Colômbia, Comentário, Não ficção

“A Ausência que Seremos”: A história recente da Colômbia revista pelas memórias do pai assassinado

ausencia-que-seremosÉ preciso uma dose de coragem para cutucar algumas histórias. O colombiano Héctor Abad teve mais do que isso, teve pulso para escrever um livro em que reconta a vida de seu pai, assassinado em praça pública por grupos de extrema.

“A Ausência que Seremos” (Companhia das Letras) rouba um verso de poema atribuído a Jorge Luís Borges, encontrado no bolso do pai no dia em que ele morreu: “Ya somos el olvido que seremos / El polvo elemental que nos ignora / Y que fue el rojo Adán, y que es ahora, / Todos los hombres, y que no veremos”. Abad avisa que poderia ter escrito uma “Carta ao Pai”, o livro em Kafka expões os demônios enfrentados com o pai. Mas não, opta por traçar um retrato emocional, não tão distante, sem, entretanto, cair na tentação de mistificar o objeto.

Ele envereda por um caminho algo memorialístico, com técnicas de ficção. Sim, é emotivo ao contar sua relação com o pai, os únicos homens numa família dominada pela presença feminina. Os dois criam então um mundo à parte, em que ditam seus códigos e caminhos.

O engajamento do pai por uma Colômbia mais justa, no texto de Abad, acaba por ser um desdobramento do que existia em casa. Médico, o pai cria sistemas para atender aos necessitados, o que o levou a ser acusado de comunista – algo que não era.

O momento da morte é narrado como um thriller. Dias antes, o pai recebeu uma carta com ameaça, e toda a família vivia sob tensão – menos o pai, pelo menos aparentemente. Os últimos dias emergem do livro como uma despedida que o autor nunca teve, até o ato final, o covarde assassinato num parque.

Aqui e ali, Abad monta sua história familiar, em que o pai surge como um herói que todo garoto quer ter e idealiza. Quando ultrapassa a adolescência e reconhece manias e defeitos do pai, o texto se torna mais maduro, mais consciente. E a história recente da Colômbia surge bruta, a mostrar como o continente é refém de extremos e como desperdiça vidas.

Impossível não reviver, o leitor, o próprio passado. A busca por reminiscências é inerente, conduzida pela inércia que a leitura do livro provoca. Sem ingenuidade, sem parcimônia, muitas vezes apenas uma memória que permanece viva. Como a que Abad possui.

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“A cronologia da infância não segue uma linha reta, mas é feita de sobressaltos. A memória é um espelho opaco e estilhaçado, ou melhor, é feita de conchas intemporais de lembranças espalhadas numa praia de esquecimento. Sei que aconteceram muitas coisas naqueles anos, mas tentar recordá-las é tão desesperador como tentar lembrar um sonho, um sonho que deixou em nós uma sensação, mas nenhuma imagem, uma história sem história, vazia, da qual resta apenas um vago estado de espírito. As imagens se perderam. Os anos, as palavras, as brincadeiras, as carícias se apagaram, e no entanto, de repente, rememorando o passado, alguma coisa volta a se iluminar na sombria região do esquecimento. Quase sempre é um misto de vergonha e alegria, e quase sempre aparece o rosto do meu pai, colado ao meu como a sombra que arrastamos ou que nos arrasta.”

“Este livro é a tentativa de deixar um testemunho dessa dor, um testemunho ao mesmo tempo inútil e necessário. Inútil, porque o tempo não volta atrás, nem os fatos se modificam; mas necessário, pelo menos para mim, porque minha vida e meu ofício perderiam o sentido se eu não escrevesse o que sinto que devo escrever, e que, em quase vinte anos de tentativas, não fui capaz de escrever até agora.”

“Depois de um segundo em que seu rosto se escureceu, com um misto de tristeza e assombro pelo fracasso, de repente, como se um pensamento bom lhe tivesse passado pela cabeça, sua expressão voltou a se iluminar e, com um sorriso feliz, disse a última frase que me diria na vida (faltavam dez minutos para o seu assassinato), no meio do infalível beijo das despedidas: ‘Calma, meu amor, você vai ver como, um dia, eles é que vão te procurar’.”

“Depois de mortos, ainda sobrevivemos por alguns frágeis anos na memória de outros, mas também essa memória pessoal, a cada instante que passa, está sempre mais perto de desaparecer. Os livros são um simulacro de lembrança, uma prótese para recordar, uma desesperada tentativa de tornar um pouco mais perdurável o que é irremediavelmente finito.”

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Este texto foi escrito para o blog anterior, já desativado, e reeditado para esta publicação

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