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Fabio Massari organiza livro com entrevistas clássicas de V. Vale

capa-ACCG-ALTANunca tinha ouvido falar de V. Vale. Não me considero desinformado, mas esse personagem não tinha aparecido para mim até ler um texto de André Barcinski sobre um livro que me pareceu, pelo nome, uma excentricidade: “Alguém Come Centopeias Gigantes?” (Edições Ideal).

Então me surge um personagem fundamental para a contracultura e o punk dos anos 70, figura central na São Francisco da época, entrevistador dos mais competentes e autor do fanzine “Search & Destroy” – esse sim era algo que já ouvira falar e conhecia, um produto típico do punk, bancado pelos US$ 100 doados por Allen Ginsberg e Lawrence Ferlinghetti.

V. Vale é escritor, produtor, editor, apresentador de TV e músico – fez parte da formação inicial do Blue Cheer. Suas publicações foram fundamentais para fomentar a contracultura e o punk. E não só nesse período, pois Vale continuou a tratar desses temas, em suas várias plataformas (música, cinema, literatura, ativismo), nos livros publicados por sua editora RE/Search.

Este “Alguém Come Centopeias Gigantes?” foi organizado por Fabio Massari, com entrevistas feitas por Vale para seu fanzine e livros da editora. Vale procura nomes que possam provocar, apresentar posições originais e que navegam contra a maioria. No volume, estão músicos e bandas como Jello Biafra, Patti Smith, The Cramps, Devo e The Clash, escritores como J.G. Ballard e William S. Burroughs, cineastas como John Waters e ativistas como Timothy Leary.

Você não vai ler posições confortáveis. Estará diante de conversas que soam extremamente originais e provocativas. Além do talento dos entrevistados, o resultado se deve muito a Vale, um editor que sabia conduzir a conversa e tirar boas declarações.

O blog entrevistou Massari para falar do livro, que faz parte da coleção Mondo Massari.

Fabio Massari, organizador de "Alguém Come Centopeias Gigantes?" | Foto: Marcelo Ribeiro
Fabio Massari, organizador de “Alguém Come Centopeias Gigantes?” | Foto: Marcelo Ribeiro

*****

O que mais o atrai nas entrevistas de V. Vale?
O que me parece mais evidente ao ler as entrevistas do Vale é que ele realmente parece estabelecer uma relação toda especial com o entrevistado – longe do chapabranquismo. Destacam-se sua profunda, sincera curiosidade pelas pessoas e seus casos, histórias e, principalmente, ideias. Sem contar que o homem de preto de North Beach é muito engraçado, de um modo totalmente particular.

O que diferencia Vale de outros jornalistas e agitadores culturais?
O Vale é um artista. Um editor no sentido mais amplo e caleidoscópico do termo. Seu jornalismo me parece mais perto da literatura. Sua caminhada editorial constrói um monumento de múltiplas implicações culturais. O Vale é pianista, dos bons. Seu jornalismo, portanto, é bem pouco ortodoxo – talvez por isso mesmo tenha tanto conteúdo. Sua agitação cultural é tipo missão existencial.

Como ele reagiu à proposta de uma coletânea lançada no Brasil?
Gostou da ideia desde o começo, inédita na historia da editora – só ajudou, basicamente dando a tal da carta branca para que fizéssemos e acontecêssemos com o catalogo. Ele curtiu bastante o resultado.

Com base nas entrevistas publicadas no livro, qual a imagem do punk que sai das páginas?
No caso do Vale, seu tratamento da questão punk (São Francisco, California e resto do planeta) sempre foi diferenciado, no sentido de que sempre abordou o tema de maneira muito, muito séria e com uma abertura e amplitude intelectual (sem frescura) praticamente sem par no jornalismo musical da época (da Search & Destroy), muito menos de hoje.

