Entrevista, Ficção, México

Jennifer Clement: “A violência contra a mulher é epidêmica”

Jennifer Clement já investigou crimes contra jornalistas e escreveu um livro em que ficciona uma história bem real no México: num vilarejo, meninas são raptadas pelos cartéis; mães, para evitar o sequestro, vestem suas filhas como garotos.

A história está em “Reze pelas Mulheres Roubadas”, já comentado no blog. Presidente da PEN International, Clement nasceu nos Estados Unidos e cresceu no México. Escreveu memórias sobre Basquiat e livros de poesia. Seu romance publicado no Brasil ganhou vários prêmios pelo mundo e dezenas de críticas positivas na imprensa.

Enquanto busca unir poesia aos dramas humanos, ela permanece na investigação conta os jornalistas no México – “A situação é grave, nós já temos 4 jornalistas mortos este ano”, diz Clement em rápida entrevista ao blog.

Ela falou sobre a criação do romance e da formação da trama e violência contra mulheres. Adiantou que está escrevendo um livro sobre a violência com armas: “É um desafio escrever sobre armas com poesia”.

A conversa está a seguir.

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A escritora Jennifer Clement | Foto: Cata Portin
A escritora Jennifer Clement | Foto: Cata Portin

Seu livro tem um tom muito realista, muito próximo de uma reportagem. Era seu objetivo ou a linguagem se impõs enquanto você escrevia?
A maior parte é inventada. Embora o assunto seja importante para mim, eu estava mais interessada na carpintaria do texto. Nunca deixo de pensar na língua que eu estou usando, na forma, na estrutura da trama, no desenvolvimento do caráter e na voz. Enquanto pesquisava para “Reze para as Mulheres Roubadas”, eu também estava sempre procurando a experiência poética. Eu também queria que o romance tivesse esse encantamento.

Você evita descrever o que acontece com as meninas quando estão capturadas pelos traficantes. A sugestão lhe pareceu mais forte do que a descrição dos fatos?
Sempre trato meus personagens com dignidade e eu acredito que as coisas descritas através da poesia, em oposição ao detalhismo gráfico, são mais fortes ou, pelo menos, mais comoventes.

Enquanto vivem com medo, as meninas tentam levar a vida com leveza e certa alegria própria da idade. O mesmo acontece com as mães. Essa ilusão que comanda a vida dessas famílias se torna a única forma de sustentar a sanidade?
Eu não tenho uma resposta para isso. Eu estou olhando para a forma como o divino coexiste com o profano ou a beleza com a feiúra ou a alegria com desespero.

A ausência da figura masculina na trama, presente somente no papel dos traficantes, também é comum na vida real? E como isso afeta a formação de uma geração?
Eu não me faço essas perguntas. Em “Reze pelas Mulheres Roubadas”, quis descrever a dor que as mulheres sentem com a falta de proteção masculina.

A violência contra a mulher é epidêmica? Essa forma de crime (o rapto de meninas) acontece de forma sistemática no México? O que mais assusta o país hoje?
Sim, é epidêmica em todo o mundo. E no México, as meninas são raptadas o tempo todo. Eu acho que o México está com medo porque ele não consegue encontrar o caminho para sair dos problemas. A violência aqui tem a ver com as armas que chegam dos Estados Unidos e com a heroína e outras drogas que vão ao norte da fronteira. O México não pode resolver os seus problemas sem os Estados Unidos.

Seu livro trata das crianças e como elas são vitimizadas pelo tráfico. Elas são as maiores vítimas dos carteis e da guerra às drogas?
As mais vulneráveis e desprotegidas em tudo lugar violento são crianças.

 

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