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“Moby Dick” e sua versão definitiva

A estreia do filme “No Coração do Mar” me fez recuperar essa reportagem que escrevi em 2008 para o jornal “O Tempo”, de Belo Horizonte, sobre o lançamento de uma edição especial de “Moby Dick”, pela Cosac Naify.

Herman Melville teria se inspirado a escrever o grande romance após conhecer os relatos narrados no filme, por sua vez baseado no livro de Nathaniel Philbrick.

Outro bom motivo para republicar o texto é o fim da Cosac. Seus livros começam a aparecer em promoções. Portanto, se você vir essa edição por aí, compre sem pestanejar. Os motivos estão mais do que justificados nesta reportagem.

O texto segue abaixo sem modificações.

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Capa Cosac“No inverno de 1851, Melville publicou ‘Moby Dick’, o romance infinito que determinou sua glória. Página a página, a narrativa se engrandece até usurpar o tamanho do cosmos.” Jorge Luis Borges assim definiu o romance do escritor norte-americano Herman Melville (1819-1891), que ganha sua edição mais completa no Brasil pela CosacNaify.

O livro tem nova tradução, de Irene Hirsch e Alexandre Barbosa de Souza, e complementos que o fazem objeto de colecionador. O volume foi baseado na edição crítica da Northwestern-Newsberry, com a incorporação de trechos suprimidos, variantes e notas.

Ilustrações, projeto gráfico que simula o movimento de um barco em alto-mar, o mapa da viagem do baleeiro Pequod, glossário náutico, fortuna crítica com três textos inéditos no Brasil e farta bibliografia compõem o volume, o terceiro da coleção Gigantes da Literatura Universal.

A editora aposta no sucesso do livro, que sai em sua primeira impressão com 7.000 exemplares, contra os 5.000 dos outros dois títulos, “Os Miseráveis”, de Victor Hugo, e “Anna Kariênina”, de Liév Tolstoi.

Com esse tratamento, a história da obsessão do capitão Ahab pelo cachalote, que o levou a cruzar oceanos a bordo do baleeiro Pequod, tem oportunidade de uma nova leitura, como escreveu Rachel de Queiroz no prefácio para a tradução de Berenice Xavier dos anos 1950 – “o livro tem a capacidade de ser redescoberto”.

Ilustração que compõe "Moby Dick"
Ilustração que compõe “Moby Dick”

“Moby Dick” demorou a ser, entretanto, reconhecido. Melville somente se tornou um grande autor na primeira metade do século 20, após a revisão de “Moby Dick” e “Bartleby” e o lançamento póstumo de “Billy Budd”. Desse novo olhar, surge a dúvida em relação a uma das obsessões dos norte-americanos, a procura do grande romance nacional.

“A crítica desde Matthiessen (um dos ensaístas da fortuna) soube reconhecer sua grandeza. Depois da Primeira Guerra, com o enorme afluxo de imigrantes nos EUA, o Estado americano passou a promover um resgate de Melville no centenário de seu nascimento, editando suas obras completas. Ele foi escolhido por representar uma visão ianque do exótico”, diz Barbosa.

Mais do que uma narrativa de aventura, o livro de Melville revela inúmeras camadas, tratadas com ritmos diferentes. Carrega o humor, como no início do romance, quando Ishmael conhece o arpoador Queequeg. Ou uma força religiosa, como no sermão do padre Mapple, baseado em Jonas, que revela parte do interesse do escritor pela Bíblia. “A religião é fundamental para compreender a visão de mundo de Melville. É importante lembrar que Melville escreveu antes de Darwin. A ciência como entendemos hoje não existia”, diz Barbosa.

Já o crítico literário Harold Bloom alarga as visões sobre a obra. “O Ahab de Melville fala em prosa shakesperiana, metafísica, dramática, transformada pelo gênio do autor em elemento permanente do idioma norte-americano.” Uma frase de Ahab define o desafio norte-americano, segundo Bloom: “Eu atacaria o sol, se me insultasse”. Outra, segundo o crítico, expressa a rejeição à natureza diante do homem: “Quem está acima de mim?”. Frases que remetem ao eterno questionamento do homem diante da Criação. “Ahab pode ser comparado ao Satã do ‘Paraíso Perdido’ de Milton, na recusa em aceitar seu destino”, diz Barbosa.

Ishmael embarca no Pequod e, assim como toda a tripulação do baleeiro, só descobre em alto-mar a verdadeira missão, caçar o Leviatã, a baleia branca, a obsessão de Ahab. Em oposição ao escrivão Bartleby, que se recusa a fazer qualquer tarefa, Ahab só pensa em uma. O que leva à pergunta que D.H. Lawrence faz no ensaio presente no livro: “O que é então Moby Dick? (…) É nossa mais profunda natureza sanguínea”. E o leitor tem agora a chance ter a sua resposta após enfrentar seu próprio Leviatã.

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Ilustração que consta na edição da Cosac Naify

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Irene Hirsch faz parte da recente descoberta de Herman Melville no Brasil. Ela defendeu a tese de mestrado “A Baleia Multiplicada: Traduções, Adaptações e Ilustrações de ‘Moby Dick’” (1998), na USP (Universidade de São Paulo), e traduziu “Bartleby”. Agora, ao lado de Alexandre Barbosa de Souza, entrega a versão brasileira para o romance do Leviatã que atormenta o capitão Ahab.

