Colaboração, Ficção, Inglaterra, Notas de leitura

Achados da Estante Virtual – “A Bússola de Ouro”

Por Enzo Potel

7071121_1GGOs primeiros capítulos são geniais, depois “A Bússola de Ouro” (Objetiva), do escritor inglês Philip Pullman, vira um “Código Da Vinci” para crianças. Sério.

A maneira como meu cérebro foi estimulado na leitura daqueles primeiros três, quatro capítulos, tentando compreender o que era da nossa dimensão e o que não era, parecia uma aula de literatura. Mas tudo isso se perde quando a trama sai de Londres – a garota Lyra parte para salvar seu amigo Roger, desaparecido naquele mundo enganosamente tão parecido com o nosso -, e o romance vira um livro de ação, com direito a ursos falantes e feiticeiras.

Eu peguei o livro na biblioteca perto de casa para entender por que é tão amado pelos ingleses – este é, na verdade, o primeiro volume da trilogia “His Dark Materials”, “Fronteiras do Universo” no Brasil. Meses depois, acabei comprando para fazer uma leitura mais atenta daquele começo, anotando perguntas, me questionando a cada segundo o que era da nossa realidade ali – afinal, realidade: cada cabeça tem a sua, e naquele embaralhamento de culturas, épocas e imaginação é fácil simplesmente considerar tudo imaginação.

Pesquisas no Google me levaram a sites sobre a trilogia e o embaralhamento se provou mais fundamentado do que eu pensava. Por exemplo: quando o Reitor pergunta ao Mordomo se ele separou o “Tokay especial”, bebida que na página seguinte é descrita como “vinho dourado”, você acha que isso faz parte da imaginação, da construção daquele outro mundo. Mas pesquisando você descobre que há um vinho húngaro famoso chamado Tokaji cuja cor é dourada. Como você visualiza o dourado é que pode ser o problema.

Assim como no primeiro parágrafo de “A Mão Esquerda da Escuridão”, da Ursula K. Le Guin, em que o narrador diz: “Como a joia orgânica singular de nossos mares, cujo brilho aumenta quando determinada mulher a usa e, usada por outra, torna-se opaca e perde o valor”, daí você fica tentando imaginar a “joia orgânica”, uma pedra verde e “viva” que se move interiormente com tons de azul e lilás e… para. É uma pérola.

*****

Enzo Potel é poeta, autor de “Conto de Facas” e “Cura”. Ele enviou para o blog uma proposta: escrever pequenas pílulas de livros encontrados na Estante Virtual por um bom preço e que valem a pena serem descobertos. Seus textos são publicados regularmente aqui no blog.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s