Comentário, Ficção, México

“Reze pelas Meninas Roubadas”: O brutal retrato do México no texto de Jennifer Clement

Quando entrevistei Juan Pablo Villalobos, autor de “Festa no Covil”, ele respondeu assim ao ser questionado sobre sua visão do México: “Eu vejo a situação do México hoje sem esperança no curto prazo”.

O país vive numa espécie de guerra não declarada com os cartéis de droga, que produzem uma violência dominante em regiões já abandonadas pelo Estado.

Já Julián Herbert, autor do forte “Cantiga de Findar” (Rocco), também declarou uma visão crítica sobre o México em entrevista ao blog – recomendo a conversa. Para ele, o “México é um desastre monumental de multidões”. Eis sua visão: “Continuamos a cometer erros, destruindo nossa vida adulta na juventude, continuamos a ser felizes e alegres, ainda dançando, ainda matando uns aos outros, continuamos a tolerar esta merda de governo, seguimos sendo pobres, ainda amamos a beleza que não entendemos, somos putos e putas, seguimos sendo filhos da puta. Quando foi diferente na América mestiça?”.

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Portanto, quando você se depara com “Reze pelas Mulheres Roubadas” (Rocco), a sensação ao final pouco se difere do que esses escritores afirmaram, sobre suas visões do México.

A trama: nos confins do México, num vilarejo, as mães têm que transformar suas filhas em meninos, para que elas não sejam sequestradas pelos cartéis. É um lugar em que a presença masculina só surge por meio da violência, pois os pais foram aos Estados Unidos tentar ganhar a vida.

Esse é o cenário do romance de Clement, autora mexicana que trabalhou na investigação do sumiço e assassinato de jornalistas. O romance é brutal.

Acompanhamos a história de quatro amigas com seus 12 anos, que vivem sob ameaça constante, prontas para entrar em esconderijos debaixo da terra. A ameaça surge por meio dos SUVs marrons, que fazem investidas no vilarejo de tempos em tempos para capturar essas meninas. Algumas delas sobrevivem e voltam, mas suas vidas ficam marcadas definitivamente.

O leitor lê com certo nó na gargante, pois a ficção é baseada em fatos reais. Clement não descreve o que acontece quando as meninas estão sob jugo dos traficantes. Para a autora, a relação entre as famílias, de certa forma abandonadas em sua solidão, que tentam criar uma rede de solidariedade, ainda que fracassada, é o mais importante como recorte dramático.

As meninas sabem o que significa ser raptada, mas tentam levar a vida como qualquer outra garota. Traumas, violência física e psicológica, a vida no vilarejo é tensa e sem saída, a não ser quando surge a oportunidade de fuga.

O que Clement impõe no livro é um retrato brutal do México, refém dos cartéis e da violência que o Estado não consegue eliminar. As meninas roubadas refletem o quanto uma geração está sendo dizimada sem que nada seja feito.

Este é um livro essencial para estes tempos.

*****

“Se você não falasse sobre uma coisa, então ela nunca tinha acontecido. Alguém com certeza iria escrever uma canção a respeito. Tudo o que você não pode saber, nem falar a respeito, acaba virando uma canção. Algum idiota vai escrever uma canção sobre aqueles fazendeiros sequestrados e acabará sendo morto, minha mãe disse.”

“Paula não conseguiu ir para o buraco. Os cachorros não latiram. Nós não os ouvimos chegar. Os cachorros não latiram. Concha tinha os cachorros mais ferozes e assustadores do mundo. Eram animais atropelados por automóveis que ela havia recolhido na estrada. Ela mantinha pelo menos dez cachorros espalhados pelas sombras das árvores em volta da casa. Quase todos eram vira-latas muito feios. Minha mãe costumava dizer que aqueles cachorros mereciam veneno. Concha segurava o celular acima da cabeça. Eu não ouvi quando eles mataram os cachorros, Concha disse. Eles mataram os cachorros?”

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