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Sobre Lee e Eco

A "Persistência da Memória", de Dali
A “Persistência da Memória”, de Dalí
Aqueles que me acompanharam estão indo embora. Nomes tão existentes, em maior ou menor grau, partem, uma insistência da vida em reafirmar seu fim. Nomes que talvez pensássemos eternos encaram os limites impostos pelo tempo.

Quando olhamos as idades das pessoas que morreram, é possível enxergar certa coerência. Mas, mais do que concordar que os 80 anos acabem por cobrar seu preço de forma cruel, é se conformar que parte da nossa vida se vai.

Assim foi neste já curto e triste 2016 com David Bowie. E Ettore Scola. Na penúltima sexta-feira de fevereiro, o ataque veio de forma dupla. Umberto Eco e Harper Lee.

Ah, sim, poderia dizer que o século 20 vai cada vez mais se esvaindo. Sem contar tragédias, que cobram a vida de forma inesperada, o adeus desses nomes é nada mais do que a vida impondo seus limites, neste milênio que mal começou.

A maior parte da minha vida ainda pertence ao século 20, e quanto mais o tempo pertencente ao 21 aumenta, mais gente dá adeus para mim.

Não conhecia Umberto Eco até assistir a “O Nome da Rosa” numa tarde qualquer de 1986 – ou 1985 – no aparelho Panasonic que reproduzia as fitas VHS, então começando a se popularizar no Brasil. Naquela época, 2016 era um futuro tão longíquo quanto improvável.

Foi a porta que me levou a ler o livro que deu origem ao filme. O choque foi terrível, pois aos 15, se deparar com digressões filosóficas, linguísticas e descrições longuíssimas e detalhadas que pouco avançavam na trama foi o suficiente para perceber que as transposições muitas vezes são cruéis.

O escritor Umberto Eco (1932-2016)
O escritor Umberto Eco (1932-2016)
Eco ficou adormecido. Ao longo dos anos, li artigos e entrevistas espalhados por jornais e revistas. Voltei ao romancista em 2004, com o delicioso “A Misteriosa Chama da Rainha Loana” (Record, como todos os livros citados do autor), uma história que trata das memórias afetivas e das coisas que deixamos para trás sem saber o porquê.

Não li “Baudolino” e “O Pêndulo de Foucault”, mas me encantei com o “O Cemitério de Praga”. E li, assustado, o seu último romance, “Número Zero”. Era o Eco inconformado com a imbecilidade gerada pela internet e redes sociais, ao tratar de um jornal que não se preocupava com regras e ética.

Suas entrevistas, na época do lançamento desse último romance, revelevam um pensador incomodado, triste, quase uma voz solitária diante de tanta vulgaridade e pressa. Sua morte encerra um homem crítico dos mais necessários.

Se Eco era um homem produtivo, crítico e lúcido diante do que a modernidade oferece, Harper Lee era seu oposto.

o-sol-e-para-todosAutora de uma obra só até o ano passado, Lee se encaixou na linhagem de Salinger, por sua reclusão e pelo fato de ter escrito pouco. “O Sol É Para Todos” (José Olympio) acabou sendo seu legado, sua força que a carregou por todos esses anos, muitas vezes empurrado para o lado por conta de seu trabalho com Truman Capote.

O livro de Lee venceu o Pulitzer, é um dos mais vendidos da história, tornou-se filme, mas muitas vezes seu nome aparece ligado apenas a “A Sangue Frio”, a obra de não ficção que Capote escreveu, mas que teve tratamente de texto de Lee.

Injustiça que o tempo acabou por eliminar. Mas que ainda permanece no Brasil. Seu livro ficou muito tempo fora de catálogo, até voltar no ano passado por conta do lançamento de “Vá, Coloque um Vigia”, o livro guardado que ganhou vida surpreendemente.

A editora lançou uma nova edição, mas a importância do romance permace ignorada. Nada de fortuna crítica, prefácio, posfácio, nada que pudesse enriquecer e valorizar o livro de Lee. Apenas a tradução do romance e pronto. É neste momento que lamento o fim de uma Cosac Naify, pois como não imaginar uma edição de “O Sol É Para Todos” pela editora?

O mais triste para mim é que nunca cheguei ao final de seu grande romance. E é tristemente engraçado eu lamentar sua morte, mas como não reconhecer sua grandeza? Seu livro descansava ao lado da cama, coincidentemente. Comecei a lê-lo pela primeira vez há umas três semanas, mas parei tomado por um furacão chamado Philip Roth.

A escritora Harper Lee (1926-2016)
A escritora Harper Lee (1926-2016)
Agora, como voltar?

Devo isso a ela.

*****

Em abril de 2015, também me deparei com a morte de dois escritores no mesmo dia. Naquela segunda-feira, escrevi sobre Eduardo Galeano e Günter Grass e o quanto me incomodava não ter lido nenhum dos dois. Escrevi naquele texto:

“Falar do que não conheço não é tarefa simples. Preferia o silêncio, mas este é um blog de literatura, de livros, como então ignorar que dois pilares foram derrubados pelo tempo?”

Hoje, um dia depois da morte de Eco e Lee, lembrei da imagem trágica que Dalí criou em seu “Persistência da Memória”, o quadro que abre este texto. A imposição do tempo nos faz ínfimos, e quanto mais esse tempo avança mais migalhas afetivas vai deixando em seu rastro. E não há nada que possamos fazer.

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3 thoughts on “Sobre Lee e Eco”

  1. Umberto Eco parece ter sido grande demais. Depois de O Nome da Rosa, li O Pêndulo de Foucault e tempos depois, O Cemitério de Praga.Mas ele estava acima. E de cima se despede. Aí vai um homem que não nos deixou migalhas.

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