Brasil, Comentário, Não ficção

“Cova 312”: quando o jornalismo autocelebratório esconde a história

O blog é entusiasta de livros de não ficção, especialmente os de longa reportagem. Muito além do gosto pessoal por esse gênero, essa preferência tem a ver com a mudança dos rumos do jornalismo. Acredito que esse tipo de narrativa, mais longa e detalhada, é o caminho no qual veículos médios e grandes deveriam apostar.

Cova312Por isso, só tem a lamentar obras como “Cova 312” (Geração Editorial), da jornalista Daniela Arbex. Autora do bom “Holocausto Brasileiro” (Geração), relato sobre o manicômio de Barbacena que foi um grande sucesso quando lançado, Arbex é repórter da “Tribuna de Minas”, jornal de Juiz de Fora.

Esta nova empreitada tem bom ponto de partida: a série de reportagens que produziu para o jornal sobre prisioneiros vítimas da ditadura, especialmente um, cujo destino era desconhecido até sua investigação.

Desvendar os segredos do período mais violento do Brasil República é sempre um bom motivo jornalístico, seja para contar histórias de pessoas famosas, como Herzog ou Rubens Paiva, seja de desconhecidos do grande público, como esse personagem da cova 312, o lugar onde Milton Soares de Castro foi enterrado.

O problema reside no formato do livro, e não na concepção. A prosa de Arbex não é sofisticada, mas deu conta de narrar bem a história de Barbacena. Neste, em que os fatos são mais complexos e os personagens se multiplicam, faltou técnica e desenvoltura à jornalista.

Além disso, a estrutura do livro foi feita para enaltecer o trabalho da repórter e não contar a história. Lemos capítulos como se fossem páginas de um blog pessoal, de uma jornalista esperta e serelepe a flutuar na Redação de um jornal. A definição da pauta, para quem não conhece o universo de uma Redação, vai parecer algo ingênuo e saído do bolso, como nos piores seriados, naqueles em que o protagonista tem um insight quando olha para a colher que cai no chão. Bobo, só isso, sem consistência e que busca mais revelar o envolvimento da jornalista do que exatamente a pesquisa.

Faltam rumo, edição. Ela se perde entre contar a história da sua descoberta, a história da ditadura (um feito além do espaço determinado pela narrativa) e suas “entradas de diário”. Ao final, parece que lemos uma colagem de três livros – sendo dois bem ruins -, que poderiam se resumir num ebook com a reportagem alongada da descoberta da cova 312.

Pena. Esse modelo de jornalismo, autocelebratório, é um desperdício de informação e exemplo a não ser seguido.

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