Irene é professora de tradução no curso de Letras da Ufop (Universidade Federal de Ouro Preto) e pesquisa documentos sobre a importância das traduções em movimentos revolucionários, como a Inconfidência Mineira. (Atualização: Irene Hirsch morreu em 2010)

Leia a seguir trechos da entrevista com a tradutora.

Não poderia deixar de perguntar sobre a abertura “Trate-me por Ishmael”. Do original, “Call me Ishmael”, a tradução mais comum no Brasil foi “Chamai-me Ishmael”. Por que essa opção?
A primeira decisão importante era definir se o narrador se dirigia a um leitor ou a vários, ambiguidade presente no pronome inglês “you”. A opção foi pelo estabelecimento de laços mais próximos com um único leitor, usando “você”, e conjugando o verbo na 3ª pessoa do singular. Para não criar um cacófato (“Chame-me Ishmael”), nem agredir a norma culta, começando com a próclise (“Me chame de Ishmael”), fizemos a troca pelo verbo “tratar” (“Trate-me por Ishmael”). Pois entendemos que desse modo o narrador não apenas nos informa seu nome, ou o modo pelo qual gostaria de ser chamado, mas também nos convida a embarcar em sua espetacular viagem. Por esse motivo, privilegiou-se o relato intimista de Ishmael, que confidencia seus problemas existenciais a um único narratário.

“Moby Dick” permite várias leituras, por vários olhares – religiosos e filosóficos, por exemplo. Qual é a atualidade desse livro?
A meu ver, a modernidade do livro está na tradução literária de Melville de problemas existenciais e ontológicos, na sua discussão intelectual, com diferentes tratamentos dramáticos, para definir o papel do ser humano no universo e de seu compromisso com a realidade. É uma obra aberta, que a cada leitura revela algo de impensado.

Gregory Peck como capitão Ahab na versão de John Huston do livro de Melville
Gregory Peck como capitão Ahab na versão de John Huston do livro de Melville

O livro possui vários andamentos, sem se fixar num ritmo. Quais as dificuldades na tradução do livro?
Meu compromisso é com minha leitura e não com as intenções do autor. Diz Umberto Eco que “uma boa tradução é sempre uma contribuição crítica para a compreensão da obra traduzida”. A preocupação dessa tradução foi fazer uma reconstituição dos padrões lingüísticos, da terminologia náutica, das referências culturais e alusões literárias do texto e fazê-los coincidir com os de nossa cultura. Tampouco podíamos ignorar o humor e a irreverência de Melville, que, por exemplo, dedica um capítulo inteiro a descrever o pênis da baleia. Talvez um dos maiores desafios tenha sido não apagar as marcas lingüísticas dos personagens menos instruídos, como Queequeg ou o cozinheiro, adaptando o deboche melvilliano ao gosto nacional.

Por que a obsessão de Melville pelo mar, ou por histórias que têm o mar como cenário – casos de “Billy Budd” e “Taipi”?
Arrisco o palpite de dizer que o período em que Melville viveu no mar, seu contato com culturas diferentes de sua própria e o conhecimento que adquiriu ao longo de suas viagens marcaram singularmente sua visão de mundo e obra. O sucesso inicial de “Taipi”, quando ainda era um jovem escritor, imputou-lhe a fama de um escritor de viagens marítimas. Mas não podemos esquecer que Melville também foi um poeta e que várias de suas narrativas se ambientam em terra. “Pierre”, por exemplo, é ambientado na Nova Inglaterra.

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7 thoughts on ““Moby Dick” e sua versão definitiva”

  1. É ótimo. Moby Dick é considerado como um monumento da literatura mundial, um magnífico dramatização do espírito humano em um estágio de natureza primitiva. Recentemente, vi o filme No Coração do Mar (I compartilhar o link das próximas transmissões: http://br.hbomax.tv/movie/TTL603317/No-Coracao-Do-Mar) Ron Howard, e é um espetáculo visual muito interessante que recebe cenas específicas com força suficiente. Uma grande história, bons desempenhos, melhores efeitos especiais e cenas de ação enérgicos, mas talvez o script é um pouco dispersos querendo cobrir muitos tópicos, a mensagem final não deixa de ser claro e não consegue mover como deveria. Vou ver como é o livro.

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  2. Não vejo Moby Dick se esgotando apenas numa história (ou estória), no estilo “Mil Faces..”. Se assim fosse com 108 páginas se narraria. O que transparece é o processo mental do narrador-herói e também do escritor. Foi como se cobra-se “pedágio” pela leitura e mais, fornecendo volume significativo de cultura (inútil?) sobre baleias e sua caça, e a vida marinheira da época.

    Considero um desses livros que separa meninos(as) de homens(mulheres) leitores(as). Como o “Pêndulo..’ de Humberto Eco, ou “Babbit” de Sinclair Lewis, “Cidadela” de Exupèry e tantos outros que tiram o leitor do automático: herói-objetivo-epopeia-galardão final.

    .

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  3. Moby Dick é uma leitura portentosa, embora penosa. Em vários momentos, quando Melville mergulha em tratados científicos sobre as baleias, fica muito cansativo, e ao me ver quase desistindo, optei por pular esses trechos e me concentrar na história propriamente dita. O final é primoroso, de contornos quase bíblicos. Ainda vou comprar essa edição. Escrevi sobre o processo de leitura do livro no blog: http://paradiseduluoz.blogspot.com.br/2009/12/escalada.html

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