V. Vale e William Burroughs
V. Vale e William Burroughs

As entrevistas não se restringem ao punk e avançam para literatura, comportamento e cinema. O que você pretendeu ao montar esse conjunto?
Na verdade, isso reflete o trabalho do Vale com a editora RE/Search, embora as sementes desse trabalho fiquem evidente na leitura do clássico zine Search & Destroy. Ele sempre trouxe “esse pessoal” para dentro da conversa. De alguma maneira, forjou uma família curiosa ao juntar artistas de diferentes áreas, revelando pontos em comum entre eles – de modo geral, todos transgressores em suas respectivas áreas.

Alexandre Matias [tradutor do livro], no texto que fecha o volume, faz referência à coleção Baderna [publicação da Conrad, com títulos de contracultura, ativismo e anarquismo]. Esse livro se encaixaria nessa coleção? 
Muito provavelmente. Ao longo dos anos, conversei bastante com colegas ligados na obra do Vale. Com o Rogerio de Campos, por exemplo, outrora capitão da editora Conrad, falamos bastante a respeito. Salvo engano, a única tradução em português de texto do Rudy Rucker, que assina exclusivamente um texto animal na introdução do nosso “Centopeia”, está numa coletânea da Conrad. Taí uma retroconexão!
[Nota: Rudy Rucker é um matemático, filósofo, escritor de ficção científica e um dos fundadores do movimento literário cyberpunk]

O que ficou de fora do livro que mereceria estar em um segundo volume?
O Cabaret Voltaire quase entrou e o Iggy Pop também. Mas posso garantir que algumas, muitas das absolutamente obrigatórias entrevistas estão no livro. O zine Search & Destroy mereceria uma atenção, digamos, autônoma!

Quais perguntas você gostaria de fazer a V. Vale?
Quando ele vai mandar minha foto com a Diane di Prima [escritora e poeta que fez parte da geração beat]. E se afinal ele já fez contato efetivo com aqueles alienígenas que trabalham, camuflados, na rua de baixo da sede da editora.

Vale protagonizou uma época em que fanzines e publicações independentes no papel eram um canal importante para a música. Hoje, seria possível surgir um V. Vale com a mesma força, diante de uma plataforma tão ampla como a internet? 
Vale só tem um, claro, e seu corpo de obra foi construído em 30 e tantos anos de atividade. Outros tempos, espíritos de época em revolução e transformação etc. Certamente, tem muita gente boa por aí, desenvolvendo trabalhos de similar importância, com o mesmo capricho, sinceridade… Pela natureza da coisa digital, resta encontrá-los.

O escritor e músico V. Vale
O escritor e músico V. Vale

Quem faz um trabalho semelhante a ele hoje? 
O Alexandre Matias?

O que vem por aí na coleção Mondo Massari?
Essa tem que perguntar para os publishers da Ideal! Queria ter alguma coisa de ficção na coleção – nacional e/ou internacional. Estamos (eu e editores) sempre conversando a respeito. Afinal, é sempre muito bom falar sobre livros.

Repassei a pergunta então a Marcelo Viegas, editor da Ideal.

Há um livro no horizonte. Já estamos bem adiantados nas conversas para o segundo volume do “Nós Somos a Tempestade”, do jornalista Luiz Mazetto. Agora, autoral mesmo, não tem nada definido, mas gostaríamos muito que tivesse algum título assinado pelo Massari em 2016.

*****

“Acho que a ficção realista já perdeu seu vigor – ela não descreve mais o mundo em que vivemos. Nós não estamos vivendo em um mundo onde você pode fazer uma clara distinção (como você podia, digamos, no auge do romance realista no século 19) entre o mundo externo do trabalho, comércio, indústria e um conjunto estabelecido de valores, e o mundo interno de esperanças, sonhos e ambições. É justamente o oposto: o mundo externo é uma fantasia hoje em dia. É uma paisagem de mídia gerada pela publicidade e pela política conduzida como um braço da publicidade.”

(J.G. Ballard, em entrevista feita em 2005)

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