Brasil, Estados Unidos, Gastronomia, Memórias, Não ficção, Notas de leitura

Notas de Leitura

memorias-de-uma-beatnick.aspx“Memórias de uma Beatnik” (Veneta), de Diane di Prima
Quando entrevistei Fabio Massari, lancei uma questão: qual pergunta ele faria a V. Vale, o agitador cultural norte-americano de quem ele organizara um livro de entrevistas. Ele respondeu que gostaria de saber quando Vale enviaria a foto de Massari com Diane di Prima. Foi a deixa para eu ir atrás desse livro, esquecido que estava na memória e naquelas listas mentais de livros a ler. Escritora pouco conhecida da geração beat, Diane escreveu um livro de memórias em que utiliza a ficção e a narrativa própria do grupo de escritores da época – Kerouac, Ginsberg, Burroughs, Ferlinghetti. Ágil, muito pessoal, reflexo da cultura e do comportamento da época, o texto de Diane, lançado em 1969, veio encontrar um par em “Só Garotos” (Companhia das Letras), de Patti Smith, lançado 41 anos depois. O mergulho emocional é muito semelhante – enquanto Patti revive sua relação com Robert Mapplethorpe, Diane mergulha de cabeça nos anos 50, aqueles que a formaram. Então, mais do que a descoberta da literatura, do jazz e da dificuldade de viver numa grande cidade, o leitor se depara com descrições contundentes das suas relações sexuais. É esse desbravamento, digamos, que compõe o cerne do desenvolvimento narrativo destas “Memórias”, muito além do olhar feminino para a geração beat. Um livro que envolve o leitor por seu texto afetivo, urgente, próprio daquela época.

“Naquele momento, o arrependimento pelo que poderíamos estar perdendo estava enterrado sob uma sensação abrangente de regojizo, de alegria. Alguéme estava falando por todos nós, e o poema era bom. Eu estava animada e encantada. Voltei para casa e para o jantar, e nós lemos ‘Uivo’ juntos; eu li em voz alta para todo mundo. Uma nova era havia começado.”

criancas-mais-inteligentes.aspx“As Crianças Mais Inteligentes do Mundo – E como elas chegaram lá” (Três Estrelas), de Amanda Ripley
A jornalista americana se debruçou sobre resultados de testes que avaliam o ensino nas escolas de todo o mundo para investigar o que faz com que alguns países alcancem números tão bons. Ela primeiro analisa os Estados Unidos e tenta encontrar respostas em três alunos, de diferentes Estados e culturas. Depois, acompanha esses mesmos estudantes nos intercâmbios que eles fazem na Finlândia, Coreia do Sul e Polônia, países que conseguem excelentes resultados em testes unificados e aplicam programas e técnicas diversas. Amanda Ripley busca entender se existe relação entre dinheiro investido, tecnologia em sala de aula, subsídios, história, educação dos pais, numa reportagem de fôlego que acaba por revelar como a educação é uma obra aberta, pronta para inovações e o diálogo. A pergunta básica a cada um dos países é: por que a Finlândia tem a melhor nota nos testes? Por que a Polônia, ainda em desenvolvimento, obtém notas cada vez melhores? E por que a Coreia, com uma educação tão rígida, consegue avançar na sala de aula? O livro é fundamental para quem educa e tem interesse no assunto. Para o leigo, o atrativo é o excelente trabalho jornalístico de Amanda, empacotado num texto solto e sem academicismos. Livraço, resumindo.

cozinha-de-afeto“Cozinha de Afeto: Histórias e Receitas de Doze mulheres imigrantes no Brasil” (Alpendre), de Alexandra Gonsalez e Sonia Xavier
As jornalistas partem de uma ideia básica: entrevistar mulheres imigrantes, contar suas histórias no Brasil e pedir uma receita de seu país de origem. Separadamente, as três etapas poderiam soar como algo simplista, feito e refeito tantas vezes por aí afora. Mas quando as 12 histórias se juntam, quando lemos suas memórias, seus desafios num país novo, e como a comida ajuda a lembrar de suas origens, o livro ganha não só em sabor, como também em interesse e envolvimento. Elas vieram de lugares diversos: Argentina, Ucrânia, Itália, Irã, Etiópia, Colômbia etc, cada uma de uma época diferente, com histórias diferentes e que acabaram por encontrar também um país diferente. Dessa mistura de lugares e ingredientes, as jornalistas retiram não um livro de receitas simplesmente. Estamos diante de um pouco da história oral de nossa época. E esse toque, tal qual um ingrediente secreto que um chef não revela, faz toda a diferença ao final.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s