Comentário, Inglaterra, Não ficção

“Devoradores de Sombras” ilumina o caminho do jornalismo com a história de Lucie Blackman

lucielivroAs referências o comparam a “A Sangue Frio”, de Truman Capote, e “A Canção do Carrasco”, de Norman Mailer. E “Devoradores de Sombra” (Três Estrelas) cumpre a promessa que é vendida ao leitor.

O livro reportagem do jornalista inglês Richard Lloyd Parry é um mergulho profundo na história que paralisou Japão e Inglaterra na virada do século 20 para o 21: o assassinato da jovem Lucie Blackman.

Ela trabalhava em Tóquio como hostess, uma profissão muito comum na região de Roppongi, local de bares, restaurantes e casas noturnas que recebem executivos. Oficialmente, não envolve prostituição, mas as mulheres são estimuladas a conversar com os clientes e sair para jantar.

Lucie fazia parte do grupo de estrangeiras que viajam ao Japão para ganhar dinheiro. Pouco mais de um mês, sumiu sem deixar pistas, a não ser um telefonema no dia anterior, dizendo que estava tudo bem e que iria sair para jantar.

A polícia do Japão se mostrou desde o início pouca envolvida na investigação, que chamou a atenção da imprensa inglesa. Logo depois, Tony Blair, então primeiro-ministro britânico, entrou na história e pediu ao colega japonês maior empenho na investigação.

A história tem elementos que a transformam num thriller de resultado imprevisível, por mais que o fato real deixe claro o que aconteceu. Parry cobre todos os aspectos que envolvem a história, e isso deixa o livro com uma narrativa ampla e detalhada.

Espécie de estudo de personagem, o jornalista volta no tempo para contar a história de Lucie e sua família. Os pais e seus dois irmãos até parecem uma família normal, mas ao longo da história se revelam um exemplo moderno da ideia que Tolstoi apresentou em “Anna Karênina”.

O leitor vai compreender como funcionam a polícia e o sistema judiciário japonês. Os julgamentos, em sua quase totalidade, são meras formalidades para a condenação. O que vale é a confissão, obtida na fase de investigação – muitas vezes, pelo cansaço.

A construção da narrativa leva a história por caminhos que podem parecer supérfluos ou que pecam pelo detalhismo. Mas Parry consegue dar união e fluxo às diversas subtramas que insere na narrativa principal – mulheres que sumiram anteriormente, o contexto familiar, o jornalista poucas brechas deixa na história.

Joji Obara e Lucie Blackman
Joji Obara e Lucie Blackman

Impressiona o retrato que Parry faz de Joji Obara, o empresário milionário acusado de ter matado Lucie e outras mulheres. O jornalista descreve os fetiches e o modo de agir de Obara, tudo isso sustentado por uma memória das origens do personagem – de família coreana, imigrante e testemunha de várias disfunções no seu núcleo.

“Devoradores de Sombras” é um exemplo do que o jornalismo é capaz de fazer, em tempos de compartilhamento e de informação fácil. Mesmo com a proliferação de meios de divulgar o noticiário, o livro investiga e oferece um painel amplo e completo do crime, com todos os dramas, suspenses, horrores e surpresas – aliás, esse é outro mérito de Parry, fazer com que uma história conhecida se torne imprevisível para o leitor.

Anúncios

1 thought on ““Devoradores de Sombras” ilumina o caminho do jornalismo com a história de Lucie Blackman”

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s