Comentário, Escócia, Ficção

O reverendo Massari indica Martin Millar. Por que não ler então?

Na troca de mensagens com o editor da Edições Ideal, para negociar uma entrevista com Fabio Massari, ele me pergunta se eu conhecia a obra de Martin Millar. Sua casa publicou dois livros dele, por indicação do Reverendo. Se eu me interessasse, ele me enviaria as obras.

Os títulos: “As Boas Fadas de Nova York” e “Suzy, Led Zeppelin e Eu”. Fui pesquisar e fiquei curioso para conhecer a obra de Millar. A princípio, imaginei que poderia ser um autor dedicado ao romance jovem-adulto, chamado de Y/A. Mas não.

O escocês radicado em Londres é comparado a Nick Hornby por Massari e mistura em suas letras fantasia, cultura pop e reminiscências da juventude. Neste caso, esse olhar existe a partir do narrador adulto, já cínico e sem o aspecto de insatisfação de Hornby.

Recebi os dois livros da editora e, terminada a leitura, deles saem impressões complementares. A saber.

Led Zeppelin toca em Glasgow
capa-suzy-baixa“Suzy, Led Zeppelin e Eu”, o que mais me chamou a atenção na primeira apresentação, é daqueles livros que deveriam estar na estante de quem gosta de rock e foi fã de alguma banda nos seus 15 anos.

Diferentemente de “Alta Fidelidade”, por exemplo, o livro de Millar não quer acertar contas com o passado. Pelo contrário, quer olhar para ele e tirar algum proveito. Como se fosse uma conversa num bar entre amigos, relatando fatos de 30 anos atrás. Hornby é melancólico, enquando Millar tenta apenas se divertir com o que aconteceu.

O livro parte das memórias de um show que o Led Zeppelin deu em Glasgow em 1972. O narrador, na época com 15 anos, conta como o anúncio da apresentação mudou a vida de um grupo de amigos – a banda estava no auge e a angústia da espera era quase impossível de controlar. Como deveria ser, meninas dominam a conversa dos amigos, em encontros e desencontros que vão delineando a narrativa.

O narrador já adulto rememora aquele ano e vai inserindo lembranças de como a expectativa do show do Led dominava as ações do grupo. E Millar, espertamente, aproveita para misturar realidade nessa ficção. Lemos como foi o show, como era o universo da banda na época, em meio a depoimentos de Howlin’ Wolf e Janis Joplin, por exemplo. Millar reporta os motivos que faziam do Led a maior banda da época.

A mistura de blues elétrico com rock e música celta, a excelência dos músicos, Millar nos faz querer ouvir Led Zep imediatamente. O livro é curto e dá para ser lido de uma vez só, tal a fluência e o ritmo ágil. É um delicioso livro de rock e memórias.

As fadas de Millar
imagem.aspxJá “As Boas Fadas de Nova York” provocou um certo receio no início. Mas se a sinopse poderia até gerar um “não gostei” antes de ler, as primeiras páginas já derrubam a sensação.

Afinal, por mais que fadas passem a impressão de serem fofas, não dá para segurar essa descrição quando a primeira coisa que ela fazem quando pousam no apartamento de um violinista é vomitar no tapete da sala. Millar meio que subverte “Sonho de uma Noite de Verão”, de Shakespeare, ao colocar uma dupla de fadas com cara da juventude urbana atual na narrativa.

Sim, a cultura pop também faz parte do romance, desta vez com Johnny Thunders, guitarrista do The New York Dolls. A cidade emerge com anúncios do “Village Voice” e passeios inusitados no Central Park. Se a fantasia domina a trama, Millar tenta equilibrar a balança com um sem-número de referências verossímeis.

Este não é o tipo de livro que me encanta, mas é impossível não se render à narrativa bem humorada, nada afeita a fórmulas e conceitos. Millar constroi um universo muito particular, criativo, sem lamentações e desculpas.

A cultura pop aparece como um elemento que interage com os personagens e não serve de desculpa para suas atitudes. É um certo alívio ler uma trama em que o rock, por exemplo, não serve apenas para um narrador ficar choramingando suas dores e decepções. Neste caso, as fadas são quase punks perto dos personagens de Nick Hornby.

Ao final, as impressões dos dois livros indicam que Martin Millar é um autor que deveria ser mais traduzido no Brasil – ele é autor de mais de 11 romances, peças de teatro, HQ e de uma coleção de fantasia chamada Thraxas, esta sob o pseudônimo de Martin Scott. Serviria para introduzir um pouco de cinismo e bom humor em quem está deixando os romances Y/A e para quem ainda idolatra os personagens de Nick Honrby.

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