Comentário, Estados Unidos, Ficção

Dave Eggers e o prazer da leitura

fcb6e09e-ed92-42e6-a3e6-4d72fb03f830A frase que abre “Um Holograma para o Rei” (Companhia das Letras) dá algumas pistas do que trata o romance de Dave Eggers: “Não é todo dia que precisam de nós”.

De Samuel Beckett, a epígrafe indica que o autor vai retomar seu tema preferencial: a solidão do homem em meio a um entorno inóspito.

Foi assim com “Zeitoun”, livro que se baseia na história de um homem que foi confundido com bandidos após a tragédia do Katrina. Ou em “O Círculo”, distopia que turbina o mundo atual, de empresas que não respeitam privacidade.

Numa época de onipresença por conta de redes sociais, ainda é possível encontrar quem não queira ser encontrado, quem procure privacidade e queira fazer seu trabalho, voltar para casa e ter o prazer que é possível.

Alan Clay é uma espécie de caixeiro-viajante do século 21, como define a contracapa do livro. Representante de uma empresa de tecnologia, ele viaja para a Arábia Saudita a fim de vender um produto que vai configurar toda a comunicação de um novo bairro, desses construídos para se tornarem modelos mundiais – tecnologia de ponta nas construções, seja residencial ou comercial.

Com uma equipe de jovens executivos, ele se vê deslocado e quase sem função quando o rei não aparece para ver a apresentação, o tal do holograma que permitirár comunicação imediata no empreendimento.

Em meio a adiamentos e falta de estrutura, Clay avalia sua vida e os desencontros com a filha enquanto flerta com uma mulher que conheceu em Riad. Além disso, se envolve com um motorista contratado pelo hotel onde está hospedado para levá-lo até o empreendimento.

Lá, ele passa o dia enfurnado numa tenda sem ar condicionado e comida. O tempo de sobra abre questionamentos e o faz até se reduzir em meio aos jovens.

Clay acaba mergulhando na vida local, guiado pelo motorista. Vai conhecer sua família e entender como funcionam as coisas naquela cultura, uma relação recheada de tensão, principalmente após 11 de setembro. Ao final, encontrará uma espécie de redenção.

Eggers é um exímio contador de histórias. Seu texto é fluente, com uma prosa que provoca a leitura contínua. Chega ao ponto de transformar a história em algo secundário e levar o exercício da escrita ao ponto principal do livro. Mas sem prolixidade, sem exageros, sem arrogância, faz da leitura um prazer que poucos conseguem hoje.

“Um Holograma para o Rei” é leitura para um fim de semana, quando o objetivo é que ninguém precise de você.

*****

“Havia chegado a época do domínio da máquina sobre o homem. Era a ruína de uma nação e o triunfo de sistemas projetados a fim de impedir todo contato humano, o raciocínio humano, a capacidade de julgamento individual, a tomada de decisões. A maioria das pessoas não queria tomar decisões. E muito dos que podiam, tinham decidido cedê-las às máquinas.”

*****

Sinapse

 

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