Biografias/Perfis, Brasil, Colaboração, Comentário, Esporte

Alex ganha biografia à altura do seu futebol

 Por Matheus Trunk

No mercado editorial brasileiro, existem poucos livros-reportagem sobre futebol. Os editores dizem que o público que vai aos estádios não gosta de ler e não frequenta livrarias. Os jornais e sites preencheriam o desejo dos torcedores lerem sobre o esporte bretão.

Recentemente, o jornalista Maurício Noriega publicou dois livros no gênero: “Osvaldo Brandão- Libertador Corintiano, Herói Palmeirense” e “Rivellino”, ambos pela editora Contexto. São bons livros, mas que ficam no gênero perfil. Não conseguem mergulhar profundamente na vida do personagem principal.

Duas obras obrigatórias no Brasil sobre o assunto são “Estrela Solitária” (Companhia das Letras), de Ruy Castro, e “Nunca Houve um Homem como Heleno” (Zahar), de Marcos Eduardo Neves. Mesmo assim, ainda é muito pouco quando falamos sobre o principal esporte praticado no Brasil.

E se o flamenguista Ruy Castro escreve mais sobre música e cultura popular que sobre futebol, o também rubro-negro Marcos Eduardo Neves continua realizando grandes reportagens sobre o ludopédio.

imagem.aspxAgora, Neves solta no mercado editorial um trabalho notável: “Alex, a Biografia” (Planeta). O livro reúne a vida pessoal e profissional de um dos mais melhores camisas 10 de sua geração. Ídolo do Coritiba, Palmeiras e Cruzeiro, Alex tornou-se lenda viva na Turquia, onde atuou no Fenerbahçe por oito temporadas consecutivas.

Muitos podem pensar que é uma obra chapa-branca, mas Neves sabe fazer jornalismo de qualidade. Entrevistou treinadores, amigos, colegas de time, ex-jogadores, jornalistas, familiares, desafetos. “Alex, a Biografia” consegue tratar da vida do protagonista sem amarras. Toda a carreira do jogador está lá. As conquistas, derrotas, problemas dentro e fora de campo.

Raramente, um atleta brasileiro expos tanto a sua intimidade. Como nesse trecho:

“O Galvão Bueno quase matou meu pai nesse jogo. Ele falou tão mal de mim, me esculachou tanto na transmissão da Globo, que o velho passou mal. Teve um princípio de derrame que comprometeu seu lado esquerdo para o resto da vida. Se não acontecesse esse episódio, ele certamente estaria mais forte hoje.”

A Copa de 2002 permanece como a maior mágoa da vida do jogador. Alex acabou não sendo chamado pelo técnico Luiz Felipe Scolari. Os dois eram conhecidos de longa data, mas o treinador não levou o camisa 10. O autor entrevistou o próprio Scolari sobre o assunto. Esse fatlo criou uma mágoa profunda no atleta.

“Para fugir da realidade, entrei numa de comer. (…) Nunca fui de beber, mas comecei a tomar cerveja e vinho. (…) A imprensa falando em Copa do Mundo e eu nem sabendo o que estava rolando. De acordo com o fuso horário da Coreia do Sul e do Japão, os jogos aconteciam de madrugada. Naqueles horários, eu estive bêbado ou dormindo. Era um fodido.”

Mas Alex não guarda mágoa de Parreira por não ter sido chamado em 2006. Ele acredita que seu grande momento era mesmo no ano da Copa na Ásia. Um dos jogadores da seleção naquele momento, Ronaldinho Gaúcho afirma no livro que Alex foi o melhor jogador com quem jogou junto.

Em 2003, o habilidoso camisa 10 tornou-se referência no Cruzeiro. Foi ídolo do time que teve três conquistas no mesmo ano: o campeonato estadual, a Copa do Brasil e o Campeonato Brasileiro. No capítulo dedicado ao ano, Alex conta diversas experiências que viveu com o técnico Vanderlei Luxemburgo.

A passagem pelo futebol turco também é bem explorada. A obra acaba documentando a idolatria dos torcedores do Fenerbahçe pelo brasileiro. A paixão deles é tanta que o camisa 10 ganhou uma estátua bancada pelos torcedores. É interessante percebermos a veneração dos estrangeiros a um brasileiro num país que nunca ganhou uma Copa do Mundo.

Alex na época em que defendeu o Palmeiras e foi fundamental na conquista da Libertadores de 1999
Alex na época em que defendeu o Palmeiras e foi fundamental na conquista da Libertadores de 1999

“Alex, a Biografia” é um livro indispensável para aqueles que não conseguem viver sem futebol. Seria interessante que mais jogadores tivessem a coragem do camisa 10. Mesmo com o fracasso recente na Copa, o futebol continua sendo o esporte mais popular do país. Nos bares, botecos, ônibus e táxis brasileiros ninguém fala sobre badminton, pelota basca, squash ou sumô. O futebol continua sendo a modalidade preferida dos brasileiros.

E um esporte notável merece livros notáveis. “Alex, a Biografia” é um trabalho desse nível.

Matheus Trunk é jornalista, pesquisador de cinema brasileiro e sócio da Sociedade Esportiva Palmeiras. É autor de “O Coringa do Cinema” (Giostri, 2013), biografia do cineasta Virgílio Roveda e “Dossiê Boca: Personagens e Histórias do Cinema Paulista” (Giostri, 2014). Colabora como repórter freelancer para a revista “Vice” (www.vice.com)

*****

Alex foi um craque. Talvez o último a ter vestido a camisa do Palmeiras. Um camisa 10 notável, para usar o adjetivo com que Matheus Trunk classificou a biografia. Quem nasceu nos anos 70 não teve lá muita oportunidade de ver grandes craques do Palmeiras – que é o meu caso.

Nos 70, a idade não permitiu ver Ademir da Guia. Quando os anos 80 chegaram, o horror já estava instalado no clube. com a seca de títulos e times tão pífios quando os que disputam a série C.

Na época da Parmalat, as coisas mudaram. Edmundo, Rivaldo e Djalminha encantaram os olhos do torcedor que sofreu por 20 anos, à espera de algum alento no campo. Essa sequência de craques culminou com Alex, o craque da 10 que fez a diferença na conquista da Libertadores de 1999.

Alex na semifinal da Libertadores-99 entre Palmeiras e River Plate
Alex na semifinal da Libertadores-99 entre Palmeiras e River Plate

Algumas partidas definem um jogador. O confronto contra o River Plate, na semifinal da competição, é o que define Alex. Uma vitória maiúscula, uma apresentação de gala do meia, coroada com dois golaços. O título inédito se consolidou naquele jogo.

Alex teve outras partidas memoráveis pelo Palmeiras. Foi autor de um dos grandes gols da história do futebol, o do chapéu no Rogério Ceni. Claro, teve uma temporada impecável pelo Cruzeiro. E fez sucesso na Turquia. Mas aos olhos deste torcedor Alex é o cara que esteve em campo no dia 25 de maio de 1999, no antigo Parque Antartica, e ajudou a construir um 3 a 0 categórico.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s