessa forma.

Toma-se como base as publicações de onde foram selecionados os textos. Como dizer que o que sai lá não é coisa fina? Qual a margem de erro? Pequena. Para uma coleção que recuperou para gerações textos clássicos como “Hiroshima”, fica difícil encarar este “41 Inícios Falsos”.

elogiemos-os-homens-ilustresSim, quero ler mais Janet Malcolm, mas cadê a surpresa, a curadoria bem feito de títulos como “Stasilândia”, “Elogiemos os Homens Ilustres”, “A Vida Secreta da Guerra”?

Ou seja, a coleção está preguiçosamente sendo deixada de lado. É uma pena, pois há tanta coisa boa sendo produzida, tanta lacuna aberta na bibliografia em português do texto jornalístico, que é quase uma heresia dizer que Janet Malcolm não vale ser publicada – o que eu não estou dizendo.

Outras editoras parecem ter percebido o abandono do gênero e começaram a publicar textos jornalísticos de qualidade, caso da Três Estrelas (“Devoradores de Sombras” é um exemplo).

O livro de Janet Malcolm deve ser saudado, com ressalvas, não pelo conteúdo, mas pela opção editorial. Mas quer saber? Compre o livro, leia “41 Inícios Falsos”. Muito melhor do que ler listas do Buzzfeed em livro ou mais poesia chata do Gregório.

Quem sabe a editora não pensa com mais carinho no próximo título da coleção?

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