Arquivos, Comentário, Estados Unidos, Não ficção

Dos arquivos: “Zeitoun”, de Dave Eggers

Após escrever sobre “Um Holograma para o Rei”, de Dave Eggers, recuperei este texto que estava no blog antigo, já fora do ar. Trata do livro “Zeitoun”, uma espécie de reportagem ficcionada sobre um homem vítima do Katrina e que se vê mergulhado num labirinto sem saída de preconceito e burocracia. É um livro pertinente e muito bem escrito.

*****

12903_ggImpossível não apelar para o clichê e dizer que “Zeitoun” é uma obra com sabores kafkianos. Mais do que isso, é kafkiana à enésima potência. Poucos livros conseguem ser um retrato de uma época tão fiel como este escrito por Dave Eggers. Nunca os EUA de George W. Bush foram tão bem fotografados como aqui – Michael Moore não chega aos pés deste trabalho.

“Zeitoun” (Companhia das Letras) é um relato jornalístico com técnicas de ficção. Sua época: os acontecimentos imediatamente anteriores e posteriores ao Katrina, em Nova Orleans. Eggers conta a história de Zeitoun, um sírio-americano dono de uma empresa de serviços de construção familiar, comandada por ele e a mulher, Kathy. São conhecidos numa certa região de Nova Orleans, é homem de confiança de muitas famílias.

Quando o Katrina se aproxima, Zeitoun tira sua família da cidade e permanece na casa, para cuidar dela e de suas propriedades. Não esperava que fosse algo grave. A história provou o contrário, e fez da opção de Zeitoun um inferno.

Logo depois da inundação, Zeitoun pegou um bote e começou a navegar pelas ruas, procurando pessoas presas em casa. Ele alimentou cachorros abandonados, levou idosos para pontos de segurança, ajudou amigos. Falou diariamente com sua mulher, que insistia que ele saísse de lá. Ele ficou.

Um dia, um grupo de policiais entrou na casa onde Zeitoun e mais três amigos estavam e os prendeu. Sem dizer o motivo. Eles foram levados para uma prisão que lembrava Guantánamo, sem direito a advogado ou a fazer um telefonema. Depois, foi transferido para uma prisão de segurança máxima, quando descobriu que ele estava preso por ser suspeito de pertencer à Al-Qaeda.

Enquanto isso, sua mulher sofria com o desaparecimento do marido. Sem notícias, não sabia como encontrá-lo. A situação parecia sem saída, pois não existia comunicação. No final, após muito sofrimento, Zeitoun foi solto.

Eggers narra com precisão, sem exageros e sem tomar lados. Mostra um retrato da paranoia que tomou conta dos EUA pós-11 de setembro. Mostra as arbitrariedades cometidas pelo governo Bush, em nome da segurança nacional. Sem razão nenhuma, prendeu um homem que estava ajudando no caos instalado em Nova Orleans. Sem direito a nada.

O livro não discute se as medidas de proteção foram certas ou não, se Nova Orleans agiu certo depois ou não. Concentra-se na história de Zeitoun e como ela se insere naquele momento. Os fatos são os coadjuvantes que suportam o drama de Zeitoin.

Paralelamente, Eggers vai ao passado do casal, às origens de cada família, sua formação, a opção religiosa, o que cria simpatia com as vítimas. Alterna focos, ora em Zeitoun, ora em Kathy, e dá agilidade à leitura – rompi suas 392 páginas em três dias.

Se “O Processo”, de Kafka, tornou a obra do escritor em adjetivo, este “Zeitoun” deveria se tornar retrato de uma época.

*****

Sinapses: Mais Dave Eggers no blog:

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s