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A volta em três HQs, ou como “O Impostor” ficou de lado por uns dias

A morte de David Bowie fez com que eu cancelasse a publicação deste post, que abre o ano do blog, após o recesso da virada 2015/2016. Escrevi um texto sobre Bowie na plataforma Medium, onde o blog também é espelhado. Está neste link

Aos livros, portanto.

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Antes das festas de fim de ano, escrevi que saía para o recesso com dois livros: “O Impostor”, de Javier Cercas, e “A Balada de Adam Henry”, de Ian McEwan. Eram os dois livros que pretendia ler nos dez dias de descanso, na virada de 2015 para 2016. Mas como se prender a escolhas quando surpresas surgem?

Já no ano passado, quando retornei também do recesso de fim de ano, escrevi que não compreendia como vários leitores, blogueiros e afins se fiavam em regras, listas e maratonas de leituras.

Pois se a leitura é algo tão orgânico, como se prender e se limitar a uma regra? Se fosse assim, não largaria os planos com Cercas e McEwan, atropelados que foram por três HQs primorosas – que poderiam ser quatro, caso o livro do espanhol não ficasse me chamando intermitentemente.

Cheguei a McEwan ontem, após finalizar nesta semana o estupendo livro de Cercas. Por isso, a volta do blog aos escritos é dedicada às três HQs lidas no recesso.

O blog deseja a todos um ótimo 2016!

A elas.

JogoDasAndorinhas“O Jogo das Andorinhas” (Zarabatana), de Zeina Abirached
O mais afoito poderia dizer que se trata de uma versão libenasa de “Persépolis”. Já na capa, os traços até ajudam a confundir com Marjani Satrapi, assim como o tema – o enfrentamento à intolerância e à repressão, desta vez passado no final da Guerra Civil libanesa. Abirached nasceu em 1981 e viveu esse período, que ela retrata nesta belíssima HQ, em um recorte autobiográfico de poucos dias de sua infância.

Em Beirute, ela vivia com seus pais e um irmão menor. Para visitar os avós, era necessária uma operação muito bem estudada, para ninguém ser atingido pelos atiradores. Num dia, seus país demoram a voltar da casa dos avós e as crianças ficam sozinhas em casa. É quando a HQ começa, com a chegada de vizinhos que vão ajudar a cuidar dos irmãos.

Mais do que essa solidariedade, o que Abirached faz é revelar os personagens que povoam a casa. Costume, história e memória vão se cruzar enquanto todos aguardam por notícias. Vivem juntos o bombardeio noturno, que destroi parte do edifício onde todos moram.

Abirached usa apenas preto e branco em seus traços, o que aumenta a sensação de semelhança com “Persépolis”. Mas enquanto a iraniana propôs uma espécie de épico, a libanesa entrega um lindo instantâneo, daqueles que merecem ser lidos e relidos.

os-quatro-rios“Os Quatro Rios” (Martins Fontes), de Fred Vargas e Baudoin
Quando vi o nome na capa, nem precisei avaliar a história. Como leitor dos policiais da escritora francesa Fred Vargas, encontrar uma HQ roteirizada por ela, uma história inédita, bastava para colocar o livro na sacola.

A trama se mantém fiel ao universo de Vargas – um mistério que parte de situações comuns, costumes e tradições antigas resgatadas por criminosos e o olhar sempre difuso do comissário Adamsberg. Aqui, uma dupla de jovens prega um golpe num homem misterioso que vai destravar uma série de mortes.

Se nos livros a ambientação é fundamental para o desenrolar da história, na HQ o objetivo foi dar corpo aos personagens. Vislumbramos não só Adamsberg, mas também o decadente Danglard – um velho quase escroto, retratado com rigor por Baudoin.

O traço é sujo, com sombras e sem muita definição. Próprio para esconder e mostrar pouco, talvez com o objetivo de privilegiar o texto. O fato é que se lê “Os Quatro Rios” com certa avidez, como um romance policial da melhor estirpe.

DoisIrmaos“Dois Irmãos” (Quadrinhos na Cia), de Fábio Moon e Gabriel Bá
A adaptação gráfica já era aclamada antes mesmo de ser publicada. Havia toda uma aura que carregava a produção. A HQ é baseada no romance homônimo de Milton Hatoum, considerado um dos melhores livros do autor. A adaptação foi feita pelos premiados artistas gêmeos, isso enquanto a versão para a TV, em minissérie, aguarda o sinal verde para produção.

A HQ não ousa no texto, que reproduz quase que literalmente a prosa do romance. Não que isso seja um problema, talvez tenha sido a solução ideal de Moon e Bá, não mexer no que já é consagrado e apenas dar corpo ao que apenas se imaginava.

E o grande mérito da HQ está nos achados visuais que os artistas propuseram não só para os personagens, como para a Manaus de meados do século passado. Trabalho aprovado por Hatoum, segundo Moon contou em reportagem publicada no blog. “O livro não descreve fisicamente os personagens, então o processo foi um pouco subjetivo. Foi uma das coisas que o Milton (Hatoum) ajudou muito, porque fomos lá mostrar se era algo que ele imaginava. Ele nos recebeu muito bem”, disse o artista (leia o texto completo aqui)

O leitor que já leu o romance vai se deparar com outra história, apesar de a trama ser a mesma. O trabalho permite criar essa segunda camada, como se fosse uma obra diversa. Romance e HQ trilham caminhos independentes, e ler um ou outro não vai ser o suficiente  – sim, se posso deixar algum conselho, é que você, leitor, deve ler os dois.

*****

A HQ que ficou na estante

Estava lá do lado, mas não tive coragem de mergulhar em sua história após esse passeio por três outros romances gráficos. Preferi voltar a “O Impostor” e deixá-la quieta por mais alguns dias.

Pois “Grande Sertão: Veredas” em versão gráfica merece um tempo mais próprio e reservado.

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Sinapses

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