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Notas do Carnaval

o-pai-mortoO feriado começou com um livro em andamento, “O Pai Morto” (Rocco), de Donald Barthelme, saudado como um dos grandes lançamentos do ano passado. Elogiado por nomes como Thomas Pynchon e Salman Rushdie, o autor é lembrado por sua irreverência e liberdade artística, retratadas na falta de convenções em suas narrativas.

O livro tem 239 páginas. É um romance relativamente curto, que poderia ser percorrido em uma semana, em média. Mas já fazia mais de dez dias que ele estava na cabeceira e eu não conseguia ultrapassar da página 60.

Não posso dizer que a tradução de Daniel Pellizzari é boa, pois não tive contato com o original. Mas sei que já tive uma péssima experiência com o tradução que ele fez para “1.280 Almas”, de Jim Thompson, e tudo aquilo que falam de Barthelme não vinga nesta edição da Rocco.

A inventividade não floresce. O ritmo é algo trágico, sem conexões. A sátira, as metáforas, o espírito anárquico, tudo isso cantado em resenhas, nada disso aparece no livro. Pai Morto é o personagem que, no caixão e sendo arrastado para um lugar que desconhece, dá ordens e faz ameaças, sem ser ouvido, claro, enquanto o falatório continua a seu redor. Deve ser um livro muito bom, mesmo, mas não funcionou.

Como sou adepto de abandonar livros que não descem, desisti de “O Pai Morto” lá pela página 120. Foi o máximo a que consegui chegar.

Pois Conrad pedia passagem

passageiro-secretoEle veio na última compra feita de livros da Cosac Naify – seu companheiro foi “Novelas Exemplares”, de Cervantes. “O Passageiro Secreto”, de Joseph Conrad, faz parte da coleção Particular, em que livros são transformados em objetos – normalmente, livros curtos, que ganham aparatos (como a régua de “Bartleby, o Escrivão”) e enfeites gráficos.

Neste caso, o livro veio numa caixa preta e tem as ilustrações inseridas numa espécie de membrana entre as páginas. O livro, hoje já indisponível na Amazon (única loja que comercializa os livros da extinta editora), custa entre R$ 38 e R$ 49 na Estante Virtual. Poderia ser mais barato, mas isso explica, talvez, o fechamento da editora – paguei R$ 34, mas esse era o preço com desconto na Amazon. Enfim.

Conrad conta a história de um capitão que se vê diante de um náufrago e com quem estabelece um diálogo a princípio amigável. A novela se encaminha para o tema do duplo, ao mesmo tempo em que insere aventura e um certo mistério. Narrada com maestria pelo autor de “Coração das Trevas”, a trama é daquelas que revelam camadas escondidas ao final da leitura.

Este exemplar ainda deixa uma dúvida: o fim da Cosac também significa o fim de edições como esta? Penso mais na escolha editorial e do que no trabalho gráfico e o design. Tenho meus receios de que a resposta é sim.

Entre memórias da TV e a vantagem do texto digital

Na “Piauí” de fevereiro, o texto de Karl Ove Knausgård sobre uma cirurgia realizada no cérebro com o paciente acordado é uma pérola. Ainda mais se levarmos em conta que o procedimento foi realizado na Albânia. Não sou fã do autor, espécie de queridinho da atualidade por sua série autobiográfica “Minha Luta”, mas esse texto transforma uma cirurgia arriscada numa aventura de suspense.

Me fez lembrar de “The Knick”, estupenda série dirigida por Steven Soderbergh sobre as experiências da medicina no início do século 20, numa Nova York que nascia para o mundo. Em um dos episódios, o personagem de Clive Owen, o doutor Thackery, realiza uma cirurgia no cérebro de um viciado em heroína para detectar a parte do órgão que “administra” o vício. Recomendo a leitura do texto do escritor norueguês e o seriado, das melhores coisas da TV atualmente.

Cena do episódio de "The Knick" com a cirurgia no cérebro
Cena do episódio de “The Knick” com a cirurgia no cérebro

Uma das vantagens de uma revista eletrônica é não perder o exemplar mesmo meses depois do seu lançamento. Pois foi somente no Carnaval que li o número 3 da “Peixe-Elétrico”, lançado no ano passado.

peixe-eletricoDestaco dois textos. O primeiro é “Meninas Mortas”, da escritora argentina Selva Almada, já entrevistada pelo blog. Autora de “O Vento que Arrasa”, ela escreveu “Chicas Muertas”, livro em que trata da violência da mulher.

No artigo publicado na revista, vamos ler sobre crimes cometidos contras mulheres e que raramente encontram soluções. É um retrato cruel e tristemente atual, não só na Argentina. O texto de Almada encontra uma solução narrativa que não transforma a história num vale de lágrimas, mas sim de enfrentamento. Fundamental.

“Chicas Muertas” seria lançado pela Cosac, que lançou Almada no Brasil, mas o fim da editora também pode ter colocado um fim também na edição em português desse livro.

O segundo texto é “Diário de uma releitura”, de Felipe Charbel. Em forma de diário, ele descreve como descobriu “O Teatro de Sabbath”, de Philip Roth, e suas inúmeras leituras do livro. Do encontro do livro num sebo a uma palestra do autor nos Estados Unidos, já próximo de sua aposentadoria, o professor da UFRJ nos faz querer ler Roth imediatamente – apesar de ter sido tentado a reler “Sabbath”, preferi descobrir um novo Roth para mim, “Indignação”.

O jornal que sobrevive no livro

Um recurso muito usado por editoras é reunir em livro as crônicas de autores publicadas em jornais e revistas. O texto ganha uma sobrevida, apesar de sua eternidade na internet – mas quem é que vai ficar fuçando artigos antigos no nem sempre amigável sistema de busca dos sites noticiosos?

Publicar em livro uma seleção pode não só estreitar relações com o leitor iniciado, mas também alcançar novos. O problema é quem nem todos autores conseguem ganhar relevância nessa coletânea – os textos exigem contexto, se tornam datados e a leitura fica dispersa.

Não é o caso de “Literato – Crônicas Reunidas 1” (Assis), de Ivone Assis. Ela assina uma coluna quinzenal no “Correio de Uberlândia”, espaço usado para tratar de literatura, relacionando o cotidiano com suas leituras.

Seu texto não se perde no tempo e merece ser lido a qualquer momento, em qualquer época. Afinal, alguém que relaciona um conto de Guimarães Rosa (“Fita Verde no Cabelo”) para a leitura de crianças merece esse espaço em todas as plataformas possíveis.

E mais…

Teve a adaptação para os quadrinhos de “Grande Sertão: Veredas” e o romance “Reze pelas Mulheres Roubadas”, da mexicana Jennifer Clement, um petardo. Mas esses dois ficam para outros textos.

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2 thoughts on “Notas do Carnaval”

  1. Terminei o passageiro secreto e fiquei com a impressão de ter saído de um mudo surreal. Vou reler no futuro pra ver se pesco outras coisas da história.

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