Comentário, Crônicas, Estados Unidos, Não ficção

Bill Bryson: um raro jornalista com bom humor e capaz de rir de si mesmo

imagem.dllBill Bryson é um exímio contador de histórias. Se você nunca leu nada do jornalista norte-americano, aconselho a começar agora “Crônicas de um País Bem Grande” (Companhia das Letras). Você vai ler compulsivamente e morrer de rir.

O livro é uma reunião de textos que Bryson escreveu para uma revista dominical inglesa. O mote era retratar sua readaptação aos Estados Unidos após ter passado 20 anos em Londres. É um retrato fiel do novo lar, seleção de instantâneos que desvendam os americanos e seu modo de viver. Puro jornalismo, travestido de crônica e empacotado em um texto saboroso.

Seu arsenal é vasto. Fala de trituradores de pia, atendimento ao cliente, seu jeito estabanado, os motéis de beira de estrada, o modo americano de comer, o uso de carros, enfim, uma fileira de assuntos que desnudam a América.

Bryson se faz personagem e ri da sua imagem. Seu texto é irônico, sarcástico e não deixa escapar nada. Sua capacidade de observação somada a essas características tornam a leitura irresistível e geram um lamento quando acaba – a vontade é de pedir um segundo volume, ler qualquer coisa que ele escreveu.

Se a oferta em português não é tão vasta quando seus títulos em inglês, pelo menos não dá para dizer que nada não há oferta. Ele navegou por Shakespeare em “O Mundo é um Palco”. Biografou o mundo em “Breve História de Quase Tudo” e a vida moderna em “Em Casa – Uma Breve História da Vida”. Retratou a época de sua infância em “Vida e Época de Kid Trovão” (todos Companhia das Letras). Fora o título citado no parágrafo seguinte, é o que há disponível em português. Pena.

46410404_1Um dos mais divertidos livros de Bryson é “Uma Caminhada na Floresta”, transformado em filme estrelado por Robert Redford e Nick Nolte. Relato de sua aventura na Trilha dos Apalaches, o jornalista transforma o que poderia ser um livro de viagem tradicional em uma leitura das mais ricas e engraçadas. Ele narra sua epopeia com o característico bom humor, um talento raríssimo, pois até as passagens em que Bryson escreve sobre problemas de administração em parques nacionais se tornam interessantes.

Bryson resolveu viajar pelos 3.000 km dos Apalaches, da Georgia ao Maine. Fora de forma, ele teve a companhia de Stephen Katz, um amigo obeso, cheio de manias e sem muita mobilidade. A dupla encarou montanhas, frio, chuva, gente esquisita, ursos e animais desconhecidos. Bryson conta a história como se estivesse numa mesa de bar.

Ele descreve com perfeição as pequenas cidades que margeiam a trilha, onde eles eventualmente pernoitam. Recorre ao sarcasmo quando precisa contar como foi preparar a mala de viagem e escolher os itens e equipamentos que iriam acompanhá-lo. Faz rir quando, numa noite chuvosa, ele ouve barulhos na floresta e sai da barraca para enfrentar dois pares de olhos.

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Cena do filme baseado no livro “Uma Caminhada pela Floresta”

Delicioso, o livro tem irreverência e não poupa seu autor. No fim, descobre-se que os 3.000 km são uma aventura maior do que a boa vontade da dupla sedentária, orgulhosa do feito.

Bryson entrega uma pequena maravilha. É um jornalista com bom humor, coisa rara. Capaz de rir de si mesmo, ele tem um faro observador de primeira qualidade e um texto delicioso.

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