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Dos arquivos: O estranhamento como arma para entender o Japão

12871_ggImagina-se que Tóquio, capital de primeiro mundo, esteja imune a certos crimes. Jake Adelstein fez o possível para provar que essa sensação não corresponde à realidade.

Em “Tóquio Proibida” (Companhia das Letras), o jornalista norte-americano de origem judaica desce ao submundo japonês para relatar casos de tráfico de mulheres, ações da Yakuza, a máfia local, e as relações com o poder. Para isso, lançou mão de sua experiência no país asiático para reportar – o estranhamento serviu como bússola para o livro

Ele, um estranho em uma cultura diferente da que estava acostumado, não poupa a si na hora de descrever embaraços e erros. Adelstein foi estudar no Japão e aprendeu a ler e escrever japonês. Com esses requisitos, buscou uma vaga no principal jornal do país. Surpreendeu-se ao ser chamado para trabalhar.

O livro começa narrando essas primeiras aventuras. O recrutamento de jovens jornalistas, o início de trabalho e a relação com os superiores balizam a primeira parte do enredo. Adelstein narra com leveza o que seria um relato autobiográfico, mas que é uma descrição do modo de ser e viver do japonês. Pequena maravilha.

Depois, ele vai mais fundo, ao ser escalado para cobrir bairros boêmios pela editoria de polícia. Vai conhecer a noite japonesa e seus meandros. Prostituição, casas de acompanhantes, pornografia, fetiches, até chegar ao tráfico de mulheres, Adelstein passa por tudo isso para compor suas reportagens. Ele conta como se aproximou de fontes e como a matéria se desenrolou. É interessante ler como os repórteres mantêm uma relação quase umbilical com os policiais. Eles vão às casas de investigadores à noite, levam presentes, jantam, um ritual natural, quase tradicional, que é respeitado e estimulado.

Nessa fase, chega à Yakuza. E seu faro de repórter fala mais alto quando descobre que um figurão da máfia conseguiu entrar nos Estados Unidos para fazer um transplante de fígado – Adelstein é detalhista a ponto de informar o motivo de vários japoneses terem mais câncer de fígado. Ele vai investigar a fundo e tocar num vespeiro. Sua vida é ameaçada e ele se vê abandonado pela mídia japonesa. Só consegue algum tipo de segurança quando publica a história no “Washington Post”.

Essa visita ao Japão é o que há de melhor em “Tóquio proibida”. Saber reconhecer costumes e aceitá-los como parte de uma cultura foi o que salvou Adelstein. O livro revela então um desconhecido, para derrubar estranhamentos.

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Sinapse

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