Comentário, Ficção, Inglaterra

“A Balada de Adam Henry” em três atos

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Li Ian McEwan pela primeira vez em algum momento no final dos anos 90. Seus livros eram publicados pela Rocco – hoje, o catálogo pertence à Companhia das Letras. Não lembro mais qual foi o livro que me iniciou em sua obra – “Ao Deus-Dará”, “A Criança no Tempo”, “Amsterdam” e “Primeiro Amor, Último Sacramento & Entre Lençois” são alguns dos candidados.

amor-para-sempre-ian-mcewanMas o livro que mais me marcou nessa primeira fase foi “Amor Para Sempre” – anos depois, a Companhia das Letras reeditou com o título “Amor Sem Fim” -, principalmente por sua abertura. A queda do balão em um parque é descrita com tanta potência que me marcou profundamente, nunca mais dissociei McEwan daquela abertura.

A sensação se repetiu com o novo “A Balada de Adam Henry”. Lançado no ano passado, deixei o livro passar até que um amigo me recomendou a leitura. E a chegada das listas de melhores de 2015 reforçou a vontade de ler a história de uma juíza que enfrenta uma crise no casamento enquanto tem que decidir sobre o caso de um jovem doente, o Adam Henry do título. Ele sofre de leucemia e precisa de transfusão de sangue, mas sua religião (Testemunhas de Jeová) não permite.

A abertura de “Adam Henry” é o primeiro ato da leitura. Fiona, a juíza, chega em casa e começa um embate com o marido no jantar. A discussão, longe de ser um bate-boca ofensivo, conduz ao leitor ao centro de um furacão silencioso. Fiona, cansada do trabalho e da idade, se vê confrontada pelo marido, quase empurrada à parede.

McEwan retrata nessa abertura todo o esgotamento emocional de Fiona – e é assim que o leitor se sente ao fim, quando ela recebe a ligação de seu assistente informando a chegada do caso de Adam Henry.

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Li tudo o que estava disponível em português até “Reparação”. Aqui, tive a sensação de que McEwan chegara ao auge. Era, para o leitor entusiasta do escritor inglês, uma obra-prima, superior ao então “Amor Para Sempre”. Após um longo hiato, o romancista publicou “Sábado”, livro que descartei, mas que me foi tão bem recomendado que em breve lerei. Fui ler “Na Praia”, livro decepcionante, que me afastou de McEwan e do seu sucessor, “Solar”

“Reparação”, que se tornou filme, e seu penúltimo livro, “Serena” (um livro médio para bom), trazem um escritor absoluto no domínio da técnica e na inserção de tramas paralelas e assuntos que ajudam a dar corpo à narrativa principal.

Cena de "Reparação", baseado no livro de Ian McEwan
Cena de “Reparação”, baseado no livro de Ian McEwan

E é isso que encontro no que eu chamo de segundo ato de leitura de “A Balada de Adam Henry”, que começa na chegada do caso do jovem com leucemia à mesa de Fiona e termina com a decisão jurídica. McEwan impõe ritmo de thriller de tribunal, mas com classe e subtramas que fazem com que o romance ganhe corpo, enquanto, na verdade, ultrapassamos algumas dezenas de páginas.

Pulsa nesse ato toda a discussão que é cara a McEwan: o discurso contra o obscurantismo, as reações desproporcionais, a irascibilidade que faz com que as pessoas tomem decisões baseadas em leituras distorcidas.

É um recorte que se aproxima também de romances de tribunais, mas que McEwan aproveita para discutir jurisprudências quase filosóficas, sobre o direito à vida e a liberdade individual. A prosa do inglês brilha e força o leitor a avançar compulsivamente. Não interessa mais a decisão de Fiona, mas sim todos os aspectos que ela colhe para escrever sua nota final – algo que Hitchcock faz com maestria em seus filmes; importa menos quem vez e mais como ele chegou até lá.

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O terceiro ato de “A Balada de Adam Henry” começa depois de Fiona anunciar sua decisão. Desse ponto até o final, McEwan trata das consequências sobre Adam Henry e de como Fiona e seu marido vão lidar com o casamento. Em algum momento, as duas tramas se cruzam para questionar tanto a juíza como a mulher cansada e insatisfeita no casamento.

Como se McEwan perguntasse: é possível tomar decisões em momentos de aflição emocional? O leitor talvez até tenha respostas prontas, mas não vai encontrá-las ao final do romance. O que surge no encerramento do terceiro ato e do livro é a própria vida, cheia de zonas cinzentas, em que objetividade é algo tão superestimado quanto improvável.

McEwan entrega então um romance fundamental para o século 21.

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