Comentário, Ensaio, Itália

Ainda sobre Umberto Eco

diario-minimoFui à estante olhar os livros de Umberto Eco e peguei “Diário Mínimo” (Record), uma coletânea de textos que ele escreveu para jornais e revistas em que o humor e a paródia dominam.

Se Eco escrevesse esses textos hoje, seria taxado de fascista, comunista, reacionário, ignorante, entre outros adjetivos nada lisonjeiros. Pois como resistir ao compartilhamento infreável nas redes sociais de textos dos quais pouco ou nada se lê? A rede imbecilizante, tema caro ao Eco dos últimos anos, iria urrar de ódio para parte dos textos deste volume brilhante.

Os textos presentes nessa coletânea trazem um Eco que ri da crítica, dos comportamentos sociais, de teorias literárias, do enfado, do esnobismo e do óbvio.

Dentro deste “Diário Mínimo”, o capítulo dedicado às Instruções de Uso apresenta textos que se aproximam da crônica, mas com um olhar um tanto sarcástico, quase sempre levado ao exagero para tratar de um assunto. Como nestes dois recortes:

“No momento em que se entra num táxi, surge o problema da interação correta com o motorista. O motorista de táxi é um indivíduo que passa o dia inteiro dirigindo no tráfego das cidades – atividade que pode conduzir ao infarto ou aos delírios psíquicos – em conflito direto com outros motoristas humanos. Por consequência, é nervoso e odeia as criaturas antropomorfas. Isto pode induzir o radical chic a dizer que todos os motoristas de táxi são fascistas. Não é verdade, o motorista de táxi não se interessa por problemas ideológicos: odeias as manifestações sindicais não por sua coloração política, mar porque engarrafam o trânsito. Odiaria da mesma maneira um desfile da juventude fascista de Mussolini. O motorista de táxi só deseja um governo forte que leve ao paredão todos os motoristas particulares e estabeleça um toque de recolher razoável entre as seis da manhã e a meia-noite. É misógino, mas só com mulheres que saem na rua. Se elas ficam em casa preparando a macarronada, é capaz de até tolerá-las.”

(Em “Como usar o motorista de táxi”)

“Quando telefono ao dentista para marcar uma consulta e ele me diz que não tem mais nenhuma hora livre na semana seguinte, eu acredito. Afinal, é um profissional sério. Mas quando alguém me convida para um congresso, uma mesa-redonda, para dirigir uma criação coletiva, para escrever um ensaio ou para participar de um júri e respondo que não tenho tempo, ninguém acredita. “Ora, professor”, costumam responder, “uma pessoa como o senhor sempre arranja tempo.” É evidente que nós, os humanistas, não somos considerados profissionais sérios: vivemos na vadiagem.

(Em “Como empregar o tempo”)

Assim, ele trata das perguntas a respeito da sua biblioteca, dos tipos que carregam celulares, da correspondência que recebe diariamente, dos torcedores fanáticos, dos novos ricos. São textos que primam pela acidez em meio a uma prosa elegante, recheada de bom humor.

Há jogos, como descrever autores e personagens somente com palavras que começam com a letra inicial de seus nomes:

Kant. Kem koncordaria ke kategorias krescessem kvantitativamente?

Ou aquele em que imagina resposta para a pergunta “Como vai?”:

Ícaro: “Caí das alturas.”; Sócrates: “Não sei.”; Lúcifer: “Como Deus manda.”; Marx: “Vai melhorar.”

Agora, imagine recriar a trama de uma obra em poucas linhas, com elementos de outras histórias, para dificultar a identificação da história. Eco faz com soberba, como num Coquetel, em que a resposta aparece ao final, de ponta-cabeça:

Pode me chamar de Ishmael

“Nascido numa aldeia de carpinteiros, mestres na construção de lenhos velozes, brandindo uma vara aguçada segue pelos mares, entre monstros e portentos, seguindo o Leviatã. Sob o véu de muitas aventuras, a ideia é a de um rito de passagem à idade adulta, a conquista da plena condição humana. Post fata resurgo.”

Ficamos sabendo então que a referência a “Moby Dick” foi o caminho para tratar de “Pinóquio”

O livro todo é composto desse exercício literário, em que Eco utiliza as palavras para criar um jogo de ilusões. É delicioso ver paradigmas e preconceitos sendo ironizados com contundência. É um ataque frontal à mediocridade.

*****

No post anterior, escrevi sobre a morte Umberto Eco e a passagem do tempo para a formação deste leitor.

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